Relacionamento – um caminho para fora da infantilidade por Carlos Colect

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Quero, nesta proposta, observar o relacionamento afetivo do namoro e/ou casamento como um processo de construção em direção à maturidade, para fora da infantilidade. Neste aspecto, só cresce aquele se relaciona e se abre ao relacionamento, o qual não se inicia pronto ou fechado, pelo contrário, está sempre se movimentando e encontrando novas formas. É no primeiro encontro, no primeiro olhar, no primeiro toque, no primeiro beijo ou na primeira conversa que o primeiro passo é dado rumo a uma profunda jornada de conhecimento. Alguns, logo no início, desistem de trilhar esse caminho árduo, outros, com coragem e persistência, respiram e passam as rebentações do mar revolto.

Não entro no quesito amor e romantismo, e sim no próprio processo da relação, cuja palavra carrega a ideia do relacionar, isto é, encontrar pontos em comum que vinculem um objeto ao outro, mesmo que sejam diferentes. Utilizando o termo da internet, tudo pode ser linkado (relacionado), inclusive pessoas. E o que é o link? É uma palavra em inglês que significa ligação, vínculo ou elo. Nos textos virtuais, são palavras ou imagens que ligam a outras palavras ou imagens; na vida real, por sua vez, também são palavras e imagens que conectam um ser ao outro. Assim, relacionar é criar vínculos e laços que conectam, sobretudo, de forma saudável, em direção ao crescimento. Afirmo, contudo, que todos os seres são diferentes, por isso, podem ser linkados, basta encontrar o link que conduzirá à ligação com o outro.

O link aparece — em nossa primeira relação não verbal — na forma de um cordão umbilical. Seria esta a imagem essencial do Link? Estávamos linkados em nossa mãe, para além da consciência verbal. Portanto, como um modelo primordial, o link, antes de chegar à luz do racional, realiza-se no campo irracional – inconsciente. Ou seja, eu estabeleço vínculos com o outro mesmo antes de saber disso, ou de ter conhecimento sobre o outro. Isto quer dizer que, a exemplo do bebê no útero, a relação não começa exatamente no contato externo da visão ou outros sentidos, mas na emoção experienciada, ainda que não se dê sentido ou denomine essa emoção. De outra forma, a relação começa antes de nomear o sentimento (tristeza, alegria, raiva, ódio, bem estar…), num campo abstrato, sem que se consiga gerar uma explicação. É baseada na troca, ainda que imperceptível, do dar e receber. Enfim, a relação produz o comum, entretanto, evidencia a diferença de dois seres diferentes. Dois corpos que partilham dos mesmos nutrientes vitais através do Link (vínculo, elo, cordão). A mãe não sabe quem é o bebê e o bebê não sabe quem é a mãe, mas estão linkados pelo compromisso da sobrevivência; isto perdurará na essência inconsciente de nossas relações.

Continuemos com a atenção voltada para a relação primária entre mãe e bebê, cujo relacionamento acontece através de fases, conforme os pesquisadores da psique, como Freud, Winicott, Melanie Klain, Margaret Mahler, dentre muitos outros. Nestas pesquisas, podemos concluir que o propósito essencial da relação é a saída do estado primitivo infantil, em busca da compreensão do indivíduo que se socializa no coletivo, visando um sujeito com capacidades e habilidades emocional e cognitiva capaz de sobreviver num mundo hostil.  

Penso que a vida, no plano do relacionamento do namoro ou casamento, reproduzirá as fases da nossa relação primária mais significativa. Para tal comparação, vejamos o que teoriza a psicanalista Margaret Mahler. Para ela, o primeiro momento da criança é o autismo normal (a-1 mês), quando o bebê recém-nascido não observa nada além de si mesmo; não tem respostas e estímulos externos. Posteriormente, o bebê inicia a fase simbiótica com a mãe (2-3 meses), onde há uma mistura de imagens, concepção de unidade e associação com a mãe. Por fim, a terceira fase é a individuação e separação (4-24 meses), na qual há subfases: diferenciação (observação dos objetos externos), prática (exploração do mundo externo), aproximação (conflito entre independência e dependência, desejo de se aproximar da mãe, porém há o medo de ser absorvida por ela), individualidade (o Eu passa a ter um sentido, para além dos demais que lhe cercam).

Levando em consideração a teoria de Mahler e associando com a vida relacional adulta, é possível conjecturar que vivenciaremos todas as fases. Na fase autística, sem estímulo externo, vivemos em nosso mundo particular, com a ideia de que não há qualquer tipo de necessidade objetal ou relacional com o outro. Há a sensação de que tudo nos é suprido por algum meio. não há o pensamento de carência. Contudo, esta fase tende a passar, visto que as carências (em suas várias instâncias – emocional, afetiva, financeira…) aparecem, surgindo a necessidade da existência de um outro. Nisto, a visão começa a se abrir para uma observação externa. Dá-se início ao relacionamento (amizade, namoro, casamento), ao vínculo e a ligação simbiótica com o outro. Há uma confusão de seres. Não se sabe exatamente onde começa e termina o Eu e o Outro. Isto permanece por um tempo, até que se inicia a fase da separação e individuação, onde ocorre a diferenciação das identidades, locomoção para outros espaços internos e externos, o desejo de se distanciar, juntamente com o medo de se aproximar demais e perder a individualidade que se está conquistando e, por fim, a consolidação da descoberta da individualidade, quando nos é revelado que somos seres diferentes e separados. Nesta fase da separação, associo com as posições de Melanie Klain, a qual mostra que o bebê sofre com a esquizo-paranóide, posição que se manifesta quando o bebê tem que lidar com as suas imaginações, fantasias e dicotomias acerca do seio materno — objeto de amor, bem como tem que lidar com o estado depressivo em descobrir que aquele objeto (mãe) não existe só para lhe satisfazer. Inevitavelmente, o bebê, neste processo, também precisa lidar com a culpa por ter odiado a mãe que se afastou e se separou. Estas fantasias e estados depressivos, de igual modo, são sentidas no relacionamento, quando adultos. Ainda, nesta fase da Separação — entendendo que a Separação não é necessariamente o término de uma relação, mas somente a descoberta da individualidade —, acrescento a teoria do objeto transicional, de Winicott, em que a criança, ao sentir o afastamento da mãe e a formação de seu Eu individual, substitui a presença da mãe por um objeto (cobertor, ursinho…). Da mesma forma, o casal, ao vivenciar este período, começa a substituir a sensação de completude que outrora havia somente no parceiro. A substituição pode ser realizada pelo trabalho, por um hobby, por um projeto,… sem romper a relação.

Entretanto, a não compreensão desta fase pode gerar, sim, um rompimento do relacionamento. Por quê? Porque a mente entra num estado de perturbação e fantasia (esquizo-paranóide); pode surgir a dúvida sobre a veracidade do amor e compromisso do outro. Isto produz insegurança e ciúmes. Nos dias atuais, isto tem sido um efeito comum. Muitos relacionamentos não têm passado desta etapa. Porém, é no transpor essa fase que a relação entra num nível mais sólido, menos líquido, pois nasce o entendimento de que são dois Seres individuais que se complementam, não que se completam. São dois que formam Um. Há a lucidez acerca dos sentimentos, emoções e pensamentos que compõem cada indivíduo, de forma separada e discriminada. Nesta alteridade e na consciência do que é “meu” e “teu”, fica  melhor lidar com as diferenças, tendo a clareza do que pertence a cada um.

Obviamente, não desejo trazer esta visão como absoluta, nem tampouco, afirmar que estas fases ocorrem numa ordem exata. No entanto, afirmo que cada fase é uma angústia a ser vencida, uma visão possível sobre as relações e um caminho plausível para se pensar os relacionamentos.

*Por Carlos Colect

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