segunda-feira, maio 4, 2026

InícioDestaquesPorto de Paranaguá no foco: PF apura conexão do PCC com bebidas...

Porto de Paranaguá no foco: PF apura conexão do PCC com bebidas “batizadas” com metanol

A Polícia Federal (PF) abriu investigação para apurar uma possível conexão entre a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e a adulteração de bebidas alcoólicas com metanol — substância altamente tóxica que já causou ao menos três mortes e nove casos confirmados de intoxicação no país.

O diretor-geral da PF, Andrei Augusto Passos Rodrigues, afirmou nesta terça-feira (30) que o foco das apurações inclui o Porto de Paranaguá (PR), ponto estratégico por onde pode estar ocorrendo a importação irregular do metanol utilizado tanto na adulteração de combustíveis quanto, possivelmente, em bebidas falsificadas.

“Há uma possível conexão com investigações recentes no Paraná, que se conectaram com outras duas em São Paulo, em razão de toda a cadeia de combustível. Uma parte disso passa pela importação de metanol pelo Paranaguá. Portanto, a necessidade de entrarmos nesse caso por essas razões. A investigação dirá se há conexão com o crime organizado”, explicou Rodrigues.

Segundo o diretor, a Polícia Federal atua de forma integrada com o Ministério da Justiça, a Polícia Civil de São Paulo e outros órgãos federais, unindo forças para cruzar dados de investigações já em andamento.

PCC e o metanol: a linha que liga combustíveis e bebidas

A suspeita de que o PCC possa estar envolvido no esquema surgiu após uma nota da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), publicada no domingo (28). A entidade levantou a hipótese de que o metanol utilizado na adulteração de bebidas alcoólicas seria o mesmo produto importado ilegalmente por empresas ligadas ao crime organizado para “batizar” combustíveis.

De acordo com a ABCF, o recente fechamento de distribuidoras e formuladoras de combustível investigadas por fraude teria deixado grandes quantidades de metanol estocadas, o que pode ter levado as quadrilhas a revender o produto a destilarias clandestinas e falsificadores de bebidas.

“Ao ficar com tanques repletos de metanol lacrados e distribuidoras proibidas de operar, a facção e seus parceiros podem ter revendido o produto, obtendo lucros milionários em detrimento da saúde pública”, alertou a associação.

Em uma megaoperação nacional realizada há um mês, a PF já havia constatado que alguns combustíveis apreendidos em postos do país continham até 90% de metanol — uma concentração 180 vezes superior ao limite máximo permitido pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), que é de apenas 0,5%.

Mortes e casos sob investigação

Até esta terça-feira (30), foram confirmadas três mortes e seis casos de intoxicação por metanol, além de dez investigações em andamento. As ocorrências estão concentradas na Grande São Paulo.

As vítimas confirmadas são homens de 45, 54 e 58 anos, moradores de São Bernardo do Campo e da capital paulista. Todos apresentaram sintomas graves após consumir bebidas como gin, vodka e whisky de procedência duvidosa.

O Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox), em Campinas (SP), notificou o Sistema de Alerta Rápido (SAR) do Ministério da Justiça sobre nove casos em apenas 25 dias — número considerado “fora do padrão” e suficiente para acionar o alerta nacional.

O que é o metanol e por que é tão perigoso

O metanol (CH₃OH) é um tipo de álcool incolor, inflamável e altamente tóxico. Embora tenha odor semelhante ao da bebida alcoólica comum, não é seguro para consumo humano. Pequenas quantidades podem causar cegueira, falência renal e morte.

Produzido a partir do gás natural, o metanol é usado na indústria química e na formulação de combustíveis, e sua ingestão acidental ou intencional é considerada uma emergência médica.

Foto: Adobe Stock

Orientações à população

O Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo orienta bares, mercados e distribuidores a redobrar o cuidado com a origem das bebidas comercializadas e denunciarem produtos sem rótulo, sem nota fiscal ou com preços muito abaixo do mercado.

Os sintomas de intoxicação por metanol incluem:

  • Náuseas, vômitos e dor abdominal
  • Tontura e visão turva
  • Falta de coordenação motora (ataxia)
  • Sonolência, confusão mental e convulsões

Em casos suspeitos, é fundamental buscar atendimento médico imediato. O Centro de Controle de Intoxicações de São Paulo (CCI-SP) atende pelo telefone (11) 5012-5311 ou 0800 771 3733.

Com a possível presença de organizações criminosas infiltradas na cadeia de combustíveis e bebidas, a PF promete uma resposta coordenada e de grande alcance, investigando desde a importação do metanol no Porto de Paranaguá até a distribuição clandestina que chega ao copo do consumidor.

“Vamos trabalhar de forma integrada, como é determinação do ministro da Justiça. São investigações que se complementam e que buscam proteger a saúde pública e enfraquecer o crime organizado”, concluiu o diretor-geral Andrei Passos Rodrigues.

Redação

ARTIGOS RELACIONADOS

MAIS POPULARES