Pais, suportem vossos filhos, por Carlos Colect

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A humanidade, há muito tempo, tem pensado sobre si mesma, sobre o seus comportamentos e relações. Hoje, compreende-se que o Ser humano só tem consciência da sua existência no encontro com o outro, o qual lhe é um espelho, um semelhante. Em outras palavras, eu só existo porque existe um outro que me diz que existo, sobre o qual reflito. Talvez, haja um estranhamento com este pensamento, porém, imagine-se um bebê, sem fala ou linguagem, num mundo onde não haja mais ninguém além de você e que você nunca tenha tido contato com outro igual a você. Tente imaginar como você saberia que você é o que é, e não outro? Sobre quais parâmetros comparativos teria tal discernimento e compreensão?


Há relatos de uma criança africana (JOHN SSEBUNYA, UGANDA) que, com aproximadamente dois anos de idade, após ver o pai matar a mãe, fugiu de casa para a selva e foi criado por macacos. Quando tinha seis anos, segundo a fala da comunidade, ele foi encontrado em uma árvore com os macacos. Segundo o relato de Paul — dono do orfanato em que foi recebido —, ao jornal The Guardian, “Ele era selvagem, ele tinha muitos cabelos, o que é aparentemente comum em crianças selvagens. Seus joelhos haviam ficado quase brancos, ao pisar neles. Suas unhas cresceram imensamente e se enrolaram”. No isolamento em que se encontrara, o menino teve dificuldade para andar, não aprendeu a falar e adquiriu comportamento agressivo.

Naquele momento, na selva, os semelhantes dele foram os macacos, com o quais se identificou e imitou. Ao ser retirado daquele ambiente, foi para o convívio com outras crianças. Espelhou-se na sua espécie e passou a adquirir comportamentos semelhantes. Contudo, o menino, atualmente, encontra-se com algumas dificuldades cognitivas, devido ao não desenvolvimento na fase em que foi cuidado pelos primatas. Entre os três e os seis anos, houve um déficit na fase anal e entrada na fase fálica, conforme os estudos de Freud acerca das fases do desenvolvimento humano. Os cuidadores não foram suficientes para lhe dar o suporte necessário para o desenvolvimento do seu Sistema Límbico (região cerebral emocional e afetivo) e Neocórtex (região cognitiva), o qual possibilita uma boa interação social.


Neste exemplo, mundialmente conhecido, observamos a importância das relações na primeira infância para a permanência da integridade do Ser, sobretudo, uma relação com qualidade entre pais e filhos. Tal importância se dá desde a vida intrauterina, onde nos moldamos e dependemos do organismo materno. Para além, ao adentrarmos a vida extrauterina, o outro é essencial para a constituição do indivíduo. Conforme o filósofo Aristóteles (384-322 a.C.), o sujeito só se realiza na polis, isto é, na comunidade em que está inserido. Só nos tornamos reais (realizar) na presença de outro. De igual modo, o provérbio hebreu, declara: “Assim como o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro.” (Provérbios 27:17). O verbo “afiar” indica “moldar, lapidar, preparar”. Seguindo este pensamento, no encontro com o outro, tomamos forma. Afinal, que forma? A dinâmica na relação determinará a forma que o indivíduo atingirá.


Sem dúvida, a primeira infância é fundamental na formação do Ser humano, enquanto sujeito no mundo. Muitos cientistas e pesquisadores elaboraram suas teorias em torno desta premissa. Um destes foi Freud que, no campo da Psicanálise, cunhou as fases psicossexuais da criança: Fase oral (0-18 meses), fase anal (18 meses-3 anos), fase fálica (3 anos-6 anos), fase da latência (6 anos-11 anos) e fase genital (após puberdade). Cada fase tem a sua importância na construção psíquica, emocional e física da criança, cuja repercussão se dará na fase adulta.


Com base nestes estudos, atenho-me a segunda fase psicossocial ou psicossexual da criança (anal: 18 meses – 3/4 anos), em cujo período ela passa a exercitar o controle dos esfíncteres. Nesta fase, o cérebro desloca o prazer para a região anal e se constitui num momento muito importante na construção da identidade do ser humano, principalmente no que diz respeito a autoconfiança, autonomia, autoestima ou, quando mal elaborada, vergonha e perda de potência de ação. De acordo com o psicanalista Winnicott (1896-1971), grande nome da psicanálise infantil, os pais precisam ser suficientemente bons, eles precisam suportar os filhos. Quando isso não ocorre, gera-se um desenvolvimento deficiente e emocionalmente frágil.


Na fase anal, as crianças manifestam um egoísmo e egocentrismo, elas dizem “este brinquedo é meu!”, “a mãe é minha!”, “isto é meu!”. Além disso, elas arrancam a cabeça da boneca, as rodas do carrinho, rasgam papéis e destroem os brinquedos como forma primitiva de marcar território e de obter a sensação de posse. Isto faz parte do processo saudável. Cabe aos pais suportarem e estabelecerem um limite na casa onde isso possa ocorrer, sem removerem os comportamentos, pois estas atitudes consistem num comportamento psíquico de construção da independência e entendimento do seu próprio espaço.


Para Winnicott, há três etapas no desenvolvimento do ser humano: a dependência absoluta, quando a criança não tem poder sobre si mesmo e é conduzida pelos pais e não há diferenciação entre Eu e o Outro; a dependência relativa, quando começa a perceber-se como indivíduo no mundo; e rumo a independência, quando se relaciona com o mundo externo através do princípio da realidade, não mais da fantasia.


Quando a criança se encontra na dependência relativa, durante a fase anal, ela inicia um caminho de busca pela independência. Naturalmente as perguntas surgem, a agressividade aparece, o Sistema límbico começa a dar os sinais da raiva. A criança contraria as ordens. É um momento difícil para os pais, porém, quando o seu filho de 4 anos não quiser te obedecer, não quiser tomar banho, … e te perguntar porquê deve ou não deve fazer algo, simplesmente diga “porque eu quero” (sem agressividade, mas com acolhimento). Remova a frase “porque não pode”. Ele pode, no entanto, não deve fazer porque você não quer. Não há a essencialidade de argumentar ou explicar, isso lhe dará margem para questionar ou quebrar a regra. Entretanto, deve-se ficar claro que isto não anula a necessidade de diálogos em outros momentos, onde a criança será instruída.


Vale, neste ponto, ainda, esclarecer que “não faça, porque EU NÃO QUERO” pode soar autoritário, mas não é, necessariamente. O que a torna uma posição autoritária ou impositiva é a forma com que é transmitida. Se ela carregar uma intenção agressiva e o acréscimo de “senão você vai apanhar!”. Sim, torna-se negativa, sendo que o comportamento se dá apenas pelo medo do castigo. Contudo, o “não faça isso, porque eu não quero”, associado ao acolhimento, é limite saudável. Este limite pode favorecer a criança, na fase adulta, quando alguém quiser força-la a algo. Em tal situação, ela poderá dizer “não faça isso, porque eu não quero”. Ela se percebe com potência de ação e um ser de desejo inviolável. Aqui, o Ser de desejo é diferente do ser deslimitado, arrogante e infantilizado que impõe os seus desejos ao outro.

É compreensível que, nesse período, os pais fiquem perturbados com os filhos e se sintam tentados a ceder a todos os seus desejos, bem como evitar a perturbação gerada pelo choro da criança frustrada, oferecendo algum tipo de entretenimento ou satisfação imediata a ela. Todavia, os cuidadores precisam suportar a raiva do filho (a), de modo que os filhos consigam lidar com o desejo não realizado. Como visto, este é um processo de construção de limite. O sistema psíquico da criança se sentirá frustrado e sofrerá, mas isso é importante para ela. Este processo a ajudará na construção da autoestima e a entender que existe outro desejo além do dela. Isso a ajudará a conviver em sociedade e a não matar ou não roubar, não porque a lei diz que “não pode”, e sim porque compreende que o seu limite começa na existência do desejo do outro.

*Por Carlos Colect – psicanalista/filósofo

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