Sobreviver a um trauma como o do massacre de Suzano (SP) pode deixar sequelas emocionais, mas é possível passar pela dor com a ajuda de especialistas, familiares e a comunidade escolar.
O estresse pós-traumático é a reação mais comum em situações como esta, segundo especialistas, e pode desencadear uma série de problemas como ansiedade, síndrome do pânico e crises de angústia.
Reportagem ouviu cinco especialistas na área. Segundo eles, os principais pontos para ajudar a superar o trauma são:
- A comunidade escolar deve fazer um trabalho coletivo com os estudantes para que eles falem sobre o que estão sentindo
- Familiares devem acolher e ficarem atentos a sinais como mudança de comportamento, insônia, crises de angústia (leia mais abaixo)
- Não force ninguém a falar, mas esteja aberto para escutar, caso seja necessário
- É preciso tempo para que os estudantes assimilem o que aconteceu
- Cada um vai assimilar a dor de uma forma diferente
Confira abaixo o que disseram os especialistas:
- Daniel Martins de Barros, psiquiatra
- Luciana Szymanski, professora da pós-graduação em psicologia da educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
- Marianne Bonilha, psicóloga do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, e responsável pelo ambulatório de violência
- Sandra Scivoletto, professora de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP
- Vera Iaconelli, psicóloga
Para Daniel Martins de Barros, psiquiatra, o apoio é fundamental para dar segurança e amparo. “As pessoas envolvidas têm que saber que, se elas quiserem, terão ajuda. Não é impor. A pessoa tem que se sentir segura, acolhida e amparada”, disse.
Ele ressalta que é importante retomar a normalidade da vida. “[Temos que mostrar que] A escola é segura. Porque, se não, a gente vai alimentar um medo que não se justifica. Isso é a exceção da exceção, raríssimo, um evento pontual. Temos que mostrar para crianças, na família e na escola que isso aconteceu, que vamos lamentar, mas vamos continuar vivendo.”
A psicóloga Vera Iaconelli chama a atenção para a forma como cada um vai lidar com o acontecimento. “Cada criança vai viver esta experiência de um jeito diferente. Tem coisas como culpa, medo fantasias onipotentes de que poderia ser salvado alguém.”
Para ela, os primeiros dias após a tragédia devem ser para a comunidade escolar falar sobre o que houve. “São dias para sentar e conversar sobre bullying, estar na escola, redes virtuais. Vamos fazer desta tragédia uma coisa produtiva, pensar o lugar da escola junto com a criança. É para falar, chamar os pais”, diz.
Marianne Bonilha, psicóloga do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, e responsável pelo ambulatório de violência, esclarece que, além dos atendimentos individuais, é necessário também haver um trabalho coletivo com a comunidade escolar.
“Psicólogos podem reunir todos os envolvidos para falar sobre o ocorrido. Não adianta fingir que nada ocorreu e tentar retomar a rotina do colégio”, diz.
“É preciso elaborar um plano de ação com o grupo e fazer uma reflexão social”, completa.
A especialista ressalta que é preciso respeitar os limites de cada uma das testemunhas. É possível que, de imediato, algumas não consigam falar sobre o que viram.
“É tudo tão grotesco e insuportável, uma cena tão difícil, que é necessário um tempo para que os envolvidos elaborem o que viram. Não é correto impor um trabalho psicológico a todos. O essencial é oferecer o espaço de assistência – informar a todos quais os canais de ajuda que estão disponíveis”, afirma.
A psicóloga compara a situação ao contexto de guerra, em que é imprescindível haver um pronto-atendimento a quem necessitar.
Sinais de trauma
A professora Luciana Szymanski, da pós-graduação em psicologia da educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), também destaca a importância dos espaços de escuta.
“É necessário falar sobre morte com eles. Os professores precisam se preparar para abordar o assunto. Suportar o luto vai demandar esforço de toda a comunidade escolar. O sofrimento precisa ser ouvido – não dá para negligenciar o que essas crianças e adolescentes estão sentindo”, diz.
Aqueles que não conseguirem elaborar o que ocorreu podem mudar o comportamento.
Veja os principais sintomas do trauma:
- insônia
- pesadelos recorrentes
- crises de angústia
- crises de pânico
- ansiedade frequente
- distúrbios psicossomáticos.
Para Sandra Scivoletto, professora de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, após um trauma grande a pessoa muda o seu comportamento para um estado de alerta constante.
“É um estresse intenso e gera um estado de hipervigilia: a pessoa não consegue relaxar, tem dificuldade para dormir e isso vai desgastando a pessoa”, explica.
Ela também ressalta a importância do espaço para que todos possam falar dos que viveram e tratar do trauma coletivo: “Para eles dividirem com outras pessoas os medos e angústias e para ajudar nesse processo de cicatrização desse trauma”.
Fonte: G1
