Conheça a história de outros pais que também argumentam terem sido prejudicados com a mudança do plano; Unimed Curitiba diz que de maneira alguma foi interrompida a prestação da assistência à saúde.
A paranaense Pérola de Paula Sanfelice comemorou cada segundo da evolução da filha Pétala Sanfelice. Com três aninhos, a menina, que sofre da síndrome de rett, tinha poucas chances de andar e de falar, mas conseguiu dar os primeiros passos graças a um tratamento feito com vários profissionais nos últimos dois anos.
No último mês, a felicidade da mãe deu lugar a momentos de desespero. Ela contou que recebeu uma carta do plano de saúde contratado pela família, o Unimed Curitiba, dizendo que o tratamento da filha será interrompido pelos atuais profissionais. Com isso, Pérola teve um prazo de 180 dias para retomar o tratamento do zero e escolher terapeutas em nove clínicas diferenciadas em Curitiba, onde mora com a filha.
A síndrome de rett é uma doença genética rara que afeta, na maioria dos casos o sexo feminino, e prejudica o desenvolvimento motor e intelectual dos portadores.
“Eu achei inviável, desumano, eles não pensam na vida de uma criança, principalmente se ela tem alguma deficiência. Enfim, é um desespero absurdo. Minha filha precisa progredir no tratamento como estava fazendo e não regredir, ter que começar tudo de novo. Eu me sinto como se tivesse perdendo a minha filha”, desabafou a mãe.
Pérola disse ainda que já tentou ligar nas clínicas para tentar marcar as terapias para Pétala, mas para uma delas, conhecida como cuevas medek, não havia profissional capacitado. Ao tentar marcar a terapia ocupacional, que também é extremamente necessária para o tratamento da filha, Pérola foi informada que não havia data e nem horário disponível.
Preocupação
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Igor luta para conseguir manter um tratamento ideal para o filho Davi, de sete anos — Foto: Arquivo pessoal
O caso da curitibana não foi o único. A mudança da Unimed atingiu outros pais e mães de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e paralisia cerebral.
O publicitário Igor Lucas Ries, que reside na capital, também enfrenta uma situação parecida. Ele tem um filho de sete anos com autismo e também foi informado que os profissionais que fazem o tratamento do Davi, o filho dele, também serão desvinculados do plano atual.
A sorte, segundo Igor, é que há alguns anos, em 2015, quando já tinha dificuldades pra conseguir um tratamento adequado para o filho através do plano, ele entrou com uma ação judicial. Igor conseguiu uma sentença a favor do filho.
Por conta disso, segundo o publicitário, agora ele paga os profissionais, como se fosse particular, e a Unimed reembolsa o valor.
David depende atualmente de cinco terapias para um tratamento ideal – psicoterapia, fonoterapia, terapia ocupacional, psicomotricidade relacional e psicopedagogia.
“Eu ainda consigo fazer o tratamento do meu filho com os profissionais qualificados por ter conseguido essa sentença. Ou seja, a Unimed ainda se vê obrigada a me reembolsar. Mas a gente sabe que eles estão tentando ainda privar a gente disso, obrigar a gente a ir para uma clínica e entregar o nosso filho para um tratamento muito inferior ao que a gente já conquistou”, explicou Igor.
O publicitário disse ainda que é solidário com os demais pais que não tem mais como manter o tratamento com os antigos profissionais conveniados.
“O problema é que essas clínicas ainda não têm capacidade de atender outras crianças como o meu filho, por exemplo. E isso acontece porque ou essas instituições não têm espaço físico adequado ou não tem salas terapêuticas adequadas pra isso. Além disso, a maior parte dos profissionais não tem qualificação para o autismo”, ressaltou Igor.
A maior preocupação dele, neste momento, além de se solidarizar com os outros pais, é de não poder continuar oferecendo um tratamento adequado para David.
“Por mais que eu ainda consiga lutar por um bom tratamento para o meu filho, eu percebo que alguns pais estão lutando pelo mínimo. Eu vejo que atualmente, com essas mudanças dos planos de saúde, alguns pais não conseguem ter nem o mínimo. Então, isso não é brincadeira. Eu estou junto com os demais pais e dou toda força, sim”, argumentou o pai do Davi.
‘É apavorante’, diz mãe
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Pedro tem paralisia cerebral e depende de várias terapias semanais — Foto: Arquivo pessoal
A pesquisadora Patrícia Giselle Sarruf é mãe do Pedro, que tem paralisia cerebral e epilepsia. Pra ela, a mudança também trouxe dificuldades e indignação.
“A Unimed já vinha pagando as terapias do meu filho desde os seis meses. Aí, de repente, do dia pra noite, eles resolveram não continuar com os pagamentos e mandaram para as clínicas credenciadas em que só tem o nível um, mas meu filho já está no nível dois”, contou Patrícia.
Pedro tem dois anos e precisa de dez sessões de terapia por semana, divididas em duas por dia. Entre elas terapia ocupacional, estimulação visual e cuevas medek.
“É apavorante imaginar que vamos ter que começar tudo de novo. É toda uma rotina porque a vida do meu filho já não é fácil, né. Sem contar que a adaptação dele com os terapeutas demorou um ano. Ele só chorava no início. Aí depois que ele começou a melhorar, começou a se adaptar com as terapeutas e tudo, começou a evoluir de verdade, daí, de repente, a Unimed manda eu mudar de lugar”, reclamou Patrícia.
A pesquisadora disse ainda que se sente enganada. “Não dá pra confiar em nada. A gente faz plano de saúde achando que vai estar seguro, mas de repente fica sem chão com todas essas mudanças”, acrescentou.
O que diz a Unimed
Em nota, a Unimed Curitiba informou que foi a primeira operadora de planos privados de assistência à saúde do Brasil a autorizar os atendimentos de terapias especiais para as crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e que oferece aos seus clientes muito mais do que é exigido pela legislação que regula a atividade.
A empresa também disse que formou uma rede credenciada para terapias especiais e que isso está previsto em regulamentação da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementa).
“De maneira alguma foi interrompida a prestação da assistência à saúde a eles oferecida. Esse também é o motivo pelo qual a cooperativa prorrogou a migração de alguns clientes para 180 dias e instituirá cronograma individualizado para ultimar a transição dos clientes para a rede credenciada. Até lá, os clientes poderão manter seus atendimentos nos locais em que já realizam suas terapias”, diz trecho da nota.
A nota também diz que embora a mudança possa trazer alguma necessidade inicial de adaptação, fica clara a garantia de continuidade e segurança no atendimento aos clientes pelos prestadores credenciados.
G1PR
