Da sua varanda, sobre as roupas de surfe penduradas para secar, o surfista inglês Andrew Cotton pode ver tudo: a faixa de areia, a névoa causada pela maresia, o pico de um rochedo e um farol vermelho.
Mas o mais importante é que Cotton pode observar as ondas de Nazaré, em Portugal.
Elas estão relativamente pequenas hoje, mas ainda é possível ver a espuma branca borbulhando e ouvir o barulho da água batendo na areia e voltando para o mar.E, quando as ondas estão altas para a prática do surfe, a história é outra.
Mas o medo permanece. É necessário. O perigo é claro demais, e os lembretes dele, muito recentes.Em janeiro deste ano, o surfista brasileiro Márcio Freire, de 47 anos, um veterano do mundo das ondas grandes, foi o primeiro surfista a morrer na Praia do Norte.
DuPont aceita este risco. Ela reconhece que, sempre que entra na água, pode não voltar.”É loucura, você se sente tão livre na onda quando está tudo bem, você se sente superviva, mas, quando alguma coisa dá errado, você pensa: ‘OK, eu posso morrer'”, diz ela.
“Há um breve momento em que você se pergunta o que vai acontecer. Há um suspense sobre como a onda vai atingir você e, embaixo d’água, é superviolento. Você precisa estar satisfeita com as boas coisas que fez na vida.”
A visão de Cotton é uma mistura similar de fé e fatalismo, baseada em sua própria experiência.Em 2017, enquanto era rebocado para uma onda por McNamara, ele avaliou mal uma linha e foi lançado para fora da prancha. Seu corpo foi arremessado a seis metros da onda em direção ao ar.
Quando ele caiu sobre a superfície da água, o impacto quebrou suas costas. Ele voltou a surfar em Nazaré um ano depois.”Não existe segurança completa, não há sentido em sair para a água com este pensamento”, ele afirma.
“Cair da prancha machuca, mas faz parte do surfe. Você não tem como apitar ou pedir tempo, as ondas não param. Ou você aprende a apreciar, ou simplesmente não faz.””Em alguns momentos, você pensa que tudo acabou, mas uma boa habilidade que eu tenho é conseguir desligar. Nessas situações, não penso em absolutamente nada e quase me conformo que estou morrendo.”
“Quando você consegue fazer isso, é surpreendente o quanto o corpo pode aguentar, quanto tempo você consegue prender sua respiração e como a mente é poderosa”, acrescenta Cotton.”Mas, se você entrar em pânico e seus batimentos cardíacos aumentarem, aqueles 30 segundos debaixo d’água podem parecer um minuto. Fica perigoso.”
‘Como um casamento’Em um esporte que normalmente é solitário, esses riscos geram estresse para a parceria entre o surfista e o piloto de jet ski.”Quando as ondas ficam muito grandes, é um esporte de equipe”, afirma Cotton.
“Todos precisam participar e precisa ser menos sobre você, mais sobre a equipe.””Você pode [um dia] ter o melhor surfe da vida e, quando começa a pilotar o jet ski, não consegue oferecer novas ondas para o seu parceiro. Pode ser frustrante, vocês podem discutir e, às vezes, você pode sair se sentindo culpado.””Pode ser como um casamento, você tem altos e baixos, dias bons e dias ruins”, diz ele.No caso de Dupont, os paralelos entre a vida pessoal e profissional são pertinentes.
“Certamente é delicado para um casal”, diz ela sobre trabalhar com seu parceiro.”Sei que ele vai fazer o melhor por mim, mas chegamos a um ponto em que sentimos o risco, e Fred tem dificuldade de me levar para uma onda muito grande.””Por isso, durante os dias melhores, comecei a trabalhar com [o surfista brasileiro] Lucas Chumbo. Eu o respeito e não discuto com ele. Com Fred, eu o respeito, mas, às vezes, preciso falar!”
“No começo, em Nazaré, era bom porque Fred e eu podíamos surfar muito e progredir rapidamente”, ela relembra.”Mas, quando você está no line-up nos grandes dias, em condições adversas, realmente você sente os riscos.””Você pensa: ‘O que estamos fazendo aqui, isso não é inteligente, deveríamos voltar para casa, nós nos amamos e temos uma vida boa’.
“Se colocar seu parceiro em uma situação de perigo é difícil, estar fora da cidade e do circuito talvez seja pior.Nos grandes dias de Nazaré, Fred continua na água. Mas, agora, ele trabalha no jet ski de segurança. A tarefa dele é retirar Dupont da água ao final da onda, em vez de lançá-la ao mar.
A esposa de McNamara, Nicole, tomou decisão parecida, se envolvendo, em vez de tentar ignorar o risco.Ela fica no farol. Lá, ela identificou no horizonte a onda que bateu o recorde mundial em 2011, instruindo McNamara, Cotton e Mennie pelo rádio para que se preparassem.Um ano depois, ela e Garrett se casaram em uma cerimônia no mesmo local. Eles têm três filhos, e Nazaré é o nome do meio da segunda.
A cidade é parte da estrutura familiar deles. É um ponto determinante da carreira de Dupont e Cotton. Mas todos eles fizeram o nome da cidade de Nazaré, da mesma forma que Nazaré fez os nomes deles próprios.
A repercussão na cidade
O jornal local Região da Nazaré não dedicou muito espaço à chegada de McNamara, em dezembro de 2010. Uma reportagem cobrindo a entrevista coletiva do havaiano, ao lado do então prefeito de Nazaré, Jorge Barroso, ocupou apenas um terço da página 12 do jornal.
Menos de quatro meses antes, uma reportagem especial sobre “profissões à beira da extinção” recebeu muito mais destaque.Abaixo da reportagem, havia uma fotografia de um tecelão produtor de cestos, José Manuel Rebelo. Em outra imagem, o sapateiro José Maria Eusébio apertava um par de chinelos. E a costureira Ana Emília Amada Curado Lourácio olhava para a câmera, ao lado da sua máquina de costura.
O texto lamentava o declínio das indústrias tradicionais em uma cidade de telhados de terracota e calçadas polidas. Ela receava o que o futuro poderia reservar.
A reportagem nunca poderia prever a grande onda que chegaria a Nazaré.Vendedores ambulantes e food trucks ocupam a estrada até o farol, enquanto ônibus repletos de gente, sobretudo jovens, disputam uma posição estratégica. Milhares de pessoas ocupam os rochedos. Drones com câmeras zumbem pelo ar, e os pilotos de jet ski e surfistas enfrentam ondas imensas.
Depois de alguma oposição inicial do outro lado do Atlântico, podemos dizer que Nazaré indiscutivelmente tem as maiores ondas do mundo. O recorde mundial de maior onda já foi quebrado duas vezes desde o feito de McNamara em 2011 — as duas vezes, em Nazaré.
O atual recordista é o alemão Sebastian Steudtner, com uma onda de 26 metros de altura que ele surfou em outubro de 2020.

A francesa Dupont e a brasileira Maya Gabeira disputam o recorde feminino —mas quem quer que vença a disputa, também será em Nazaré.
Além de ser a maior onda do mundo, Nazaré também é uma das mais acessíveis. Uma das maiores concorrentes da cidade portuguesa — Cortes Bank, na Califórnia, nos EUA — quebra a 160 km do litoral e só acontece alguns dias por ano.Já Nazaré fica a 90 minutos de carro do aeroporto internacional e quebra tão perto da praia que os espectadores podem ouvir do alto os gritos dos surfistas em um ambiente parecido com um estádio.
BBC
