Você, certamente, já ouviu falar sobre a crise dos quarenta ou, até mesmo, pode estar atravessando esse acidentado terreno crítico, vivenciando um estado de confusão acerca de si mesmo e do caminho que até aqui trilhou.
Pois certo, realmente, a crise é uma situação desconfortante para quem a vivencia no seu nível mais profundo, pois há uma saída do conforto produzido pelas certezas. Contudo, em sua grande maioria, o momento crítico não começa de um dia para o outro, como num passe de mágica, ele é construído e nasce como resultado de nossas ações, conscientes e inconscientes.
No decorrer de nossos passos no mundo, adentramos e saímos de lugares internos e externos (relacionamentos, pensamentos, cidades,…), baseados em inúmeros fatores que desconhecemos, mas, que, na posição de inconsciência, acreditamos saber. Acreditamos que tomamos decisões e escolhas de acordo com os nossos entendimentos superficiais. Todavia, conforme a neurociência e a psicanálise, há um vasto mundo sob o limiar das águas do insondável oceano psíquico.
Algumas crises, portanto, formam-se quando o nosso psiquismo, sem o consentimento prévio, começa uma nova configuração do que estendemos como “Eu”. A vida vai se tornando impossível ao deixarmos de realizar o possível, isto é, quando perdemos a noção das possibilidades e temos ações impulsivas, firmadas em ímpetos que visam simplesmente a satisfação do desejo e o alívio pelo prazer.
De certo modo, todo esse processo corresponde ao sistema primitivo de preservação e sobrevivência. O inconsciente nos protege de nós mesmos e das nossas dores, para isso, existe. Porém, o uso excessivo da defesa é prejudicial. No caso, em alguns momentos da vida, surgirá a crise existencial — um lapso de consciência que questionará tudo o que foi feito de forma inconsciente, tudo o que foi vivido apenas por tentativa e erro, tudo o que foi feito apenas seguindo o fluxo,… A imagem que sempre esteve diante do espelho é, finalmente, desnudada, percebida e descoberta. Perguntas nascem: “onde está a minha vida, o que eu fiz com a minha vida, quem sou Eu, quem eu fui, não devia ter feito aquilo,…?
Nesse caminho, construído quase que totalmente sem consciência, mas agora posto à prova por um lapso de consciência, a Incerteza sai detrás das cortinas, entra em cena e desestabiliza o espetáculo da vida, outrora confortável. Ela questiona o papel de cada personagem que criamos em nossa trajetória, as falas do script que escrevemos para cada ocasião, a posição do cenário, fixa os olhos nos expectadores e lhe dirige a palavra: “o que vocês estão fazendo aqui?; por que estão aqui?; nada há para ver aqui!”. A Incerteza se torna a protagonista e caminha de mãos dadas com a sua filha — a Dúvida — que, como uma criança impulsiva, começa a dançar pelo teatro, entre os convidados e atores, provocando olhares desconcertantes.
O desconcerto dos participantes da peça, por sua vez, produz uma desordem generalizada, onde o entendimento e a lucidez fogem a compreensão racional. As luzes se apagam e o Surto — emoção que se ergue fortemente —, veemente, toma o seu lugar e contracena com a Incerteza e a Dúvida, enquanto, em meio à escuridão, a Desorientação se faz presente. Ela, convocada pelo Surto, passeia entre os corredores, juntamente com a suas irmãs Ansiedade e Angústia. Os corações aceleram diante da visão que se perdeu e todos clamam para que as luzes sejam acessas novamente.
Esse espetáculo desorganizado é experienciado na crise dos quarenta – a segunda adolescência, em cuja fase as perguntas essenciais “Quem eu fui e quem agora sou no mundo?” saem das profundezas do inconsciente e vem à tona. Esta é a base do período em que denominamos Adolescência. Fase em que as ilusões surgem com facilidade, as emoções afloram e a identidade é uma busca essencial. Tão embora, devido ao incômodo, a mente produza ilusões e fantasias afloradas, desejamos o ser-real. Ansiamos pela realização, isto é, pelo ato de tornar real ou verdadeiro. Buscar a realização é buscar se sentir real, não mais uma projeção. Neste sentido, sentimo-nos realizados quando nos desfazemos das imagens projetadas que se fundiram em nosso Ser. Este é o desejo dentro da adolescência: descobrir-se real.
Na primeira adolescência, quando nascem os pelos, ou seja, na puberdade (pubertas lt. = pelos, barba), estamos no pé da montanha, no momento da subida da trajetória existencial, quando os hormônios são vorazes e a criança dá lugar ao desejo por independência e por encontrar o seu lugar do mundo. O período de transição e passagem é perturbador, visto que convida a descoberta de quem se é. Tateando, seguimos em direção ao topo.
Ao chegarmos ao topo, a segunda adolescência começa a surgir. Porém, a diferença em relação à primeira é que esta precede a descida da trajetória existencial. No topo da montanha, no meio da vida, os olhos mentais inconscientes vislumbram tudo ao redor e iniciam um processo de análise e questionamento acerca do caminho trilhado, se ele realmente valeu a pena, se esteve em conformidade com as exigências sociais (casamento, filhos, vida financeira estável,…) ou se as metas pessoais foram alcançadas (profissão que queria, moradia que desejava, pessoa que se tornou,…). Caso haja um descontentamento com o que se observa e questiona, a Incerteza, a Dúvida, o Surto, a Desorientação, a Ansiedade e a Angústia entram em cena.
Em paralelo, para compararmos, a primeira adolescência é quando começamos a subir, a segunda é quando começamos a descer; na primeira há uma busca por identidade, na segunda há um questionamento da identidade; na primeira os hormônios estão em ebulição, na segunda eles estão esfriando; na primeira há uma busca por ser adulto, na segunda há uma busca por ser jovem. Contudo, em ambas, existem extremos emocionais e ações inconsequentes.
Obviamente, nem todos sentirão este momento de igual modo, há variações de acordo com a vivência de cada indivíduo. Alguns podem demonstrar a introspecção, comportamento de isolamento social e depressivo, outros podem se tornar mais extrovertidos, excêntricos (fora do comum) e radicais em relação a sua imagem externa — assim como na primeira adolescência, onde o jovem excêntrico faz tatuagem, coloca piercing, pinta o cabelo, deixa o cabelo crescer,…. ou o jovem depressivo se corta e se isolam socialmente. Estes são os extremos, todavia, há quem passe de forma tranquila. Como dito, se o anteriormente vivido consistir numa vida insatisfatória, baseada em fuga e inconsciência das ações, mais a crise será sentida na sua forma extrema. A busca pela vida real será intensificada.
É importante, nesse período, compreender e aceitar o que foi vivido como sendo parte de si, e que a rejeição da própria história implica na rejeição de si próprio. Trazer a mente para o aqui e agora é acolher a própria história, ser grato pelo caminho que trouxe até aqui e acolher a ideia de que hoje se é quem deveria ser e que se está onde deveria estar. Por isso, contente-se e acolha este momento como um momento de crescimento. Aliás, a palavra “adolescência” vem do latim “adolescere” e significa “crescer”.
Vale, neste ponto, acrescentar que o número quarenta é muito utilizado na mitologia e simbologia bíblica-hebraica para se referir a períodos de mudanças significativas. Cito alguns episódios: Moisés ficou quarenta dias e quarenta noites no monte Sinai para receber a Torah (instrução-lei – 10 mandamentos) (Êxodo 24,18); a travessia de quarenta anos do povo de Israel pelo deserto (Números 14,33); Noé enfrentou o dilúvio de quarenta dias e quarenta noites (Gênesis 7,4.12); Jesus foi tentado por quarenta dias e quarenta noites no deserto (Mateus 4,2). Todos os episódios citados revelam um momento de transição, convite a uma nova perspectiva e um encontro com o que habita no interior de si próprio (desejos e medos), bem como manifestam o enfrentamento em relação a isso que se observa em si mesmo.
Sobre esta relação análoga, observe a transição, a nova perspectiva, a revelação do teu interior, enfrente e siga em frente. Decida, hoje, desvencilhar-se dos laços do tempo e dos sentimentos de culpa. Vomite-se do ventre de Chronos. Desprenda-se de suas entranhas. Decida, hoje, reconciliar-se com o real presente, desvincular-se dos modelos ideais frustrados e dos desejos não cumpridos. Abrace o que está diante de teus olhos. Decida, hoje, vivenciar e aceitar o momento, compreendendo que o passado não se pode modificar. Isto é a prova de que o que fazemos se torna eterno e imutável; uma hora há de retornar. Precisamos compreender que a ação do agora tem caráter eterno, ou seja, sempre vivenciaremos de alguma maneira. Assim instrui a filosofia — inspirada nos filósofos estoicos — do Eterno Retorno e Amor Fati (aos fatos) de Nietzsche, do amor (filia) aristotélico e da Odisseia de Homero.
Cabe, assim, refletir sobre a ação do presente, amar o agora e entender onde firmo a minha eternidade, como a exemplo de Ulisses, na Odisseia, que desejava voltar para a sua casa, porém, foi levado cativo para a Ilha da deusa Calypso, a qual lhe ofereceu a juventude e eternidade. Entretanto, aquela eternidade não era o que desejava, desejava estar em outro lugar, desejava estar em casa. A tua ação — no agora — se eterniza. O que você quer que seja eternizado? Seja um pouco mais consciente, hoje, para que, no amanhã, a tua consciência não te cobre com afinco.

