sexta-feira, abril 17, 2026

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Intimidade: Sem a qual não há vida expansiva por Carlos Colect

Inicio este entendimento, utilizando-me da linha de raciocínio do texto bíblico de João: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus…E o Verbo se fez carne, e HABITOU DENTRO DE NÓS, […] (João1.1,2-14) (grifo meu). Aqui, obviamente, não me refiro ao contexto interpretado no âmbito eclesiástico, apenas observo o caminho que nos leva a habitação do íntimo. 

Sob o olhar psicanalítico, reinterpreto, trazendo para o campo psíquico, propondo que no princípio da vida — quando ainda informe e vazia —, era o estado caótico, ou seja, a angústia do não-saber, do não-ser, do não-sentido e não-significado; a angústia, por sua vez, era a falta, a falta era a tensão, a tensão gerou o desejo, o desejo produziu o Verbo — o Logos, a palavra em movimento. No movimento, o desejo se fez carne (soma gr. – somático), gerou o prazer e habitou dentro de nós. O sêmen foi introduzido, houve a intimação para adentrar o íntimo e se fazer UM com o outro. Estamos diante da concepção da vida, da gestação e da intimidade. De forma mais clara, éramos feto DENTRO do organismo materno.

O Ser humano, deste modo, é gerado a partir da intimidade, do desejo que intima ao íntimo. Em outras palavras, é gerado no íntimo de outro, seja este o GRANDE OUTRO dentro de mim ou fora de mim (se pudermos seprarar). Atrevo-me a dizer que sem a intimidade não há a concepção do Ser. Jamais haverá desenvolvimento se não houver o encontro íntimo, consigo e com o outro. Se não habitar e ser habitado não há crescimento. Se não houver habitação no íntimo do útero não há nascimento.

Intimidade é ser intimado a entrar num lugar íntimo, no qual se é convocado a não ser tímido, isto é, a não ter medo da exposição e, consequentemente, do julgamento alheio ou do autojulgamento. Esse é o lugar da intimidade: um local de exposição e desarmamento. Se não houver a nudez da alma, não há intimidade consigo ou com qualquer outro. Se quisermos agarrar as nossas máscaras em nossos corações, não avançamos no íntimo (de si ou do outro), permanecemos tímidos (reclusos no medo de sermos descobertos). 

Além disso, vale pensar que a intimidade transita num ambiente que não oferece perigo, ou que não se PERCEBE como ameaçador. Somente na confiança e percepção de que o outro — interno ou externo — não nos estuprará e violentará é que conseguiremos tirar as nossas roupas, acessórios e aparências. 

A essência vem a luz quando o aparente deixa de ser tímido (ter medo) diante do espelho. Contudo, nos dias atuais, prolifera-se o pânico da intimidade, pois amamos mais a aparência que a essência. Tememos atravessar a floresta, onde Pã — o ser mítico que simboliza as forças atraentes e repelentes da natureza — se apresenta, revelando a natureza horripilante e, por vezes, inaceitável, a qual desejamos ocultar por entre os arbustos e folhas verdejantes das árvores frondosas. 

De qualquer forma, diante do exposto neste breve texto, compreendo que jamais haverá Vida em desenvolvimento se houver o afastamento do útero da intimidade. Aquele que se torna tímido (com medo) e priva-se de habitar DENTRO de si ou de outrem, jamais experimentará o ROMPER DO PARTO e o caminho da expansão, pois este é o propósito natural: a expansão.

Tudo, na natureza, em uma pulsão de vida, expande-se, leva para frente. Aliás, esta é a etimologia da palavra “propósito” — aquilo que te leva para frente. Assim, o propósito da Vida é te levar para frente. Tudo o que te leva para trás, te faz regredir ou encolher está fora do propósito natural.

Neste prisma, a intimidade do encontro tem por objetivo te expandir, ainda que haja algum tipo de dor ou sofrimento. Precisamos, neste ponto, compreender o que o psiquiatra e psicanalista Viktor Frankl, afirma: “O desespero é o sofrimento sem propósito”. Ora, se propósito é sinônimo de expansão (aquilo que leva para frente), é preciso compreender que o sofrimento ou dor te faz expandir, caso não haja esta compreensão, entra-se no desespero e não há nada o que esperar. Compreenda, para a expansão da vida, muitas vezes, a dor se faz presente. Assim é desde o princípio, e este princípio caótico da angústia nos levará para a Intimidade. 

Carlos Colect – Psicanalista/Filósofo/Teológo

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