Setembro amarelo: Curitibana vence anos de depressão e atribui superação a voluntariado com crochê

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Mais de 11 milhões de brasileiros têm depressão. ‘Um dia, uma pessoa pediu para eu ensinar a fazer crochê, e eu disse sim. Esse sim foi um gatilho para a minha vida’, afirma mulher.

A curitibana Luciana Cortez, de 41 anos, conviveu a vida toda com a depressão. Ela fazia parte dos 11 milhões de brasileiros que, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), têm depressão. Em todo o mundo, são mais de 300 milhões de pessoas com a doença.

A história de Luciana começou a mudar graças ao crochê e ao trabalho voluntário. Essas duas atividades ajudaram Luciana a superar a doença.

Ela já chegou a tomar seis remédios por dia para depressão. Hoje, usa um: “Tenho uma vida normal. Como tem gente que toma remédio para pressão alta, eu tomo para depressão”.

Doença mais incapacitante do mundo

A maior parte dos casos de depressão no Brasil é registrada em mulheres (10,9%), conforme a PNS. Nos homens, o registro da doença é de 3,9%.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão é a doença mais incapacitante do mundo e a 2ª principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos de idade.

Apesar dos números alarmantes, a OMS afirma que menos da metade dos diagnosticados está em tratamento.

Em 2015, foi criada no país uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio. A ação foi batizada de “Setembro Amarelo” e tem como objetivo dar mais visibilidade à causa ao debater o tema.

Infância e adolescência

Luciana teve uma infância traumática. “Eu apanhava na escola. Um menino em batia todos os dias na hora do recreio”, diz.

Por vergonha, não contava para a família, nem para as professoras. “Me sentia culpada. Me isolava”, lembra. Na adolescência, Luciana conta que sofreu racismo e ficava isolada, pois tinha medo de ser rejeitada.

“Sempre me mantive sem amigos para me preservar. Eu brincava com as formigas”, afirma.

Traumas

Para Luciana, os grupos de crochê são uma forma de terapia — Foto: Fernando Cortez/Arquivo pessoal

Para Luciana, os grupos de crochê são uma forma de terapia — Foto: Fernando Cortez/Arquivo pessoal

Luciana começou a tratar a depressão já adulta, depois do casamento, incentivada pelo marido. Mas, episódios de violência – como presenciar uma chacina e ser vítima de sequestro relâmpago – fizeram com que a depressão dela piorasse.

Luciana foi internada mais de uma vez por causa da depressão e de crise do pânico.

“Atrapalhou minha vida em todos os sentidos. Comecei a ficar pele e osso, minha vida ficou bem complicada”, relata.

Após todas essas situações, Luciana resolveu mudar do bairro de classe média onde morava para o bairro da mãe, que é um local com vulnerabilidade social. Ali, começou a fazer crochê na garagem.

“Um dia, uma pessoa pediu para eu ensinar a fazer crochê, e eu disse sim. Esse sim foi um gatilho para a minha vida”, afirma.

Luciana diz que dar aquelas aulas fez tão bem para ela que decidiu procurar mais interessados em aprender crochê. “Fiz um plaquinha de papel ‘aulas grátis’ e deixei os tapetes expostos”.

Iniciativa se transforma em ONG

A iniciativa acabou se transformando na ONG Lucianas e Marias. Com o número de alunos aumentando, Luciana passou a dar aulas nas casas das pessoas. Atualmente, ela e o grupo formado por 10 voluntárias dão aulas em unidades de saúde de Curitiba.

'Através do artesanato, me sinto curada das condições que vivia', diz Luciana — Foto: Fernando Cortez/Arquivo pessoal

‘Através do artesanato, me sinto curada das condições que vivia’, diz Luciana — Foto: Fernando Cortez/Arquivo pessoal

“Através do artesanato, me sinto curada das condições que vivia. Tenho meus traumas, mas me sinto resolvida”, relata.

A maior parte das pessoas atendidas por Luciana tem depressão. Um dos grupos, o primeiro a ser criado, tem cerca de 30 pessoas participando das aulas de crochê. “Nosso objetivo é colocar a pessoa como prioridade. O artesanato nos une, mas é secundário”, explica.

“Com o artesanato, levantamos a autoestima. Mostramos que a pessoa tem importância para ela mesma e para alguém. Resgatamos a criatividade, estreitamos os laços. A gente quer desvirtualizar as relações. Nossa diferença é o calor humano”, afirma.

Luciana diz que continua indo ao psiquiatra porque tem outros casos de depressão e de doença mental na família. Então, prefere manter o acompanhamento médico. Ela não faz terapia, mas garante: “Meus psicólogos são os grupos”.

Luciana e os alimentos de crochê que fez para uma exposição — Foto: Fernando Cortez/Arquivo pessoal

Luciana e os alimentos de crochê que fez para uma exposição — Foto: Fernando Cortez/Arquivo pessoal

As dificuldades

O caminho para superar ou amenizar a depressão é longo. Maria Aparecida Alves Feitosa, de 54 anos, está nessa batalha.

Ela convive com a depressão há mais de 15. Desempregada, não consegue trabalho por causa depressão – que tem causado surtos e tristeza.

“Está saindo do controle. Às vezes, tenho medo do que posso fazer, dos meus pensamentos”, conta.

Maria Aparecida toma remédio controlado para a depressão. Por mês, ela gasta mais de R$ 600 em medicamentos. É um custo que pesa no bolso, ainda mais estando sem emprego, mas, não pode deixar de tomar a medicação.

Maria Aparecida tem depressão há mais de 15 anos; ela conta que encontrou alento na costura  — Foto: Arquivo pessoal

Maria Aparecida tem depressão há mais de 15 anos; ela conta que encontrou alento na costura — Foto: Arquivo pessoal

Crises

Maria Aparecida vive com o companheiro, o ex-marido com quem tem uma união estável. Ela o chama de anjo da guarda.

“Tenho crises de choro dia e noite. Não tenho vontade de fazer mais nada, não tenho como pagar as contas. Meu companheiro é quem faz tudo, cuida de mim e da casa e me ajuda com as despesas”, diz.

Uma vez por semana, Maria Aparecida vai ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, para fazer terapia.

“Fiz muita amizade, mas a terapia em grupo não ajuda muito, não é o tratamento adequado. Sou obrigada a pagar consulta com um médico particular. Vou duas vezes por ano, porque não tenho condição de pagar mais”, explica.

Esse médico é o neurocirurgão que acompanha Maria Aparecida desde 1998, quando foi atropelada por um carro e teve traumatismo craniano. Por anos, precisou tratar as sequelas do acidente.

Alento

Maria Aparecida encontrou alento na costura e no voluntariado.

“Ganhei uma máquina de costura. Arrecado roupas, lavo, passo, reparo e doo essas roupas. Isso me faz muito bem”, diz.

Porém, nem sempre ela consegue fazer essa atividade. “Quando não estou bem, como agora, fica tudo bagunçado. A costura serve como terapia, mas tem hora que abandono tudo do jeito que está porque sinto uma angústia. Faz quatro semanas que estou nessa bola de neve”, afirma.

Nessas horas, Maria Aparecida diz que é a religião que a mantém em pé: “Me apego a Deus”.

A depressão

O médico psiquiatra Paulo André Grabowski afirma que fatores do ambiente em que vivemos têm mudado muito, o que pode estar associado ao desenvolvimento da depressão.

Entre esses elementos, de acordo com o especialista, está a taxa de exposição à luz, o controle climático de ambientes internos, alimentos, carga de trabalho, aumento de estresse e o sobrecarregamento do sistema nervoso central com informações devido ao uso de tecnologia – como os smartphones.

Porém, essas não são as únicas causas. “Depressão é uma doença multifatorial, poder ser causada por questões de hábitos de vida até influência genética”, afirma.

Segundo o psiquiatra, a falta de perspectiva futura é o principal sintoma da doença identificado por uma pessoa leiga.

“Ela não pensa de forma positiva sobre os eventos futuros da vida, não deslumbra felicidade. Esse é o sintoma mais central da síndrome depressiva”, explica.

Já o especialista avalia uma série de quesitos que diagnosticam a depressão. São eles:

  • Insônia diária ou sonolência excessiva
  • Alteração nos hábitos alimentares: ganha ou perda de apetite
  • Perda da capacidade de sentir prazer nas atividades do dia a dia
  • Perda da vontade de realizar atividades
  • Perda de energia ou vigor para desempenhar tarefas
  • Alteração de concentração e memória
  • Ideação suicida (pensar que morrer seria algo bom, conforme explicou o médico)
O médico psiquiatra Paulo André Grabowski conversou, com o G1, sobre depressão — Foto: Arquivo pessoal

O médico psiquiatra Paulo André Grabowski conversou, com o G1, sobre depressão — Foto: Arquivo pessoal

No Paraná, de acordo com a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), dados preliminares apontam que 893 pessoas tiraram a vida no ano passado.

O número é maior na comparação com os anos anteriores – em 2017, por exemplo, foram 773 suicídios; em 2016, 762; enquanto em 2015, foram 715.

Contudo, a Sesa ressalta que, embora a depressão seja o transtorno mental mais associado ao suicídio, não é o único.

O tratamento

O diagnóstico da depressão é clínico. Grabowski diz que ainda não existem exames que detectem a doença. Para o médico, o profissional mais adequado para tratar a depressão é o psiquiatra. “Muitas pessoas ainda têm preconceito”, afirma.

“Algumas formas de depressão são curáveis, e outras são necessárias tratar a vida inteira”, explica o médico.

O tratamento da depressão é feito com medicamentos antidepressivos, conforme o psiquiatra. Além disso, o especialista afirma que a prática de 40 minutos de atividade física três vezes por semana tem evidências positivas no tratamento da doença.

A demora em começar o tratamento pode ser um agravante pois, segundo o psiquiatra, há tipos degenerativos de depressão. “A gente ainda não diz qual é [degenerativa], porque não tem exame para dizer. A recomendação é que busque ajuda o mais cedo possível”.

Nos casos de depressão degenerativa, o paciente pode ter sequelas se ficar sem tratar a doença. Grabowski exemplifica dizendo que a pessoa pode melhorar da tristeza intensa, mas pode achar que nunca mais teve a mesma disposição, a mesma iniciativa ou o mesmo otimismo.

Outra sequela, conforme o psiquiatra, pode atingir a concentração e a velocidade de processamento do paciente. “A pessoa pode dizer que esses fatores nunca mais foram os mesmos desde quando começou a ter depressão”, diz.

Jovens e mulheres

O médico afirma, como também mostram os dados da PNS e da OMS, que a maioria das pessoas com depressão é jovem e do sexo feminino. Grabowski diz que, possivelmente, isso está relacionados com determinadas influências.

“Os transtornos genéticos começam a se expressa no início da juventude, e as mulheres têm a questão da oscilação hormonal típica do ciclo hormonal feminino”, explica.

De acordo com o psiquiatra, antes da primeira menstruação e depois da menopausa, o índice de depressão é igual entre homens e mulheres.

Entretanto, durante o período da vida em que as mulheres menstruam, o número de mulheres com depressão é entre três e cinco vezes maior do que casos de homens com a doença, ainda segundo o médico.

G1PR

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