sábado, maio 2, 2026

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‘Efeito manada’ nas redes sociais e ‘economia disruptiva’ podem estimular turismo predatório

Avanços tecnológicos estão impactando negativamente o mercado do turismo, mas uso responsável poderia gerar receita e promover gestão sustentável.

Os números mostram que o mundo está viajando mais. De acordo com dados do Banco Mundial, foram 3,97 bilhões de viagens de avião em 2017. Em 2007, apenas dez anos antes, foram 2,2 bilhões – um crescimento de 80% no período. No entanto, o aumento do turismo em escala global acende sinais de alerta para os impactos negativos da atividade, inclusive sobre o meio ambiente.

A concentração do turismo em algumas centenas de cidades e países é o problema que mais chama atenção. E essa concentração, segundo especialistas, ocorre em partes por conta da popularização de tecnologias e redes sociais.

Turistas tiram selfie diante de cachoeira no Yosemite National Park, na California. — Foto: Lucy Nicholson/Reuters/Arquivo

Turistas tiram selfie diante de cachoeira no Yosemite National Park, na California. — Foto: Lucy Nicholson/Reuters/Arquivo

Até 2020, os 20 países mais visitados do planeta vão receber mais voos internacionais do que todo o resto do mundo somado, segundo um relatório do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, na sigla em inglês).

O que Sigmund Freud diria sobre nossa obsessão pelas selfies?h

As cidades e atrações turísticas mais famosas não cresceram no mesmo ritmo que a indústria do turismo, que hoje já representa 10% do PIB mundial. Cidades históricas e cenários naturais populares que recebem milhões de visitantes continuam exatamente com o mesmo tamanho que tinham quando recebiam apenas milhares de turistas.

Moradores e turistas molham os pés em meio à primeira 'acqua alta' da temporada em Veneza, na Itália. O fenômeno ocorre com a combinação de marés altas e um forte siroco, vento característico da região do Mar Mediterrâneo. — Foto: Andrea Pattaro/AFP

Moradores e turistas molham os pés em meio à primeira ‘acqua alta’ da temporada em Veneza, na Itália. O fenômeno ocorre com a combinação de marés altas e um forte siroco, vento característico da região do Mar Mediterrâneo. — Foto: Andrea Pattaro/AFP

Segundo Clarissa Gagliardi, professora do departamento de turismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, as redes sociais têm papel fundamental no fenômeno da hiperconcentração do turismo. “São plataformas que garantem uma visibilidade nunca antes imaginada para os destinos”, avalia.

A viralização de uma foto nas redes sociais pode acarretar um aumento no fluxo de turistas sem que haja um planejamento prévio do destino para acomodar essa demanda, explica Gagliardi. Sem infraestrutura, os efeitos negativos do turismo predatório aparecem com ainda mais força.

A concentração do turismo em determinadas atrações turísticas acaba padronizando o conteúdo compartilhado nas redes. O perfil @Insta_Repeat tira sarro dessa situação e mostra fotos quase idênticas tiradas por diferentes viajantes no mesmo destino. Criada pela fotógrafa americana Emma Sheffer, a página reúne cliques similares de um mesmo local em colagens com ao menos 12 fotos praticamente iguais.

“Ainda há muitos destinos que são pouco visitados e que têm espaço para crescer”, aponta Luigi Cabrini, presidente do Conselho Global para o Turismo Sustentável (GSTC, na sigla em inglês), o bom uso das redes sociais poderia combater o efeito manada.. “Nós podemos usar o Instagram e o Facebook para tentar resolver o problema.”

Cabrini cita como exemplo a Costa Rica, país da América Central que conseguiu, por meio das redes sociais, melhorar sua imagem no exterior. “Trata-se de um país muito menor que o Brasil, mas que foi capaz de criar uma reputação positiva nas redes, de destino sustentável, verde e responsável”, diz.

Economia compartilhada

Quando surgiram, serviços como Airbnb e Uber eram vistos como uma alternativa aos hotéis e táxis. O benefício desse tipo de serviço seria desconcentrar a receita gerada pelo turismo, beneficiando mais os moradores e a comunidade como um todo. Usando essas plataformas, moradores podem oferecer serviços usando seus próprios bens. Assim, o turista passaria a gastar seu dinheiro não apenas em comércios e serviços de grandes redes, mas também em negócios que geram renda diretamente para os locais.

G1

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