Práticas sugeridas podem causar problemas à saúde, diz nutricionista; confira lista de aplicativos que podem contribuir para uma vida mais saudável
Você já ouviu falar nos aplicativos que oferecem recompensas financeiras para quem emagrecer? Eles existem e, aos poucos, estão ganhando popularidade. No Brasil, as opções ainda são poucas, mas, nos Estados Unidos, o número de ofertas de sites e aplicativos é maior. Porém, apesar de parecer uma ideia interessante, especialistas alertam para os riscos que este tipo de serviço pode oferecer para a saúde.
A popularidade de alguns desses aplicativos é expressiva. O DietBet, por exemplo, conta com mais de 400 mil usuários em 90 países, segundo o site oficial. Lá, eles dizem ainda que já foi pago um total superior a US$ 21 milhões (cerca de R$ 84,5 milhões) aos vencedores. Já o HealthyWage tem mais de 100 mil downloads apenas na Google Play Store, não sendo possível mensurar o número de usuários que recorrem ao site. Ele não está disponível na App Store.
Os aplicativos trabalham com diferentes formas de compensação financeira. Alguns funcionam no esquema de aposta e, para este, é preciso que pelo menos duas pessoas invistam uma determinada quantia. Quem emagrecer mais rápido, leva o prêmio. Em outros, o próprio usuário aplica seu dinheiro e, conforme vai alcançando os resultados, este valor vai se valorizando. Quanto mais rápido, mais rendimento financeiro.
Para a nutricionista e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Ronimara Santos, estes apps podem ser a motivação que falta para quem quer perder peso. “Depende do formato do aplicativo. Acredito que aqueles que trabalham com a motivação na tentativa de estabelecer uma rotina são muito válidos. Por exemplo, como quando você ganha para ir à academia ou para preparar suas refeições. Às vezes, é o empurrãozinho que falta para superar a preguiça”, opina.
Parâmetros de recompensa
Na maioria dos aplicativos disponíveis hoje no mercado, o peso corporal é o parâmetro para obter a recompensa. Para a nutricionista, este não é o método mais justo de cálculo. “Vamos trabalhar com a hipótese de propor uma perda de peso 4% de peso em 28 dias. Em que fase do emagrecimento essa pessoa está? É natural que, quando a gente comece uma nova rotina alimentar e de exercícios, o peso reduza um pouco mais rápido nas primeiras semanas”, explica.
Segundo Ronimara, este processo de emagrecimento mais acelerado no começo de uma nova rotina alimentar, muitas vezes reflete a perda do excesso de líquido acumulado e, não necessariamente, de gordura. “O mesmo raciocínio vale para o emagrecimento entre homens e mulheres. De maneira geral, os homens têm mais facilidade para perda de peso do que as mulheres devido a fatores hormonais e de composição corporal. Então, como comparar duas pessoas usando a mesma métrica?”, questiona.
Transtornos alimentares
Outro importante alerta é que o uso de apps que, de certa forma, pressionam por resultados, pode alimentar ou agravar um quadro de transtorno alimentar. Por exemplo, ao encorajar pesagens diárias. A nutricionista, conta que desaconselha a prática aos pacientes que procuram seu consultório.
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Apps que pressionam para emagrecer podem prejudicar sua relação com a comida, alerta nutricionista — Foto: Divulgação/Freepik
Para explicar melhor, Ronimara ilustra com o caso hipotético de uma pessoa que passou o dia cumprindo com rigor as regras de alimentação e exercícios. Porém, ao se pesar no final do dia, o resultado pode atrapalhar tudo o que foi construído. “Ela percebe que não perdeu peso e fica chateada. Como se esforçou e não viu resultado, ela desiste e resolve se compensar com comida ou parar de praticar exercícios”, sugere a nutricionista. Outra possibilidade é que esta pessoa note que, de fato, perdeu peso. “Ela fica contente, então decide que, no fim de semana, vai poder até comer mais, já que agora tem uns “quilinhos” sobrando”, imagina a nutricionista.
Por fim, em um terceiro cenário, o indivíduo conclui que “engordou” em relação ao dia anterior, mesmo com todo o esforço que foi feito. “Ele ganha peso e fica decepcionado. Desiste e entende que aquilo não é para ele. Em todas essas possibilidades, o foco em um número não resolveu de fato a questão da mudança de hábitos. Só alimentou o ciclo de recompensa. Além disso, o peso por si só não diz muita coisa: você pode ter perdido peso porque está desidratado, ou pode ter ganhado peso porque está fazendo musculação e aumentou a massa muscular, por exemplo”, pondera Ronimara.
Os riscos da recompensa financeira
Para Ronimara, apesar dos benefícios que a tecnologia em geral pode trazer, é preciso estimular outras forma de medir o resultado do processo de mudança de estilo de vida. E isso não envolve, necessariamente, ganhar dinheiro. “Uma dor que não sente mais, uma noite bem dormida, a regularização do hábito intestinal, a redução do cansaço, por exemplo, são outras formas de entender que você está mudando para melhor”, incentiva a profissional.
Além deste, outro alerta importante é o que a ambição em embolsar o prêmio pode levar uma pessoa a fazer. “O dinheiro pode desencadear o uso de métodos extremos para perda de peso, como purgações, jejuns prolongados não orientados e excesso de exercício físico, o que não são práticas saudáveis para o organismo e que contribuem para o efeito sanfona”, reforça.
Aliando tecnologia e saúde
Só que a relação entre tecnologia e saúde não precisar ser ruim. Muito pelo contrário. A nutricionista é uma entusiasta de apps que podem contribuir para melhorar o sono, diminuir stress, ajudar na organização pessoal e aumentar a produtividade. Mas ela reforça que os aplicativos não podem, jamais, substituir uma avaliação médica, de um nutricionista ou de um educador físico.
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App Querida Ansiedade traz opções para promover relaxamento e bem-estar — Foto: Eduardo Manhães/TechTudo
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