Essa menina menstruou, foi humilhada e cometeu suicídio. Por quê?

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Durante o Setembro Amarelo, mês de conscientização e prevenção do suicídio, é complicado ver casos que, infelizmente, mostram que o buraco é muito mais embaixo. Na última semana, uma aluna queniana de 14 anos tirou a própria vida depois de ter sido humilhada na escola por causa da sua menstruação.

Segundo a mídia internacional, Jackeline Chepngeno foi ridicularizada pela professora da escola primária Kabiangek após passar pela menarca, a primeira menstruação, durante a aula e manchar o próprio uniforme.

A mãe da menina, Beatrice Koech, disse que a filha foi chamada de “suja” por conta das manchas no uniforme. “Ela não tinha nada para usar como absorvente”, explicou ao Daily Nation, “Quando o sangue manchou as suas roupas, disseram a ela para sair da sala e ficar lá fora”.

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O caso está sendo investigado mais a fundo pelas autoridades locais, e a escola ficou fechada depois que os pais dos alunos protestaram em frente à instituição exigindo explicações sobre o comportamento da professora e o acontecido.

No último dia 11, a parlamentar Esther M. Passaris postou no seu perfil no Twitter uma foto com outras deputadas do Quênia, repudiando o caso. O país conta com uma lei, aprovada em 2017, que determina a distribuição gratuita de absorventes nas escolas, mas o projeto ainda está em implementação.

A questão da menstruação na África

A educação sexual na África é uma questão, inclusive, tratada a fundo por ações das Nações Unidas. No continente, é muito comum as meninas deixaram de ir a escola por causa da menstruação – o que afeta, em muito, a sua educação básica.

Segundo a UNESCO, 131 milhões de meninas estão fora das escolas, sendo 100 mil delas em idade adolescente. O motivo que as deixa fora das aulas, muitas vezes, têm sim a ver com o período menstrual, tanto porque essas garotas não têm acesso aos itens de higiene básicos (como absorventes, mesmo que descartáveis), quanto são muito estigmatizadas e diminuídas durante a época menstrual.

Em outros casos, a falta de educação sobre o que é a menstruação, como ela acontece e como cuidar desse ciclo natural do corpo feminino gera sensações de medo e desconforto que afastam essas mulheres em formação do círculo social de ensino.

“A menstruação, ainda hoje, é vista como tabu, infelizmente. Muitas mulheres têm vergonha de estarem menstruadas. Isso é visto desde a adolescência, quando a menina fica constrangida de ‘sujar’ a roupa, como se fosse um ‘nojo’, o que é natural. Parece que o sangramento menstrual, apesar de ser normal, como urinar e evacuar, não é considerado fisiológico, o que é um absurdo”, explica a ginecologista Marcia Louzada Leroux.

Isso, inclusive, reforça as pesquisas da UNICEF sobre o assunto no continente africano – apesar desse estigma não estar restrito apenas a ele. A instituição relata que uma em cada 10 meninas na África deixa de frequentar a escola por causa da menstruação – estima-se que elas perdem entre 10 e 20% das aulas por causa disso.

A falta de acesso também é uma questão. Em países como o Malawi, um pacote de absorvente tem o mesmo valor que um dia de salário. No próprio Quênia, dois terços das mulheres e meninas não têm o suficiente para comprar esses produtos. Ou seja, além de um problema educação, essa também é uma questão de saúde pública e acesso à itens básicos e que deveriam disponibilizados a todos.

Menarca: o momento de transição

Segundo a ginecologista Yara Leitão, do Centro de Estudos e Pesquisas da Mulher (CEPEM), a primeira menstruação é um momento importante na vida de uma mulher. Fisicamente, “É o resultado de uma atividade ovariana, caracterizado pela produção de estrogênio e progesterona”, explica ela. Esses hormônios causam mudanças corporais como o aparecimento e o desenvolvimento das mamas, dos pelos pubianos, o início da libido e a possibilidade de ovular e engravidar.

“Normalmente, usa-se a premissa de ‘virar mulher’ porque é a partir da primeira menstruação que a menina vai adquirindo o corpo compatível com o sexo genético”, explica Yara.

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