sábado, maio 30, 2026

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Santos Cruz, o general em missão de paz que sobreviveu a tiroteios no front e nas redes

O helicóptero sobrevoa uma região verde e montanhosa na República Democrática do Congo, e a câmera enfoca o general de farda militar e boina azul que observa o horizonte pela janela. Sobre as imagens, uma voz feminina apresenta, em inglês, o comandante da missão de paz das Nações Unidas.

“Em uma terra varrida por armas e violência, um homem tem a missão de transformar os mantenedores de paz em pacificadores: o general brasileiro Alberto dos Santos Cruz”, diz a narração, dando início a um documentário de 25 minutos da rede Al Jazeera sobre a missão de Santos Cruz no país africano, Congo e o General, de 2014.

Naquela época, entre 2013 e 2015, Santos Cruz comandava mais de 23 mil capacetes azuis da Organização das Nações Unidas, em uma rara missão de paz da ONU com autorização para atacar rebeldes. A tarefa lhe rendeu prestígio no âmbito internacional e nas Nações Unidas.

Corta para 2019, e Santos Cruz, com ternos em vez de fardas, é um dos militares que ocupam cargos-chave no governo de Jair Bolsonaro. Ocupa uma sala no quarto andar do Palácio do Planalto, um acima do presidente, como ministro-chefe da Secretaria de Governo (Segov).

Aos 67 anos, o general de reserva decidiu deixar a reserva para se aventurar na política – e virou o alvo mais recente de ataques de olavistas a militares do governo, capitaneados pelo ideólogo Olavo de Carvalho.

No mês passado, Santos Cruz recebeu xingamentos em série do “guru” de Bolsonaro nas redes sociais, foi publicamente criticado pelo filho de Bolsonaro, Carlos, e sofreu uma onda de ataques no Twitter que disseminou a hashtag #ForaSantosCruz.

O general, que já sobrevivera a uma aterrissagem de emergência depois de ter seu helicóptero alvejado por rebeldes no Congo, passou sem grandes danos pelos ataques virtuais. Mas o governo precisou vir a público negar especulações de que seria demitido.

Na Segov, Santos Cruz controla áreas estratégicas do governo, como a comunicação do Planalto e o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), que atrai investimentos privados para projetos de infraestrutura. A área da comunicação é especialmente sensível – e alvo de interesses do filho do presidente Carlos Bolsonaro e de seus aliados, alguns dos maiores críticos à atuação do general.

As críticas à sua atuação vêm da ala ideológica do governo, também ligada a Olavo de Carvalho. O grupo diverge do perfil de Santos Cruz que, assim como os outros militares do governo, é visto como parte de uma ala mais “moderada” do bolsonarismo.

Questionando as credenciais de Santos Cruz, os olavistas tentaram manobras para que Bolsonaro reduzisse o seu poder, e tirasse a Secretaria de Comunicação (Secom) de seu controle e até o exonerasse.

Santos Cruz
Image captionSantos Cruz se nega a falar sobre as acusações de Olavo de Carvalho

Discreto, conhecido pela expressão sisuda que gerou memes na internet, Santos Cruz se nega a falar sobre as agressões de Olavo de Carvalho – que chegou a chamá-lo de “seu merda” e “bosta engomada” nas redes sociais. Dias depois, Carvalho foi agraciado pelo governo com a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco, o mais alto grau de condecoração oficial.

“Eu exerço minha função”, continua. “Não tem muita consideração a fazer a não ser trabalhar. Para isso que a gente é pago, e é isso que a sociedade espera da gente. Não é ficar discutindo fofoca.”

Os embates explicitam as divergências entre os dois grupos do governo que mais influenciam Bolsonaro: Carvalho, um “ícone” que trabalha “contra a ideologia insana” de esquerda; e os militares, a quem deve sua “formação e admiração”. Essas foram as palavras usadas pelo presidente ao considerar as desavenças uma “página virada”.

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Santos Cruz já tinha tido passagens pelo governo antes de integrar a cúpula de Bolsonaro. Durante o mandato de Dilma Rousseff, ocupou brevemente uma assessoria na Secretaria de Assuntos Estratégicos, à época nas mãos de Moreira Franco. No governo Temer, chefiou a Secretaria Nacional Segurança Pública (Senasp), entre abril de 2017 e junho de 2018.

Quando a equipe de Bolsonaro estava se compondo, o general chegou a ser anunciado para voltar ao cargo na Senasp, ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, comandado por Sérgio Moro. Dias depois, entretanto, o presidente anunciou seu nome para a Secretaria de Governo (Segov).

A secretaria foi criada no fim do governo Dilma (PT), à época chefiada pelo petista Ricardo Berzoini, e no governo Temer foi controlada por Geddel Vieira Lima (MDB), Antônio Imbassahy (PSDB) e Carlos Marun (também do MDB). Nessa época, prevalecia a atribuição de fazer a articulação política com o Congresso.

Santos Cruz, entretanto, recebeu a pasta repaginada. A missão de fazer a articulação com o Legislativo passou prioritariamente à Casa Civil, sob Onyx Lorenzoni (DEM), com a Segov dando apoio à função, fiscalizando a liberação das emendas parlamentares impositivas e recebendo deputados e senadores.

Mas a Segov de Bolsonaro ganhou dois setores de peso: a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), responsável por toda a comunicação e verba publicitária do Planalto, atualmente com orçamento de R$ 109 milhões; e a Secretaria Especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), que coordena o programa de parcerias com o setor privado em projetos de infraestrutura, criado no governo Temer.

As novas atribuições se somam a outras responsabilidades da pasta, que controla as secretarias de Articulação Social, Assuntos Federativos e Relações Institucionais, entre outras.

Olavo de Carvalho
Image captionOlavo de Carvalho acusou Santos Cruz de tentar “controlar a internet”
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Na disputa de influência entre os militares e olavistas no governo, a ala ideológica questiona o poder de Santos Cruz sobre tantas áreas.

As divergências ficaram explícitas com o episódio envolvendo a campanha publicitária do Banco do Brasil, por exemplo, e com a dança de cadeiras na Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex). A agência já está no terceiro presidente neste ano, o contra-almirante Sergio Segovia, aliado de Santos Cruz, que assumiu em maio e exonerou dois diretores “olavistas” ligados ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Já a propaganda do BB, que explorava o tema da diversidade e foi tirada do ar por determinação do Planalto, expôs uma discordância de Santos Cruz com o próprio presidente. Embora Bolsonaro tenha vetado a campanha afirmando que “a massa quer respeito à família”, Santos Cruz afirmou que a Secom não poderia interferir na publicidade de estatais. A Lei das Estatais veda esse tipo de interferência.

O episódio motivou críticas explícitas do filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC), à Santos Cruz – afirmando nas redes sociais que havia “uma comunicação falha há meses da equipe do presidente”, e que ele tinha “literalmente se matado” para tentar melhorá-la.

À BBC News Brasil Santos Cruz diz que a verba publicitária do governo tem que ser alocada conforme “critérios técnicos”.

“Isso é fundamental”, afirma. “Depende do objetivo que você tem, do público que quer atingir, dos preços, se o veículo mais apropriado é TV ou é rádio. Tudo isso depende de uma avaliação técnica. Esse é o centro da questão”, afirma.

Ele vê a comunicação como “uma área muito sensível”, e diz que as estratégias devem ser traçadas “sem ideologia”. “Uma comunicação boa se faz quando você tem fatos de qualidade”, afirma.

“Quando o governo produz coisas boas, fica fácil fazer a comunicação e esclarecer o público. Ela está ligada à qualidade do que você faz na vida real. Sem ideologia. Uma comunicação informativa realmente, que não seja usada para a parte de ideologia, para plano pessoal, nem para plano de permanência no poder.”

Santos Cruz não demonstra irritação por receber críticas do filho do presidente. “A comunicação é muito importante, e os familiares [de Bolsonaro] são pessoas que têm todo o direito de expressar sua opinião”, considera. “Claro que quando eles expressam, acaba tendo mais repercussão.”

Atualmente os gastos do governo federal em publicidade, incluindo as estatais, não são divulgados de forma transparente. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica divulgam, por exemplo, que veículos de mídia foram pagos pelas instituições, mas não os valores discriminados.

Santos Cruz no Congo
Image captionMilitares descrevem a trajetória de Santos Cruz no Exército como “exemplar”
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As vantagens de ocupar um posto em Brasília incluem a possibilidade de estar perto da esposa – com quem assistiu ao Balé Nacional da China em meio à rotina apressada de viagens em maio -, dos três filhos, que têm entre 35 e 40 anos, e dos quatro netos. Ele diz ser apegado à família. “Eu gosto do meu pessoal.”

Já as desvantagens de estar nos holofotes ficaram evidentes com os ataques virtuais que sofreu em maio.

Olavo de Carvalho fez uma série de críticas a Santos Cruz nas redes sociais, resgatando uma entrevista dada pelo ministro à Jovem Pan e ao Estadão um mês antes. Santos Cruz afirmara que o uso das redes sociais exigia cuidado para evitar distorções, e defendeu o aprimoramento da legislação. O ideólogo acusou o general de defender “controlar a internet”, e a interpretação se difundiu, levando a hashtag #ForaSantosCruz a se tornar um dos assuntos mais discutidos no Twitter.

Ernesto Araújo, Olavo de Carvalho e Bolsonaro
Image captionGuru de Bolsonaro, Olavo de Carvalho disparou xingamentos contra Santos Cruz nas suas redes sociais

O pano de fundo para a crise é a disputa de poder entre a chamada ala “ideológica” do governo, com forte influência de Olavo de Carvalho, e os militares no Planalto.

Enquanto os militares defendem uma agenda pautada pela técnica e eficiência nas contas e políticas públicas, afirma o cientista político Rafael Cortez, a ala mais “ideológica” se imbuiu de uma missão “civilizatória”, ligada aos valores cristãos e à ideia de que o país precisa ser “saneado” da influência da esquerda.

“Não há um problema pessoal com o Santos Cruz. Ele está inserido nesse contexto maior. E, nesta disputa por hegemonia, os militares têm uma postura mais tímida, enquanto a ala ideológica é proativa nas provocações”, descreve Cortez, da Tendências Consultoria.

“São visões de mundo antagônicas, muito difíceis de conciliar”, resume o cientista político Maurício Santoro, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Mas também há uma disputa “muito real e cotidiana” por cargos e poder, destaca Santoro – sobretudo pelo controle da comunicação e da verba publicitária do governo, setores estratégicos que estão nas mãos de Santos Cruz.

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Sempre que a rotina permite, Santos Cruz madruga para praticar hipismo no 1º Regimento de Cavalaria de Guardas, a 20 km do Palácio do Planalto.

É acompanhado de alguns dos militares mais poderosos do país, como o comandante do Exército, Édson Pujol, e o vice-presidente Hamilton Mourão, que também foi alvo recente de ataques de Olavo de Carvalho.

O general descreve o hipismo como uma prática “maravilhosa” para manter a forma física e emocional. “A atividade hípica exige concentração. Você desenvolve aspectos de coragem, de habilidade, de determinação, de conjunto. De acreditar no que vai acontecer.”

Búlgaro, Seixo e Tempo são os três cavalos de competição do Exército que ele próprio treinou e considera “família”. “A gente pega amor pelos animais”, diz.

Santos Cruz nega a existência de uma ala militar no entorno da Presidência, e diz não haver disputa entre grupos.

“Não tem cabimento você fazer grupos dentro de um governo. Todo mundo tem que trabalhar na mesma direção, dentro da diretriz do presidente da República.”

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O amor pelos cavalos vem da infância na zona rural de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, onde nasceu. Na época eram “cavalinhos da roça”, e não os exemplares de elite de hoje.

Nascido em 1952, Santos Cruz ficou órfão do pai aos três meses, e da mãe aos cinco anos de idade. A educação que recebeu – em uma escola de madeira, mas com “professores excelentes” – foi fundamental para chegar onde chegou, disse em entrevista à jornalista Miriam Leitão em janeiro.

Na ocasião, contou que, com a herança que recebeu, só conseguiu comprar um toca-fitas. Mas agradeceu pelo papel que os pais tiveram em sua formação, mesmo com a pouca convivência que tiveram.

“Eles deixaram algumas prateleiras cheias de livros, que eu li quando era criança.”

Carlos Alberto Dos Santos Cruz em missão no Haiti
Image captionNo Haiti, general comandado 12 mil homens numa missão de ‘manutenção de estabilidade’

Santos Cruz tinha 16 anos, e nenhum militar na família, quando passou no concurso para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx).

Foi a porta de entrada para sua carreira. Formou-se aspirante a oficial com especialização em infantaria na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende, em 1974 – três anos antes de Jair Bolsonaro, que foi seu calouro e se formou em 1977. A frase estampada no pátio da formatura anual dos cadetes resume a filosofia ensinada ali: “Cadete! Ides comandar, aprendei a obedecer”.

BBC


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