Na escuridão do meio dia – Pedido de Socorro de uma Adolescente

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Three teenagers sat together

A Campanha do Setembro Amarelo este ano tem como foco a prevenção do suicídio entre os jovens. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) a morte auto provocada aparece como uma das principais causas de morte em jovens de 15 a 29 anos.

Estudos apontam que, embora o Brasil mantenha taxas menores que Argentina e Chile, há um aumento significativo de suicídios entre jovens – problema de saúde pública que precisa ser pautado e priorizado.

Estudos realizados no Sul e Sudeste do Brasil apontam alguns fatores que tornam os jovens vulneráveis a atentar contra a própria vida: abuso sexual, violência, uso de drogas, depressão, risco sexual e não heterossexualidade.

Em 2018, minha sobrinha Mariângela Costa Garcia, Assistente Social em Rosana – SP comentou e me enviou uma poesia selecionada em concurso e publicada no Livro de Poesia do Instituto Sociocultural e Ambiental do Pontal do Paranapanema (ISCAP).

Diferente de anos anteriores em que trabalharam com temas específicos, os organizadores no ano passado sugeriram que as redações pudessem ter tema livre, apostando no protagonismo do adolescente e na real disposição de ouvir o que eles tem a dizer.

Receberam uma quantidade de material cujo conteúdo de sofrimento, desesperança e angústia alertou os organizadores para a profundidade dos sentimentos expostos, o que criou a necessidade de discutir o assunto em reunião da rede de proteção a criança e adolescentes da região. Esta é uma entre tantas que foram vistas pelo Instituto. Confira:

Imagem de Pera Detlic por Pixabay

Na escuridão do meio dia

Continue encarando a depressão como brincadeira!

Encare-a como mais um motivo para caçoar daquele que se afasta da sociedade por medo.

Medo talvez, da rejeição.

Mate aos poucos aquele que pede desesperadamente  por socorro,

Com a boca cerrada!

as mãos atadas.

Presa aos pés, a âncora que os puxa para o fundo do abismo.

Ninguém percebe alguns por estarem ocupados com suas próprias vidas.

Já outros, indisponíveis por estarem “fabricando” a tal “âncora” de ofensas, deboches e humilhações.

Prontos para prendê-los a alguém.

Ninguém percebe o pedido de socorro estampado nos olhos.

Falta-lhe sensibilidade.

Amor ao próximo.

Vá!

Diga a estes miseráveis deprimidos o quão estúpidos são por se mutilarem.

Por não encararem o problema de frente.

Suicidas?  Ingratos egoístas!

Vá!

Atira sua pedra.

Afinal já está balanceado.

Uma ferida a mais não fará diferença.

Somente uma brincadeira.

Não machucará.

Não sabem o que é viver em um abismo cercado pelas trevas.

A morte não seria algo ruim.

Não sabem o que é dormir e querer não acordar.

Querer que tudo tenha fim.

Não é algo fútil.

Mutilação não é querer chamar atenção.

Não julgue suicidas.

Talvez não houvesse mais nada a ser feito.

Implorar para que? Ninguém ouve!

Foi um último recurso…

YPB – MENINA, 17 ANOS – CONCURSO DE POESIA DO ISCAP

Recentemente publicamos um texto – Suicídio – É possível Evitar em que Psicólogo Edson S. Hamazaki chama a atenção para o aumento dos casos de depressão e outros transtornos mentais no Brasil e no mundo.

O profissional fala como esta doença silenciada pelo preconceito vai fazendo suas vítimas e entre elas, adolescentes e jovens. O transtorno mental, a desesperança, a falta de sentido para a vida é uma das causas mais importantes do suicídio.

Enfrentar o problema passa pela abertura de diálogo – é preciso aprender a falar e ter pessoas que possam ouvir, apoiar, oferecer o ombro e encaminhar para atendimento especializado.

Mas apenas isto não basta! Minha sobrinha Mariângela fala deste assunto com o sentimento de frustração e impotência de quem se vê em um atendimento individual, sente a dor das crianças, adolescentes e compreende que o problema ultrapassa os consultórios e salas de aula.

É preciso compreender que tecnologia não substitui contato humano, escola não substitui família e que sentido de vida para estes adolescentes implica viver em uma sociedade que coloque como prioridade a empatia, a inclusão e oportunidades.

E não é utopia minha falar desta forma. Acesso à educação e saúde de qualidade e igualitária deve ser uma meta básica de convivência social – e só conseguiremos juntos, em uma união de forças, com comunidades focadas e organizadas a exigir direitos e responsabilidades, especialmente dos serviços públicos.

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