domingo, abril 19, 2026

InícioSem categoriaDEPRESSÃO – A queda de Narciso por Carlos Colect

DEPRESSÃO – A queda de Narciso por Carlos Colect

Introdução

Depressão é uma palavra que, corriqueiramente, tem aparecido nos discursos da contemporaneidade, comparando-se com a “histeria” do século XVIII/XIX. Sem dúvida, o psiquismo humano, na era atual, tem sido acometido por inúmeras transformações sociais, provocando, deste modo, desordens, transtornos diversos e distúrbios de humor. Não que — em outras Eras — a humanidade fosse plena, sem qualquer tipo de desordem psíquica. Certamente, os nossos antepassados tiveram as suas problemáticas, de acordo com o que vivenciaram.

Hoje, enfrentamos uma transição social, por isso, afloram-se os desconfortos psicológicos e emocionais. Prova disto é que você, provavelmente, em alguma instância da sua vida tem contato com a depressão, seja por estar depressivo, conhecer alguém que está ou por conviver com quem já tenha passado por esse momento dificultoso de ausência de potência, cujo sistema nervoso se percebe inoperante, sem estímulos, sem sentido (sentir), inativo e sem atitude diante das demandas da vida.

Devido a presença desse estado emocional no nosso cotidiano, vale nos debruçarmos sobre este tema tão importante, de modo a compreendermos um pouco mais acerca da frequência dos episódios depressivos ou narrativas depressivas e sua essência narcísica, sendo esta a minha proposta para este ensaio.

Depressão e a geografia: relativa e absoluta

A princípio, a depressão, de acordo com os estudos psicanalíticos, psicológicos e psiquiátricos, tem várias vertentes, classificações, níveis e profundidades, dentre elas está a depressão experienciada na Bipolaridade (maníaco-depressivo) e a Distimia, uma espécie de melancolia crônica causada por um processo de luto mal elaborado, a qual já abordei em outros textos e momentos. Aqui, entretanto, trago a depressão como uma queda de Narciso, melhor, uma quebra da imagem narcísica. Neste âmbito de visão, precisamos, de antemão, compreender a associação entre depressão, queda e o mito de Narciso.

É interessante, neste ponto, entendermos a origem da expressão “depressão”, a qual foi emprestada da geografia e corresponde a uma forma de relevo com irregularidades. É uma inclinação do solo, entre planícies, planaltos e montanhas, formada por desgastes ocasionados pela ação constante do vento e da água. Além disso, divide-se em dois tipos: absoluta e relativa. A forma absoluta é a mais profunda, está sob o nível do mar; a relativa, por sua vez, é superficial. Atentando para esta base, entendemos o motivo pelo qual a palavra “depressão” é usada para se referir à psicopatologia, bem como para a queda econômica, como a crise da Grande Depressão Mundial, iniciada em 1929, persistindo até a segunda guerra mundial.

Adentrando este sentido geográfico e adequando a psique humana, depressão é uma inclinação, um “buraco” no solo que, analogamente, simboliza a mente que se inclina e “cai no buraco” existente em si mesma. “Buraco” que foi aprofundado, ao longo do tempo, por ações constantes. É uma queda no vazio existencial que todos têm, porém, durante os anos, pode ser amenizado ou aprofundado.

Como visto, existe a depressão superficial, onde o vazio é sentido, porém, ainda há contato com a superfície, isto é, com o consciente e a realidade presente. É uma sensação de queda que nos remete aos momentos de transição, assim como no período natal, quando saímos do útero e caímos na existência, inclinamo-nos diante das incógnitas e incertezas de quem somos e de onde estamos. Deparamo-nos com a existência que se fundamenta e se confirma na mente que, agora, precisa escolher e decidir. Poder que não nos fora conhecido na vida intrauterina. Desta forma, a consciência da existência surge quando as possibilidades se apresentam e nos vemos responsáveis pelo nosso caminho. Esta é uma posição depressiva que pode se associar com a teoria das posições de Melanie Klain (1882 – 1960), psicanalista que estudou a vida infantil e percebeu a posição depressiva do bebê quando há um afastamento do objeto de amor e completude (seio, colo da mãe,…); deduzimos que, nesse momento, ele revive o afastamento da placenta e se percebe indivíduo e “sozinho”, responsável por suas ações; ali ele existe.

A depressão absoluta, também descrita pela geografia, é uma inclinação mais profunda, quando o indivíduo “cai em si” e está, metaforicamente, abaixo do nível do mar, no campo inconsciente, com pouco contato com a superfície e a realidade, vivenciando as fantasias infantis. É um estado mais patológico e privativo, não apenas decorrente de um movimento transitório da vida, e sim de outros fatores que residem às profundezas do inconsciente. É como se o indivíduo estivesse no fundo de um poço profundo e nada conseguisse ver, além de paredes estreitas e um pequeno ponto de luz acima. A visão sobre o mundo a sua volta se limita a sua condição sofrida e angustiante. As paredes são lisas e escorregadias. Qualquer esforço ou tentativa para sair do “buraco” parece ser em vão e inútil, é preciso uma grande habilidade de escalada e uma ajuda externa, pois o contato com a superfície (realidade) é dificultoso. Mas, de qualquer maneira, é necessário um esforço psicológico e físico para se manter vivo.

Depressão: a confiança do passado e a esperança do futuro

Independente do aspecto individual, temos constatado o quanto nós — seres humanos — estamos num estado social de desorientação, mal estar, sofrimento psíquico e queda. Neste tempo de mudanças velozes, opções infinitas e possibilidades infindáveis, a angústia tem se aflorado na alma humana. A humanidade tem sofrido mudanças consideráveis na sua Identidade — forma de ver e se mover no mundo. A depressão e ansiedade, em seus aspectos extremos e polares, revelam o a dificuldade em se encontrar o meio termo, o equilíbrio. Estamos enfrentando um tempo de transição, uma adolescência que acontece de tempos em tempos na civilização humana. Estamos transitando de uma Era para outra. Precisamos transcender e ultrapassar ou, ainda, utilizarmo-nos da habilidade de assimilação e organização para acomodar, adaptar e equilibrar, como diria Piaget (1896-1980).

Somos uma geração angustiada pela incerteza do futuro e pelo esquecimento do bom passado? “O agora ou o momento presente é somente o que temos, o amanhã não existe ou pertence a Deus, o futuro que nos espera é mal, a humanidade está perdida” – fizeram-nos acreditar. Sim, são meias verdades. No entanto, isso produz uma crise de futuro e uma negação do passado, o que gera angustia e destrói a perspectiva de que algo ainda pode ser construído e realizado, há uma paralisação na ação do agora. Não há como vivermos bem apenas no presente, pois nossa mente é constituída por lembranças (passado) que trazem confiança e imaginação (futuro) que nos dá esperança; esse passado e futuro nos ajudam a estarmos bem no presente. A ausência ou incerteza de um desses pilares desequilibra a mente humana. A depressão, por exemplo, tem o foco no passado “mal” e ausenta a confiança, prejudicando a criação do futuro, enquanto a ansiedade foca num futuro incerto, inibe a esperança e diminui a confiança. Um presente mais equilibrado precisa estar temperado com as imagens mentais saudáveis do passado e futuro. Diante dos desafios presentes, exemplificado na alegoria bíblica de David contra o Golias, o passado e o futuro estão juntos. David recordou as suas vitórias sobre o urso e o leão, isso lhe deu confiança. De igual modo, ele visualizou o futuro e teve esperança: “toda a terra saberá…”, disse David. (1 Samuel 17:46)

A imagem narcísica: imagem que se move

De acordo com a observável situação social, residimos numa sociedade constituída por um ser humano em queda, que cai da sua altivez e vaidade, entrando num “buraco” — estado de vazio de sentido. Ele perde a referência de si mesmo, na sua própria escuridão. Há uma quebra na imagem narcísica. Para tal esclarecimento, trago o mito de Narciso, o menino que nasce de um abuso. Céfiso violenta a ninfa Leríope e concebe Narciso, o qual será condenado a se apaixonar por sua bela imagem, porém, sem nunca ter a si mesmo. Ele definha-se diante do seu reflexo num lago, sem poder pegar a sua imagem. Vemos, aqui, o filho nascido do não desejo e criado por uma só parte (pai ou mãe – avô ou avó), cujo ego (identidade social) se esconde e dá lugar a uma personalidade individualista e infantil, embasada sobre uma educação compensatória, sem o devido estabelecimento de limites. Esse filho não possui sua identidade, e sim uma imagem ilusória e elevada de si mesmo. Desta maneira, a imagem idealizada e elevada do sujeito acerca de si próprio é uma imagem móvel, que não se pode segurar. Toda vez que, a exemplo do mito, busca-se pegar a imagem refletida nas águas, a imagem se distorce, foge, quebra-se, e, na tentativa frustrada de ter esta imagem fixada, o indivíduo se deprimi na incompreensão da mobilidade da sua imagem, na decepção e frustração de não se possuir.

A Vaidade de Narciso: o outro lado do vazio

Ao pensarmos em Narciso, automaticamente, pensamos em vaidade ou soberba. Conjecturando essa possibilidade, é cabível pensar que a vaidade se associa com uma posição deprimida e se oculta por detrás da depressão e do vazio de sentido. No texto bíblico de Eclesiastes, o sábio, refletindo sobre os caminhos da vida, declara: Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.(Eclesiastes 1.2; 12.8). Tal afirmação se revela muito forte e provocativa. Convida-nos a refletir acerca da mãe dos pecados, de acordo com São Tomás de Aquino.

Primeiramente, a ideia mais comum introduzida na “vaidade” está interligada com o querer se vestir bem, ir a um bom restaurante, ter uma bela casa ou um bom carro, enfim, mistura-se com tudo o que se relaciona com o desejo estético, físico ou material. Porém, a palavra vaidade tem sua origem do latim vanitas, vanitatis, cujo significado é “vacuidade; inutilidade; inconstância; futilidade; orgulho vão, o que é próprio do vácuo”, ou seja: vazio. De igual modo, a correspondente hebraica é hevel: “vazio”, “vão”. Sendo assim, vaidade carrega, em sua etimologia, a ideia de vão, vazio, desnecessário, destituído de vida e propósito, ou seja, é uma sensação de não-ser e vazio, a qual projeta desejos desnecessários — desejo de ser ou ter — na mente do indivíduo; há uma projeção de imagem elevada e compensatória de si, assim como a imagem mítica de Narciso refletida no lago. Sendo assim, a vaidade está para além do simples desejo externo e estético, é uma percepção interna que pode estar tanto na casa do rico como na casa do pobre, tanto na mansão como na favela, tanto no mais favorecido socialmente como no menos favorecido. 

Prossigamos um pouco mais, se na infância houve uma forte experiência de rejeição, assimilada pela mente da criança sem a acomodação e equilibração, o desenvolvimento da própria identidade sofre uma interrupção, isto é, a imagem de si mesma não se desenvolve. Fica uma lacuna que aumenta a angústia na incógnita humana: “quem eu sou?”. O sentimento de vazio, natural da humanidade, toma proporções maiores. Isso provoca a necessidade de preenchimento da sua própria imagem (identidade). Produz-se, desta forma, um EU narcísico, um EU INFLADO. Um endeusamento, contendo a ideia infantil: “tudo gira em torno de mim”, “todos devem me servir”… Haverá uma busca inconsciente pela imagem que não se tem de si. Essa busca se dará no olhar do outro, na fala do outro. Isto é, o outro diz quem eu sou. Eu existo no olhar do outro. E há, ainda, nesse EU narcísico, uma dicotomia: eu sou grande, bonito, “Deus”, no entanto, não tenho e não seguro (insegurança) minha imagem. A imagem exposta socialmente não corresponde a imagem interna. No íntimo há um sofrimento gerado pela insegurança. Recordemos a punição de Narciso que, ao olhar seu belo reflexo na água, tentava pegá-lo, mas, ao fazer isso, a água se movia e a imagem se distorcia. Há uma interferência que dificulta o reconhecimento. O indivíduo passa a não se reconhecer na imagem refletida.  

Quando a identidade vai se reconstruindo por meio de experiências de aceitações, a criança interior “cresce” e diminui a sensação de vazio. Automaticamente, a necessidade da aprovação do olhar alheio, diminui, visto que agora há posse da própria imagem. Não há mais necessidade do olhar do outro para a afirmação, como assim faz a criança quando, realizando alguma atividade, direciona os olhos aos pais, para ter a certeza de que estão olhando e aprovando. Imagine que quem precisa do olhar do outro é a criança. Ela anseia pelo olhar dos pais para se sentir alguém, bonita, aceita, aprovada. … a criança está sempre em busca do olhar dos pais.

A autoestima: autoavaliação

Não há, neste ponto, como não falarmos da autoestima, pois a posição narcísica está sempre se autoavaliando e cobrando a permanência nessa posição elevada. Convém-nos pensar que a palavra estima provém do latim “aestimare” significa “avaliar ou calcular”. Autoestima, portanto, é o ato de se autoavaliar, que, obviamente, ocorre por meio de um processo de avaliação. É um olhar crítico sobre si mesmo.

A alta autoestima é quando me julgo ter um alto valor, segundo o meu olhar diante do “espelho”, no âmbito mental. Em oposição, a baixa autoestima diz respeito a uma desvalorização gerada do olhar sobre si, quando me julgo ter pouco valor. Cabe, no processo de avaliação, a existência de critérios e um código de leis, dentro das quais ocorre uma comparação. Isto é, ao me ver dentro dos critérios e leis, avalio-me com valor. Se estiver fora dos critérios e leis, logo o valor se perde. A catalogação dos critérios e leis acontece internamente, construindo uma imagem de valor ou sem valor, a qual é estabelecida pelo contexto externo (sociedade e relações afetivas) e pelo âmbito interno (absorção de vivências e palavras dos pais que se firmam numa imagem inconsciente). Em outras palavras, a mente, ao se observar no espelho externo ou interno, age por comparação. Ela atua numa discriminação e associação, comparando-se a imagem interna inconsciente e a imagem criada pelo olhar externo do outro. Como o outro me vê? Como devo ser diante do outro? Estou de acordo com a imagem interna e inconsciente? Estou em conformidade com os critérios e leis internas e externas? Tais questionamentos são feitos constantemente dentro de cada ser humano. A consciência e percepção dessa comparação nos ajuda a manter uma boa autoestima; uma boa valorização de si mesmo e não se afetar tanto nesse processo natural de autoavaliação. É um processo natural porque a mente precisa se comparar para compreender quem é e quem o outro é e, assim, perceber-se como indivíduo.

O excesso de desejo não consumido

Outro ponto a ser percebido na temática da depressão é que, geralmente, tem-se o estado depressivo como falta de desejo, porém, também é possível encontrar o excesso de desejo, cuja base é um vazio existencial natural que todos carregam ao nascer. A sensação do vazio pode aumentar no extremo da falta de desejo e no extremo do excesso de desejo.

Hoje, vivemos dias de muitos desejos no ser e ter, articulados pela mídia e mundo capitalista, fazendo com que a grande maioria sofra de desejo não consumido. Deseja-se ser, mas não é. Deseja-se ter, mas não tem. Cabe, aqui, a observação de que esses desejos para o depressivo não são exatamente seus, e sim uma DEMANDA que vem do outro, seja externo ou interno. Em outras palavras, o desejo de ser e ter é do outro, o qual se mistura com o si próprio. Há, desta forma, um constante descontentamento e aumento do sentimento de vazio e perda do que não se tem. Como vimos, este fato é aflorado pela identidade mal elaborada na infância, na experiência de rejeição, cujo psiquismo se constitui em self inflado (infantil – endeusado) e falso ego (apropriação da identidade do outro).

Além do mais, isto nos remete, mais uma vez, ao complexo narcísico, cujo desejo não é consumido. Narciso definha-se na beira do lago, sobre o seu objeto de desejo — si mesmo. Atualmente, muitos se definham na beira da vitrine da loja ou da vitrine da alma, onde se expõe a bela imagem do ser e ter ideal a ser consumida. Por outro lado, para combater o excesso de desejo não consumido, nascem às afirmações positivistas, como “eu tenho tudo, nada me falta, sou grato por tudo…”. Sobre isto, questiono: estaríamos caminhando para o outro extremo, no qual a falta — combustível da vida e movimento — é removida, produzindo também um definhar e atrofia? A falta precisa existir para haver o desejo, e nem todo desejo precisa ser saciado. O caminho do meio é o melhor caminho, diria Buda, e a compreensão de que o objeto de desejo (ser – ter) pode transitar ou até mesmo não ser o meu desejo, mas uma demanda do outro, é essencial, ainda que esse outro seja um outro “eu” que me habita. Pois sim, somos múltiplos; muitos “eu’s” nos habitam. Por isso, é importante provocarmos uma reflexão ao sermos acometidos por fortes emoções: “quem é este que está triste”?, “Quem é este que está alegre?”, “Quem é este que está sentindo o vazio?”.

O reconhecimento

Frente ao não reconhecimento de Narciso de sua própria imagem distorcida, Penso que precisamos nos reconhecer, não apenas conhecer. De forma poética, explano. Certo dia, aproximei-me. De frente ao espelho me vi. Sorri. Afastei-me. Aquele, sumiu. Sumi. Foi em algum lugar para além dos meus olhos. Existo somente quando me vejo? Pensei. Quando não me vejo, sou refém do desejo no olhar do outro; sou refém do desejo de ter o outro, a vida que não vejo? Possível. Se vivo na capacidade de refletir e ver a si mesmo, logo, do contrário, sou como um vampiro em busca de uma vida para sugar e se apropriar. Por outro lado, se fixo o meu olhar na imagem refletida de mim mesmo, torno-me um Narciso descontente com a imagem que se movimenta nas águas da existência humana. Narciso, debruçado sobre a sua imagem, desejando possuí-la, fere a si mesmo. O Vampiro, desprovido da sua própria imagem, fere o outro na busca por si. De Narciso (o psicótico) ao Vampiro (o perverso), do olhar fixo ao não olhar, o melhor é a compreensão de que sou apenas uma imagem invertida refletida, num movimento necessário do olhar, das imagens e dos espelhos, não num processo de autoconhecimento, e sim de reconhecimento. Preciso me reconhecer, não apenas conhecer, visto que o ato de conhecer precede o entendimento de algo que me é estranho e alheio, e reconhecer consiste em me identificar com a imagem que se vê, como sendo Eu.

Aquele que pensa estar de pé, cuide para que não caia

De tudo o que foi dito, considerando a depressão como a queda de Narciso, a quebra da imagem que foi sendo solidificada na mente do sujeito, faço uma consideração utilizando um episódio bíblico, o qual relata a queda de um homem, a saber Shaul, mais conhecido como apóstolo Paulo. A sua história começa como alguém que, na sua soberba e vaidade, persegue e mata a comunidade dos Nazarenos, todavia, em certo momento, indo pelo caminho para cumprir mais uma missão, depara-se com uma forte luz que o confronta. A luz da verdade que lhe habitava o fez cair (em si). Ele foi tomado por uma consciência e lucidez. Ele cai no chão e perde a visão sobre si mesmo e sobre caminho em que estava. Ele entra na sua escuridão e vazio. Este é o momento depressivo de Paulo, em que foi forçado a mudar a rota da sua vida. Houve a quebra da sua imagem narcísica. Segue o testemunho mítico:

Ora, aconteceu que, indo eu já de caminho, e chegando perto de Damasco, quase ao meio-dia, de repente me rodeou uma grande luz do céu. E caí por terra, e ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? E eu respondi: Quem és, Senhor? E disse-me: Eu sou Jesus Nazareno, a quem tu persegues. E os que estavam comigo viram, em verdade, a luz, e se atemorizaram muito, mas não ouviram a voz daquele que falava comigo. Então disse eu: Senhor, que farei? E o Senhor disse-me: Levanta-te, e vai a Damasco, e ali se te dirá tudo o que te é ordenado fazer. E, como eu não via, por causa do esplendor daquela luz, fui levado pela mão dos que estavam comigo, e cheguei a Damasco. E um certo Ananias, homem piedoso conforme a lei, que tinha bom testemunho de todos os judeus que ali moravam, Vindo ter comigo, e apresentando-se, disse-me: Saulo, irmão, recobra a vista. E naquela mesma hora o vi. (Atos 22:6-13)

Diante desse texto, findo, dizendo: depressão, enquanto psicopatologia social, é algo sério, sabemos. No entanto, tornou-se o combustível que alimenta uma sociedade do ativismo, visto que, pelo medo da depressão, a maioria de nós não consegue parar e cada vez mais acarreta tarefas intermináveis, sem tempo para pensar sobre si mesmo, sobre suas verdades, suas mentiras e o seu mundo. Por conta desse comportamento, convido a uma pausa, a um período de solidão voluntária, caso contrário, a vida te forçará a parar e a cair em si. Aliás, atualmente, tratamos a solidão como algo indesejável e mal. Contudo, a solidão é aquele momento em que você se percebe você. É o momento em que você se separa do olhar do outro, em que você se desliga da obrigação de cumprir o desejo do outro e precisa se encontrar para além do olhar e desejo do outro. Isto é essencial em determinados períodos da vida. Portanto, sem medo, sem punição, apenas respiração, entre em sua escuridão e abismo, como o apóstolo Paulo (Shaul), perceba-se um ser-vivo, um ser-que-vive, um ser-que-é, e alcance o entendimento de que a depressão é ausência de si-mesmo, é a quebra e a consciência da imagem que não se tem. Por fim, fica o alerta paulino: “aquele que pensa que está de pé é melhor ter cuidado para não cair” (1 Corintios 10.12)

Por Carlos Colect

ARTIGOS RELACIONADOS

MAIS POPULARES