quarta-feira, julho 1, 2026

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Noruega: a próxima adversária do Brasil levou 300 kg de peixes, 6 mil laranjas e 116 kg de queijos. Será que isso faz diferença em campo?

A recente notícia de que a seleção da Noruega levou mais de uma tonelada de alimentos para a Copa do Mundo despertou curiosidade sobre a chamada “dieta norueguesa”. Na prática, o objetivo não era apenas transportar alimentos do país de origem, mas garantir o controle da alimentação durante toda a competição.

Em atletas de alto rendimento, a alimentação é considerada parte essencial da preparação para as competições. Aliada ao treinamento, ao sono e à recuperação, ela contribui para manter os estoques de energia, favorecer a recuperação muscular, fortalecer o sistema imunológico, preservar a capacidade de concentração e reduzir o risco de lesões.

Mais do que uma questão de preferência, levar alimentos próprios permite manter a qualidade dos ingredientes, a composição nutricional das refeições, reduzir o risco de desconfortos gastrointestinais e preservar uma rotina alimentar já adaptada ao organismo dos atletas.

Outro aspecto importante é que não basta escolher alimentos saudáveis. O momento em que eles são consumidos também faz diferença. O chamado “timing nutricional” organiza a ingestão de carboidratos, proteínas e líquidos antes, durante e após treinos e competições, favorecendo a oferta de energia, a reposição dos estoques de glicogênio, a recuperação muscular e a adaptação ao treinamento.

A estratégia nutricional também varia de acordo com a modalidade esportiva. No futebol, considerado um esporte intermitente de alta intensidade, os atletas alternam caminhadas, trotes, corridas, sprints, acelerações, desacelerações e mudanças rápidas de direção ao longo dos 90 minutos de jogo. Esse padrão exige estoques adequados de glicogênio muscular, tornando os carboidratos fundamentais para manter a intensidade das ações durante toda a partida. 

Por que peixes, laranjas e queijos?

Entre os alimentos transportados pela delegação estavam aproximadamente 300 kg de peixes, 6 mil laranjas e 116 kg de queijos, todos com funções importantes dentro do planejamento nutricional. Os peixes fornecem proteínas de alto valor biológico, ômega-3 e vitamina D, nutrientes fundamentais para a recuperação muscular, a saúde cardiovascular e o sistema imunológico. 

As laranjas oferecem carboidratos de rápida digestão, vitamina C, potássio e água, auxiliando na hidratação, na reposição de energia e na recuperação pós-exercício. Já os queijos são fontes de proteínas e cálcio, contribuindo para a manutenção da massa muscular e da saúde óssea.

A escolha desses alimentos não é aleatória. Em competições de alto rendimento, nas quais os atletas enfrentam treinos intensos e jogos sucessivos, o planejamento nutricional busca garantir disponibilidade energética, acelerar a recuperação muscular, reduzir o estresse oxidativo e a inflamação provocados pelo exercício, além de preservar a função imunológica. Por isso, a combinação de proteínas de alta qualidade, carboidratos, vitaminas, minerais e compostos antioxidantes é fundamental durante todo o período competitivo.

Esses alimentos também refletem o padrão alimentar tradicional dos atletas noruegueses, que prioriza alimentos in natura e minimamente processados. Além dos peixes, frutas e laticínios, a dieta costuma incluir batatas e cereais integrais como principais fontes de carboidratos, oleaginosas e sementes como fontes de gorduras saudáveis e uma grande variedade de vegetais. O tomate, por exemplo, é rico em licopeno, um potente antioxidante que auxilia no combate ao estresse oxidativo provocado pelo exercício intenso.

 Assim como outros vegetais coloridos, fornece vitaminas, minerais e compostos bioativos que contribuem para a recuperação do organismo e para a saúde cardiovascular. Embora nenhum alimento isoladamente seja responsável por melhorar a performance, uma alimentação rica em alimentos frescos e variados favorece a recuperação, a saúde e o desempenho esportivo.

Outro aspecto que chama a atenção é que esse padrão alimentar é baseado predominantemente em alimentos in natura e minimamente processados. Embora suplementos possam ter indicação em situações específicas, eles não substituem uma alimentação equilibrada. Em outras palavras, a base da nutrição esportiva continua sendo a chamada “comida de verdade”: alimentos frescos, variados e planejados de acordo com as necessidades de cada atleta.

Erling Haaland: o mais temido

Quando o assunto é Noruega, um nome vem imediatamente à mente: Erling Haaland. Principal referência ofensiva da equipe e, provavelmente, o jogador que mais preocupa a defesa brasileira, ele também chama atenção pela disciplina com que encara a alimentação, o sono e a recuperação como parte do treinamento. Embora sua dieta seja personalizada para atender às exigências do esporte de alto rendimento, ela reúne princípios amplamente reconhecidos pela nutrição esportiva.

Sua alimentação prioriza alimentos in natura e minimamente processados, como carnes, peixes, ovos, frutas e laticínios. Há relatos de que também consome vísceras, como fígado e coração bovino, alimentos ricos em ferro, vitamina B12, vitamina A e outros micronutrientes importantes para a produção de energia, a formação das células sanguíneas e a recuperação muscular.

Além da alimentação, Haaland dá atenção especial à hidratação, ao sono, à exposição à luz natural pela manhã e aos períodos de recuperação entre os treinos. Esses hábitos reforçam um conceito cada vez mais consolidado na Medicina do Estilo de Vida: a alta performance não é resultado apenas do treinamento, mas da integração entre alimentação, atividade física, sono de qualidade, recuperação e outros hábitos saudáveis.

E os aditivos alimentares?

Outro tema que ganhou repercussão foi a informação de que a decisão da seleção norueguesa estaria relacionada aos aditivos alimentares permitidos nos Estados Unidos. É importante contextualizar essa discussão.

As legislações sobre aditivos variam entre os países. A União Europeia, da qual a Noruega segue boa parte das normas por meio do Espaço Econômico Europeu, costuma adotar critérios mais restritivos para aprovação de alguns aditivos quando comparada aos Estados Unidos. No entanto, todos os aditivos autorizados pelos órgãos reguladores passam por avaliações de segurança dentro dos limites estabelecidos para consumo.

Mais do que discutir os aditivos alimentares, a principal mensagem é outra: a alimentação desses atletas é baseada em alimentos frescos, preparados de forma simples, pouco processados e cuidadosamente planejados.

O que podemos aprender com a seleção norueguesa?

A rotina dos atletas noruegueses e de nomes como Erling Haaland mostra que não existem alimentos milagrosos nem fórmulas secretas para alcançar a alta performance. O desempenho é construído diariamente por meio de escolhas consistentes, baseadas em ciência, planejamento, disciplina e um estilo de vida saudável.

Embora a realidade de um atleta de elite seja muito diferente da maioria das pessoas, os princípios são os mesmos: priorizar alimentos de qualidade, respeitar as necessidades individuais, cuidar do sono, manter uma boa hidratação e compreender que resultados duradouros são consequência de hábitos consistentes, e não de soluções rápidas.

Esse é um conceito que vale não apenas para quem busca alto rendimento esportivo, mas para qualquer pessoa que deseja prevenir doenças crônicas, envelhecer com saúde e melhorar a qualidade de vida.

Independentemente do resultado entre Brasil e Noruega, a principal lição deixada pela seleção norueguesa vai além do futebol. A alimentação é tratada como parte da preparação do atleta, ao lado do treinamento, da recuperação e de outros hábitos que sustentam a alta performance.

Escrita por:

Adriana Stavro – Nutricionista Mestre pelo Centro Universitário São Camilo 

Curso de formação em Medicina do Estilo de Vida pela Universidade de Harvard Medical School

Especialista em Doenças Crônicas não Transmissíveis (DCNT) pelo Hospital Israelita Albert Einstein 

Pós-graduada em Nutrição Clínica Funcional pelo Instituto Valéria Pascoal (VP) Pós-graduada EM Fitoterapia pela Courses4U.

Instagram – @nutriadrianastavro – Mais informações https://lattes.cnpq.br/

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