domingo, novembro 8, 2026

InícioDestaquesVacinas teriam salvo 95 mil vidas se governo Bolsonaro não tivesse ignorado...

Vacinas teriam salvo 95 mil vidas se governo Bolsonaro não tivesse ignorado ofertas, calcula pesquisador

Uma das principais perguntas que a CPI da Covid tenta responder começou a ser esclarecida com documentos e depoimentos do gerente-geral da Pfizer e o diretor do Instituto Butantan: quantas mortes poderiam ter sido evitadas se o governo do presidente Jair Bolsonaro tivesse comprado vacinas contra covid-19 quando elas foram oferecidas pelos fabricantes e não seis meses depois?

Ao menos 95 mil vidas poderiam ter sido salvas, segundo cálculos conservadores do epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas (RS). Ou seja, os números podem ser maiores, mas essas doses de vacinas poderiam evitar no mínimo 1 em cada 5 mortes, se considerarmos que 496 mil pessoas morreram oficialmente de covid-19 no Brasil até o fim de maio de 2021.

Para chegar a esse número, Hallal explica à BBC News Brasil ter se baseado em dados epidemiológicos da pandemia e em dois depoimentos cruciais para a investigação no Senado sobre a condução da pandemia pelo governo Bolsonaro.

O primeiro foi prestado pelo gerente-geral da farmacêutica Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, em 13/05. Segundo ele, o governo Bolsonaro rejeitou três ofertas de 70 milhões de doses da vacina Pfizer/BioNTech, cujas primeiras doses poderiam ter sido entregues em dezembro de 2020.

Na prática, o acordo com a farmacêutica, se tivesse sido fechado quando foi proposto, teria garantido ao Brasil 4,5 milhões de doses de vacina até o fim de março de 2021. A primeira oferta de vacinas foi feita em agosto de 2020, mas o governo Bolsonaro só fechou a compra delas em março de 2021.

O segundo depoimento usado no cálculo foi prestado pelo diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, na quinta-feira (27/05). Segundo ele, o governo Bolsonaro rejeitou três ofertas de compra da Coronavac, sendo que uma delas teria garantido 60 milhões de doses da vacina, mesmo que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não tivesse autorizado ainda o uso desse imunizante.

Bolsonaro com Pazuello, em foto de 16 de janeiro
Legenda da foto,Pazuello é alvo de investigação da Polícia Federal por suspeita de condução falha das políticas de saúde contra a pandemia

Covas afirmou à CPI que a primeira oferta foi feita em julho de 2020, mas o governo Bolsonaro só acertou a compra em janeiro de 2021. Se tivesse comprado no momento da primeira oferta, o país teria 49 milhões de doses a mais do que tem hoje.

Dessa forma, se o país tivesse comprado as vacinas quando elas foram ofertadas pela primeira vez, teria hoje 50% a mais do que tem. Ou seja, quase 150 milhões em vez das 100 milhões atuais. Isso seria suficiente para vacinar praticamente todos os brasileiros dos grupos prioritários, que somam quase 80 milhões de pessoas. O Ministério da Saúde estima atualmente que a vacinação dessa parcela da população só seja concluída em setembro ou outubro.

O cálculo de Hallal leva em conta algumas variáveis, como a eficácia das vacinas, a quantidade de pessoas suscetíveis ao vírus e a taxa de letalidade estimada de covid-19 (que varia de uma faixa etária para outra).

Primeiro, a eficácia global das vacinas (94% para a Pfizer e 50% para a Coronavac). Esses dados correspondam à quantidade de pessoas vacinadas que não ficam doente após serem imunizadas, e não ao número de vacinados que não morrem (80%, no caso da Coronavac, segundo estudo do governo do Chile).

Ainda assim, Hallal optou neste momento por ser mais conservador em seu cálculo, mas afirmou que se aprofundasse a análise, o número de vidas salvas seria maior.

Segundo, Hallal considerou para seu cálculo, novamente sendo conservador, a taxa de letalidade de 1%, que é a estimada para a população em geral. Mas sabe-se que esse número é muito mais alto entre os idosos, que foram os primeiros a serem vacinados. Dados da Universidade Federal do Amazonas apontam uma letalidade entre 20% e 40% dos idosos com mais de 80 anos que acabaram infectados por covid-19.

Parcela da população vacinada contra covid ao longo do tempo. Taxa de pessoas que receberam pelo menos uma dose da vacina, em %.  .

Como resultado, calcula o epidemiologista, poderiam ter sido evitadas pelo menos 14 mil mortes com as 4,5 milhões de doses da Pfizer e 80.300 mortes com as 49 milhões de doses da Coronavac.

O pesquisador ainda avalia se fará cálculos mais precisos num artigo científico mais formal, que “certamente darão números ainda maiores”, sobre as vidas que poderiam ter sido salvas com a compra das vacinas.

Por que o governo Bolsonaro não comprou as vacinas quando elas foram ofertadas?

As razões que levaram o governo Bolsonaro a rejeitar as ofertas de vacinas em 2020 não estão totalmente claras, mas algumas delas foram apontadas também pelo ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, em seu depoimento à CPI da Covid.

Sobre a vacina da Pfizer, o general citou alguns obstáculos para assinar o contrato. Um deles era o preço de US$ 10 (cerca de R$ 50) por dose, mais alto que outro imunizante negociado pelo governo federal com a farmacêutica AstraZeneca (US$ 3,50 ou cerca de R$ 18). O valor de US$ 10 acabaria sendo aceito pelo governo Bolsonaro sete meses depois.

Outros empecilhos, segundo Pazuello, eram a quantidade pequena de vacinas, a não transferência de tecnologia para o país (presente nos contratos com a AstraZeneca e com a Sinovac) e “cláusulas assustadoras” e “leoninas” no contrato com a Pfizer.

Uma delas era a exigência de isenção de responsabilidade da farmacêutica sobre eventuais efeitos colaterais. Segundo a Pfizer, os termos contratuais eram padronizados e foram aceitos pelos demais países do mundo que adquiriram, antes mesmo do Brasil, as vacinas da empresa.

No caso da vacina Coronavac, produzida em parceria entre o Instituto Butantan e a farmacêutica chinesa Sinovac, Dimas Covas afirmou que depois de meses de negociação e insistência, um documento de compromisso de compra chegou a ser acertado entre o Butantan e o governo federal em outubro, mas o presidente Jair Bolsonaro “mandou cancelar” o contrato e o compromisso “ficou em suspenso”.

Segundo o diretor do Butantan, não houve nenhum questionamento formal do Ministério da Saúde sobre possíveis dúvidas em relação à vacina. E, com a suspensão do acerto, o Butantan passou a enfrentar incertezas sobre o financiamento de sua produção.

Além disso, Covas afirma que a demora fez com que parceiros internacionais de fornecimento de matéria-prima de vacina fechassem contratos com outros fabricantes. Isso levou a uma disponibilidade muito menor de doses quando o governo Bolsonaro decidiu finalmente fechar contrato com o Butantan, seis meses depois.

Pelo menos dois fatores influenciaram a decisão de Bolsonaro de não fechar contrato com o Butantan. Primeiro, divergências com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), visto por Bolsonaro como seu virtual concorrente na disputa pelo Palácio do Planalto em 2022. O Butantan é ligado ao governo paulista.

A vacinação no mundo

Clique ou toque no mapaZerar

Total de doses por 100 pessoasSem dado01020304050+Ver a tabelaFiltrar:                                     Mundo                                     África                                     Ásia                                     Europa                                     Oriente Médio                                     América Latina e Caribe                                     América do Norte                                     Oceania                                 

LugarDoses por 100 pessoasTotal de doses
Mundo23,21.809.046.854
China40,5586.769.737
Estados Unidos86,9290.724.607
Índia14,6201.203.166
Brasil30,765.268.576
Reino Unido93,862.658.639
Alemanha57,848.385.907
França50,734.267.697
Itália54,532.958.928
Turquia33,928.605.453
Rússia19,027.739.956
México21,527.709.853
Indonésia9,425.782.177
Espanha55,125.745.178
Canadá59,222.347.313
Polônia50,719.175.171
Chile94,318.018.443
Arábia Saudita39,013.583.574
Marrocos35,713.165.669
Emirados Árabes Unidos126,712.531.970
Argentina25,511.503.476
Japão8,811.176.328
Israel122,210.573.587
Bangladesh6,09.901.717
Colômbia17,48.842.360
Holanda51,68.840.874
Hungria88,38.530.199
Romênia39,17.526.513
Coreia do Sul13,26.757.397
Bélgica54,16.267.216
Paquistão2,86.130.509
Portugal53,05.405.830
Grécia50,95.305.355
República Tcheca47,05.033.399
Suécia48,64.910.807
Áustria54,04.865.100
Filipinas4,14.495.375
Sérvia65,24.437.750
Suíça49,24.261.552
Camboja25,24.219.733
República Dominicana37,34.041.312
Austrália15,33.906.668
Cingapura63,73.728.869
Peru10,53.452.784
Tailândia4,63.208.882
Dinamarca55,33.202.613
Irã3,73.141.577
Cazaquistão16,53.097.941
Mianmar5,52.994.900
Mongólia87,62.872.572
Malásia8,82.859.864
Finlândia50,72.810.669
Nepal9,42.741.964
Uruguai77,92.707.032
Noruega46,42.513.951
Eslováquia45,22.469.258
Catar84,72.440.930
Irlanda47,62.349.207
Egito2,12.128.164
Azerbaijão20,32.055.986
Equador11,52.025.156
Nigéria0,91.939.737
Jordânia18,41.879.809
El Salvador28,21.832.228
Kuwait42,61.820.000
Sri Lanka8,41.790.688
Bahrein97,31.655.790
Etiópia1,41.655.244
Croácia40,11.645.332
Uzbequistão4,91.642.744
Bolívia13,41.564.349
Lituânia57,21.558.393
Costa Rica28,61.457.802
Bulgária19,01.321.786
Ucrânia2,61.116.006
Vietnã1,11.034.867
Eslovênia49,81.034.827
Panamá23,21.001.690
Quênia1,8960.379
Zimbábue6,2927.990
Angola2,6859.979
Gana2,7847.871
Tunísia7,0831.824
Cuba7,1798.655
Albânia26,4759.043
Laos10,3750.783
Líbano10,6725.333
Bielorússia7,5710.922
África do Sul1,2700.904
Estônia51,3680.857
Letônia35,4667.827
Afeganistão1,5590.454
Chipre65,4572.426
Nova Zelândia11,7562.149
Iraque1,4549.969
Uganda1,2541.569
Senegal3,1513.332
Malta113,0498.726
Costa do Marfim1,9496.319
Territórios Palestinos9,6489.698
Butão62,6482.716
Maldivas86,8469.381
Guatemala2,4429.959
Ruanda3,1400.096
Moçambique1,3393.105
Moldávia9,3376.969
Malauí1,8347.638
Taiwan1,4333.716
Luxemburgo52,6329.390
Venezuela1,1316.000
Paraguai4,3304.725
Togo3,7304.630
Omã5,8296.894
Sudão0,7290.500
Guiné2,2285.924
Macedônia do Norte13,4278.619
Guiana31,2245.614
Islândia71,5243.924
Bósnia-Herzegóvina7,1232.706
Maurício17,3220.646
Honduras2,1208.843
Guiné Equatorial14,7206.625
Montenegro28,8180.839
Nicarágua2,5167.500
Jamaica5,6164.703
Níger0,7159.525
Zâmbia0,8146.129
Geórgia3,5138.781
Barbados46,4133.214
Seicheles134,4132.161
Somália0,8125.582
Líbia1,6106.559
Jersey102,0103.044
Fiji10,493.000
Mali0,487.525
Ilha de Man102,987.476
Comores9,280.023
Trinidade e Tobago5,779.461
Ilhas Cayman120,779.344
Suriname13,478.542
Gibraltar226,176.189
Argélia0,275.000
Tadjiquistão0,874.403
Namíbia2,972.533
Belize18,171.916
Botsuana3,071.500
Bermuda110,568.822
Serra Leoa0,864.966
Camarões0,264.829
Timor Leste4,863.753
Guernsey94,163.091
Libéria1,155.690
Kosovo0,00055.237
Quirguistão0,854.101
Bahamas12,850.242
Santa Lúcia25,045.986
San Marino125,142.448
Turcomenistão0,741.993
Antigua e Barbuda40,439.519
Congo0,738.268
Lesoto1,736.759
Eswatini3,035.227
Dominica47,534.219
Brunei7,733.850
Andorra41,832.317
Ilhas Turks e Caicos79,430.760
Ilhas Faroe62,930.719
Mônaco73,028.663
Samoa14,328.443
Mauritânia0,628.382
Gâmbia1,126.893
Tonga24,625.970
Cabo Verde4,424.382
Madagascar0,07921.912
São Cristóvão e Nevis40,321.459
Groenlândia36,820.910
República Democrática do Congo0,02219.597
Granada17,319.519
Armênia0,619.249
Liechtenstein50,019.078
Iêmen0,06218.555
São Vicente e Granadinas16,618.417
Gabão0,817.272
Ilhas Salomão2,416.581
Ilhas Virgens Britânicas49,715.031
Djibuti1,514.943
São Tomé e Príncipe6,614.509
Anguilla88,213.235
Benin0,112.934
Papua Nova Guiné0,111.537
Sudão do Sul0,0778.606
Nauru68,27.392
Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha116,87.091
Guiné-Bissau0,35.889
Ilhas Malvinas ou Falkland126,54.407
Síria0,0142.500
Montserrat48,62.428
Tuvalu20,42.400
República Centro-Africana0,014667
Ilhas Pitcairn100,047
Burkina Fasso00
Burundi00
Chade00
Coreia do Norte00
Eritreia00
Haiti00
Ilhas Cook00
Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul00
Kiribati00
Niue00
Tanzânia00
Território Britânico do Oceano Índico00
Toquelau00
Vanuatu00
Vaticano00

Ver mais

Atenção: estes dados são atualizados constantemente mas podem não refletir os números mais recentes de cada país. O total de vacinações se refere ao número de doses aplicadas, não ao número de pessoas vacinadas, por isso é possível ter mais de 100 doses para cada 100 pessoas.

Fonte: Our World in Data, ONS, gov.uk

Última atualização: 28 de maio de 2021 12:31 GMT

Segundo, a pressão de militantes de direita que, a partir do momento em que Pazuello anunciou a compra da Coronavac, passaram a circular em grupos de WhatsApp de apoiadores do governo teorias conspiratórias contra a vacina desenvolvida pela chinesa Sinovac. Termos como “VaChina” e “Fraudemia” são empregados com frequência nestas correntes.

Em entrevista à rádio Jovem Pan em outubro de 2020, Bolsonaro disse que o governo federal não compraria nenhuma vacina oriunda da China, mesmo que ela fosse aprovada pela Anvisa.

“Da China nós não compraremos. É decisão minha. Eu não acredito que ela transmita segurança suficiente para a população pela sua origem. Esse é o pensamento nosso”, disse Bolsonaro, que acabaria fechando o contrato em janeiro de 2021.

Até o fim de abril, quase 80% das vacinas aplicadas no Brasil eram a Coronavac.

BBC

ARTIGOS RELACIONADOS

MAIS POPULARES