São nas histórias de quem muito viveu e, por isso, tem muito a ensinar, que o Lar dos Idosos Perseverança, de Paranaguá, encontrou inspiração para lançar mais uma edição da cartilha “Velha Infância”. A publicação chega à sua quarta edição em alusão ao Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, celebrado em 15 de junho. Neste ano, a cartilha reúne as memórias de quatro idosos acolhidos pela instituição e de um aluno da rede municipal de ensino.
Gabriela Bremer Martins, supervisora administrativa do Lar, explica que a proposta do projeto é promover uma conexão entre gerações. “Nosso objetivo é aproximar os idosos das crianças, promovendo esse vínculo de afeto e respeito. Queremos ensinar desde cedo como cuidar das pessoas mais velhas, por isso a cartilha foi elaborada de forma bem lúdica. As crianças aprendem e, caso presenciem alguma situação de maus-tratos, sabem que podem e devem denunciar”, comenta.
Entre as histórias retratadas está a de Estelito José Caetano, de 67 anos, que há um ano vive no Lar. Natural de Califórnia, no interior do Paraná, ele conta que encontrou na instituição um ambiente acolhedor e cheio de novas amizades. “Tenho cinco irmãs. Quando era jovem, trabalhava na fazenda, carregava bebidas, e também fui motorista de caminhão por muitos anos. De manhã, fico aqui no portão. Recebo visitas, doações e as compras. O tempo voa! À tarde tem bingo, cinema e passeio… a gente se diverte bastante”, diz o trecho que conta a vida de Estelito.
Cartilha feita em Paranaguá
A parte visual da cartilha foi ilustrada por Caro Iatsunik, artista de Paranaguá, enquanto os textos foram desenvolvidos pela própria equipe da instituição. O aluno da rede municipal escolhido para integrar o material foi o vencedor de uma campanha de arrecadação de tampinhas plásticas, promovida em prol do Lar Perseverança. O conteúdo foi viabilizado com o apoio de empresas patrocinadoras e distribuído às crianças das escolas públicas da cidade.
Violência contra os Idosos
O Lar também faz parte de uma das ações do Lar em relação ao Junho Violeta, mês dedicado ao enfrentamento da violência contra os idosos. A supervisora administrativa da instituição, Gabriela Bremer Martins, reforça que a violência contra a pessoa idosa pode assumir muitas formas, e não se limita apenas à agressão física. “Não é só o bater, machucar que é uma violência. Gritar, xingar também é. Até mesmo a negligência, não dar uma alimentação adequada ou não dar banho”, conta.
A delegada Camilla Cecconello, chefe da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil do Paraná (PCPR), também destaca a importância da denúncia como forma de enfrentamento a esses crimes. “A violência contra idosos é uma realidade complexa e dolorosa, que precisamos enfrentar com determinação. É fundamental que a população paranaense esteja atenta aos sinais e, acima de tudo, sinta-se segura para denunciar. Somente com a colaboração de todos podemos proteger nossos idosos”, afirma.
Entre os crimes mais recorrentes contra pessoas idosas, segundo a delegada, estão a violência financeira e a psicológica. “Percebemos que muitos idosos sofrem abusos financeiros por parte de familiares, como a retenção das aposentadorias e a apropriação de bens, além de um crescimento preocupante nos casos de estelionato contra pessoas idosas”, explica.
Mais idosos do que crianças
Essa realidade ganha ainda mais relevância diante do envelhecimento populacional. Dados do Censo 2022 indicam que há 34.222 pessoas com 65 anos ou mais nos municípios do Litoral do Paraná, sendo que Paranaguá lidera, com 13.103 idosos. “O que a gente percebe é que cada vez mais a população idosa está crescendo. Por isso, é importante todos estarmos conscientes de que vamos ter um idoso na família e que vamos precisar cuidar adequadamente dele”, complementa Gabriela Martins.
As projeções indicam que o Paraná está prestes a viver uma mudança demográfica histórica: até 2027, o número de pessoas com mais de 60 anos deve superar o da parcela da população com menos de 15. A estimativa, feita pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), aponta para uma inversão da pirâmide etária, o que exigirá políticas públicas e atenção redobrada da sociedade. Nos próximos 20 anos, a população idosa no estado poderá alcançar o dobro da quantidade de jovens.
Como ajudar o Perseverança
Fundada em 14 de março de 1940, a Sociedade de Assistência aos Necessitados é uma instituição sem fins lucrativos que deu origem ao atual Lar dos Idosos Perseverança. Inicialmente conhecido como “Abrigo dos Idosos”, o local atendia pessoas em situação de rua e funcionava como albergue noturno. Com o tempo, a instituição passou a se dedicar exclusivamente ao acolhimento de idosos.
Atualmente, o Lar está localizado na Rua dos Expedicionários, 782, e abriga 67 moradores, entre homens e mulheres. Para manter suas atividades, a casa aceita doações em dinheiro, além de alimentos e produtos de higiene.
Por Maisy Pires e Thais Skodowski / JB Litoral
