É evidente que nos dias atuais experienciamos muita angústia e ansiedade, duas sensações que se interligam e se retroalimentam; duas irmãs que se originam no mesmo ventre da mudança de estado e posição. Atualmente, muitos motivos perturbam os nossos pensamentos. O tempo nos atropela, vai adiante de nós e o perdemos de vista. Ficamos desnorteados, sentindo os desconfortos do abandono, tentando alcançar um tempo veloz e apressado, sem misericórdia pelos que ficam no meio da estrada. Esta é uma das características originais da angústia e ansiedade: sensação de abandono no meio do caminho. A sociedade humana está em transição e, talvez, você também se sinta assim, sentado no meio da estrada, olhando para a imensidão atrás e para o inalcançável à frente.

Para o psicanalista Lacan (1901 – 1981), a angústia surge no momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está, em direção a um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais se poderá reencontrar; para o filósofo Karl Jaspes (1883 – 1969), o sentimento frequente e torturante é a angústia. O medo se refere a alguma coisa. A angústia é sem objeto; por sua vez, Freud, segundo Fonseca (2009), em Inibição, sintoma e angústia (1976), estabelece uma relação entre angústia, o perigo e o desamparo (trauma); a angústia surge como uma reação a um estado de perigo que pode levar à vivência de desamparo.

Compreendo que este desamparo nos remete ao afastamento da sensação de completude, onde há uma perda da visão sobre si e nos sentimos perdidos em nós mesmos, vazios de nós mesmos, sem nenhuma imagem coerente diante do espelho. Este fenômeno é inaugurado na nossa primeira viagem em direção à luz, quando nos percebemos com uma visão turva, sem percepção e compreensão de onde estamos e do que nos cerca. Este episódio natal é o episódio inaugural que traz a angústia para a consciência e realidade do ser humano. Essa inauguração, em concordância com Freud, citado por Fonseca (2009), é a transição traumática do parto, na qual, em minha perspectiva, o vazio passa a ser visível na forma de um umbigo. O parto traz a angústia à consciência sensível, pois ela passa a ser sentida na realidade da existência tangível. O buraco umbilical se estabeleceno centro do nosso ser, como um campo energético gravitacional, conduzindo-nos num ciclo vital de preenchimento. Tudo em nossa vida será atraído em direção a esse magnetismo central. Poderíamos exemplificá-lo na imagem de um buraco negro que atrai tudo ao seu redor.

A nossa trajetória pelo canal vaginal, portanto, origina o “angustus (angústia)” (latim), cujo significado éestreito, apertado. A sua correspondente hebraica,צרה  tsarah (hebraico), carrega a ideia de importunador, proveniente da raiz צרר  tsarar  atar, ser estreito, estar em aperto, … . Na mesma essência, angústia, no grego, é συνοχη sunoche, com o sentido de “a parte estreita de um caminho”. Há, aqui, a confirmação de algo que importuna internamente e produz a sensação de estreitamento, ou o de estar imóvel no meio do caminho desconhecido, sem poder de ação e sujeito a forças desconhecidas.

No meio do caminho, a angústia é produzida na dúvida, no dubius (latim), palavra que provém do grego di e do latim bi (dois, duas vezes). Na hesitação entre duas possibilidades, foge a sensação de controle e surge o desejo por tê-lo. Neste sentido, o forte desejo pelo controle que não se tem faz aumentar a sensação de aperto (angústia). É como estar num caminho estreito e se debater em busca de uma saída, a fobia aumenta, ou seja, o estado do medo irracional é elevado, sendo esse o maior nível da ansiedade. A força aplicada contra as paredes se volta para si mesmo, aumentando a pressão. Emocionalmente, isto significa uma autocobrança em possuir o controle. Nisto, a ansiedade é elevada nos pensamentos divididos, visto que em grego, ansiedade é merizo — mente dividida, em partes.

Hoje, nos múltiplos papéis em que o ser humano precisa desempenhar e nas várias possibilidades de caminhos, sente-se a angústia e a ansiedade. Estamos na era em que a mente precisa aprender a ser multifuncional, diferente das eras passadas, lugar de poucas opções de escolhas e funções. Embora, estejamos na era multifuncional, a mente ainda busca apenas uma função, um certo, um caminho, uma vontade divina… produzindo um ser mais angustiado e ansioso. Talvez, esse seja o modelo registrado em nossa concepção de Ser, onde só há UM óvulo a ser penetrado por UM espermatozoide, ou por dois ou três em algumas exceções. A mente de antes não cabe no mundo de hoje, é preciso se reinventar e isso leva tempo numa sociedade. Enquanto indivíduos, podemos tentar aliviar a pressão interna da autocobrança em ter o controle excessivo e perfeccionista. É preciso quebrar as paredes que pressionam, é preciso soltar as mãos sobre o próprio pescoço para aliviar o sufocamento.

Num século de mudanças e multifuncionalidades, a ansiedade é considerada o seu mal. A mente não está mais fixa e estável – inteira num único propósito, está se dividindo o tempo todo, em vários propósitos, possibilidades e momentos de decisões. Tudo é feito em partes neste modelo social, numa linha de produção. Por exemplo, a mesa que antes era produzida apenas com um pedaço de madeira, hoje é feita por partes – as pernas, o tampo, o assento… Da mesma forma, a mentalidade humana está em partes, partida, dividida em várias tarefas, funções e desejos. A ânsia da ansiedade aparece, provocada pela dúvida em cumprir este ou aquele desejo. Entre o desejo do dever do Id (princípio imediato do prazer) e o desejo do dever do Superego (princípio da consciência moral – leis internas). Desejos que a nossa alma inventa ou aceita das imposições externas sociais. Enquanto a sentença não se cumpre e o desejo não é saciado, o tempo vai “passando por cima” e a alma continua sofrendo com o enjoo e, o corpo, com o desconforto. O desejo é como um filho semeado em nosso ventre, tem o tempo em que provoca enjoos. A ansiedade é proporcional ao tamanho e a quantidade de desejos existentes em nossa alma. Quem muito deseja e quem muitos desejos tem, muito sofre com a ânsia. Quem muito quer fazer nascer o desejo, muito se angustia pelo não poder fazê-lo. Muitos desejos dividem a nossa mente, tornam a nossa alma em partes. Quem sabe, por isso, a ansiedade agravada é um grande mal na sociedade atual, pois ela implanta na alma dos indivíduos muitos desejos que fazem brotar a dúvida constante e crônica diante das muitas possibilidades que fazem adoecer de ânsia. Em relação a alguns desejos, socialmente inventados ou implantados em nós, causadores de ansiedade, o melhor é colocar o dedo na garganta e abortá-los. Entretanto, a respeito de outros desejos, vale esperar o seu tempo de concepção. Em particular, cada indivíduo deve compreender a gestação de seus desejos.  

Em um de seus aspectos, a ansiedade pode culminar numa crise de ansiedade, também conhecida como síndrome do pânico ou ansiedade generalizada, cujo organismo entra em um colapso provocado por uma grande descarga de cortisol e outras bioquímicas, tendo como combustível alguma lei interna não cumprida ou desejo reprimido e inaceitável precursora de uma cobrança e culpa mental por senti-lo. Há, assim, dois desejos: um desejo inaceitável e outro desejo de não sentir o desejo inaceitável. Esse conflito pode ocorrer no campo inconsciente. Alguém, por exemplo, pode ter um desejo de matar a mãe (ou alguém); outro pode ter um desejo sexual considerado imoral…. Embora pareçam desejos horríveis, podem ser bem comuns dentro de nós. Esses desejos, ao serem reprimidos e negados, viram uma SOMBRA irracional — um monstro sem forma —, que provoca um conflito interno (inconsciente) gerador de tensão, cobrança e culpa. Se houver uma crença fortemente moral, a mente duelará, disparará uma carga e apertará o botão do pânico. É preciso afrouxar as cordas do superego (consciência moral – CRENÇA moral) e resignificar os desejos. Os desejos em si não são bons ou ruins; eles não têm idade, gênero ou sexo. A consciência moral, estruturada socialmente, é que determina o que é inaceitável ou aceitável.

Vejamos as estruturas do PÂNICO, oriundas do deus PÃ da mitologia grega. Significa “medo de Pã”. Essa figura mitológica é também conhecida como Fauno, um ser com chifres e pés de bode. É considerado o deus dos bosques e da natureza. Tão horrível é a sua aparência que sua mãe o abandonou ao dar a luz. Em certo momento da história, a Igreja o colocou como personificação do Diabo. No campo psicológico da crise de ansiedade ou síndrome do PÂNICO, pode-se associar ao contexto mitológico de PÃ, visto que o mesmo está relacionado as forças da natureza, isto é, as forças do instinto ou paixões primitivas (raiva, ódio, desejo sexual. …). Desta forma, um dos fatores que alimenta o momento do pânico é o medo de PÃ, ou o medo das paixões primitivas, as quais são partes constituintes da humanidade. Trata-se, portanto, de um afastamento da própria humanidade, devido às crenças rígidas e perfeccionistas estabelecidas, sobretudo, por arquétipos como o HERÓI e o SALVADOR. As pessoas possuídas por esses arquétipos (ou personalidades) e por uma estrutura psíquica da Neurose (superego ou consciência moral castradora) tendem a ter um desejo dual sobre suas paixões, tal como é no mito de PÃ. A imagem do deus causa espanto e atração. Há uma cobrança e um conflito interno de atração e fuga, por isso a palavra FOBIA (PHOBOS – FUGA). Na mente, existe, consciente ou inconsciente, um desejo ou emoção que se quer, mas que, ao mesmo tempo, torna-se inaceitável. Ex: quero matar meu pai, mas não devo; quero fazer sexo, mas não devo; odeio meu filho, mas não devo…. Neste caso, é preciso despossuir-se dos arquétipos heroicos, tendo consciência da existência dessas forças e aceitando as paixões primitivas como parte da humanidade sem, entretanto, viver apenas as paixões, e sim subjuga-las a compreensão da racionalização, para gerar um estado de Eudaimonia — “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio” —, segundo o bem estar compreendido pelos filósofos estoicos.

A fuga, referida acima, gera uma crise identitária, uma das bases da crise de ansiedade, isto é, identidades ou personalidades se conflitam entre si. É o momento em que a máscara (persona ou personalidade arquetípica social – herói, salvador, vingador, mestre,…), colocada pelo indivíduo para ocultar uma identidade indesejada, começa a ser confrontada. A identidade indesejada, reprimida na infância e soterrada, quer se manifestar, mas a identidade da máscara social (falso self ou falso ego) não permite, produzindo um colapso. A mente se divide ( = merizo gr. = ansiedade) no conflito entre os desejos aparentemente opostos, como já visto. É como se a mente dissesse “Eu tenho uma máscara, quero tirar, mas não consigo… quero poder ser diferente, mas não consigo…”. Em outra perspectiva, a máscara arquetípica tem autonomia e vida própria, e  carrega o peso de uma kenodoxia, isto é, um tipo de ostentação e endeusamento que cobra obediência e fidelidade do indivíduo. A pessoa se sente presa no dever de ser de uma certa forma, querendo, ao mesmo tempo, ser de outra. É preciso, portanto, compreender e aceitar as duas facetas ou personalidades. Entendendo que ambas coexistem e podem se manifestar. O lado “bom” e o lado “mau” podem conviver sem a culpa exacerbada. Para tal, é necessário um processo profundo de autoreconhecimento.

Antes de continuarmos no tema da crise fóbica da ansiedade, creio ser interessante adentrarmos alguns conceitos acerca do medo, visto que a ansiedade funciona dentro do mecanismo cerebral do medo. O psicólogo César Coneglian, em uma de suas explanações, comenta sobre três palavras no Novo Testamento que fazem referência ao Medo. São elas: Deilia, Eulabeia e Phobos. Seguindo o pensamento do colega, Deilia diz respeito a covardia e timidez; Eulabeia compreende a prudência e Phobos é entendido como a fobia e paralisia, a qual também envolve a timidez de Deilia. Portanto, Eulabeia corresponde ao medo natural da sobrevivência, aquele que nos faz refletir sobre se podemos avançar ou não diante de uma situação. Deilia, por sua vez, é quando nos tornamos tímidos diante dessa situação e não avançamos. Phobos é a timidez que também paralisa, no entanto, a diferença entre Phobos e Deilia é a agressividade, visto que Phobos significa “fazer fugir”. Sendo assim, a fobia é quando, além de paralisar diante da situação, eu tenho um desejo profundo de que aquilo fuja da minha presença, isto é, não quero falar sobre o assunto, não quero ver tal pessoa, não quero passar por aquela rua e, coloco-me numa posição de agressividade e resistência. Deilia, em contra partida, não é um medo agressivo. Dentro deste contexto, Eulabeia é o medo primário e natural; é o alerta primário, o qual é disparado no estímulo do tálamo (centro sensorial) e na ativação da amígdala cerebral e, a partir desse momento e segundo os conteúdos psíquicos inconscientes de cada indivíduo, haverá a Deilia ou o Phobos.

            Após observarmos um pouco sobre as facetas do medo, retornamos ao tema da crise fóbica e o uso de medicamentos. De acordo com a Revista Pesquisa Fapesp (Edição 84, Fev, 2003), ao pesquisar sobre os estados mais severos da ansiedade — crises de pânico —, Giovannetti, da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo), observa que mesmo com uma droga ideal, que atue sobre o glutamato ou o óxido nítrico (mensageiros químicos), “de forma isolada, nenhum medicamento resolve o pânico, a ansiedade e as fobias”. “Os remédios ajudam, mas não modificam a essência que gera o problema, porque o homem é um ser biológico, psíquico e social. A existência de cada um de nós não reage apenas a fatores orgânicos”, comenta o psicanalista. A matéria da Fapesp afirma que a conclusão do psiquiatra Mário Eduardo Pereira foi semelhante durante o tratamento de portadores de transtorno de pânico na Unicamp. “Em geral, os medicamentos eram úteis para controlar as crises, mas isso era insuficiente para o tratamento clínico desses indivíduos”, declara. “Muitos pacientes tinham medo de começar a usar a droga; outros, quando paravam o tratamento, apresentavam novas crises, que gerava a necessidade do uso continuado do medicamento.”

A revista continua:

Disposto a entender melhor o problema, Pereira embarcou em 1995 para um doutorado em psicanálise na Universidade Paris VII, na França. Ao avaliar, agora sob o ponto de vista da psicanálise, portadores de transtorno de pânico atendidos da universidade entre 1984 e 1995, constatou a predominância de dois grupos distintos: o daqueles provenientes de famílias superprotetoras, que viveram sempre num ambiente seguro, sem nunca ter de fato enfrentado por si mesmos a realidade da falta de garantias da existência; e outro, com características opostas, de membros de famílias que encaravam os fatos do cotidiano como aterradores. “Começamos então a compreender que, do ponto de vista clínico, o tratamento medicamentoso só faz sentido caso se tenha uma visão mais ampla do indivíduo”, comenta Pereira. “É preciso saber como surgem as crises e quais as dimensões simbólicas e pessoais envolvidas em sua vida em conexão com os ataques.”

            Certamente, muito há para ser falado acerca dos mecanismos da ansiedade e angústia. Deixo, porém, apenas uma introdução, afirmando que não podemos desumanizar o estado ansioso e angustiado. Estas sensações corporais, motivadas por fatores emocionais e neuros transmissores são defesas do nosso organismo, existem para a nossa sobrevivência e crescimento. Segundo Freud (1923), “Sensações de natureza agradável não contêm nada que seja impulsionador, ao passo que as de desprazer têm esse fator no mais alto grau, as de desprazer impelem em direção à mudança…”. O medo, a angústia, o vazio, a tristeza, a dor, o prazer e o sofrimento são sintomas da humanidade. Não queira eliminá-los por completo. Eles nos lembram de que somos humanos e estamos vivos. Aprendamos a conviver com os sintomas. Assim, não podemos, jamais, viver sem estas sensações. Todavia, precisamos nos atentar para o excesso dessa defesa natural e nos utilizarmos do nosso maior remédio — a respiração consciente e profunda —, trazendo a mente para o agora, removendo-a do perigo, da ameaça inconsciente e da preocupação, em outras palavras, da ocupação do amanhã e frustração do agora, entendendo que a ansiedade não é a incapacidade de estar no presente, e sim a incapacidade de contemplar-se e perceber-se no presente. A mente fica dividida entre uma visão do passado e o futuro, entre o olhar de uma criança interna ferida e um modelo futuro ideal. Nisto, o Eu, no presente, fica ocultado no sentimento de desamparo e perigo, fica estático no meio do caminho. Diante desse quadro, o melhor a se fazer, ainda que com dificuldade, é racionalizar para inibir os estados infantis irracionais do sistema de sobrevivência do medo, produzir um movimento, respirar e caminhar devagar, porque a vida é caminho, às vezes, pausa, nunca estática.

Por Carlos Colect – psicanalista/filósofo

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