A expectativa da desgraça e as ações obsessivas do cotidiano por Carlos Colect

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É possível que o caro leitor tenha se assustado ou associado este tema com uma espécie de loucura. Sim, há um toque de insanidade nestas ações obsessivas, as quais são nossas. Digo “nossas”, porque fazem parte do cotidiano de todos nós, os neuróticos normais, isto é, aqueles que castram seus desejos para caberem nas normas da sociedade.

Pretendo trazer este texto com tranquilidade, tão embora, possa tocar no campo sensível de alguém. Cada um de nós tem a sua sensibilidade, sua fragilidade, seu complexo, onde reside um campo minado, carregado de carga emocional, prestes a explodir quando tocado. Enfim, a finalidade, aqui, é tão somente transmitir um pensamento sobre algo tão comum no nosso dia a dia e que afeta profundamente nossas decisões e comportamentos diante da vida, porém, muitas vezes imperceptível a nossa consciência.

Por estes dias, relendo um trecho de Totem e Tabu (1913), da autoria de Freud, fui levado para uma autoanálise e reflexão acerca das ações obsessivas. Observei as minhas obsessões. Mas o que seriam estas ações? São ações que remontam aos estados primitivos da humanidade, quando a civilização humana se relacionava com os mistérios do mundo através do animismo, ou seja, atribuindo poder, alma e espírito aos objetos inanimados. Nomeando o espírito da floresta, da rocha, da montanha, do sol, … concedendo poder aos objetos do seu mundo comum e ordinário. Ao serem separados do comum, elevados no altar mental, os objetos podem causar bem ou mal. Assim, nascem os totens — objetos sagrados, intocáveis.

Lembremo-nos dos totens das tribos da antiguidade, com cabeças de águia, asas, animais, rostos. Estes totens eram erigidos pelos sacerdotes e possuíam um poder mágico e sagrado que protegia a comunidade dos maus espíritos, causadores de desgraças. Contudo, para a proteção dos totens, estabeleciam-se os tabus (dogmas) ou, em outras palavras, proibições. O objeto sagrado era circundado e protegido por leis (tabus) que, ao serem transgredidas, expectava-se uma punição ou desgraça sobre o transgressor ou sobre toda a comunidade. Pela expectativa da desgraça, nasce uma ação obsessiva; um apego exagerado ao tabu que, hoje podemos associar com uma ideia, pensamento, sentimento, lei interna, assim por diante. Recebemos, portanto, a herança deste pensamento em nosso inconsciente coletivo.  

Prendemo-nos em vários tabus, dos quais, muitas vezes, não nos damos conta, porém, afetam-nos de forma profunda. Cito um exemplo clássico: estamos para dar uma volta, a mãe profere uma ordem “não saia, é perigoso!”. Perceba que a mãe, em nosso inconsciente coletivo, está na posição do Totem (objeto sagrado e intocável) e, por isso, quando você sai e desobedece ao tabu (= jamais desobedecer ao Ser Sagrado – mãe), é acometido por uma sensação de punição ou espera por uma desgraça eminente. Esta é uma sensação corriqueira na mente que possui uma estrutura neurótica.

Se a ideia animista, cuja base é a magia, for muito grande, muito poder é dado ao Totem e, assim, mais expectativa de desgraça haverá. Deste modo, o comportamento será moldado sob o medo da desgraça, o qual pode se transformar em fobia (phobos). Neste momento, cria-se uma ação obsessiva, ou um apego exagerado. No caso do exemplo acima, você se prenderá e terá dificuldade de sair e desobedecer ao tabu. A expectativa da desgraça poderá ser carregada para as “saídas” que aparecem nas mais diversas instâncias da vida adulta.

De acordo com Freud (1913, pp. 140, 141), as ações obsessivas primárias dos neuróticos são na verdade de natureza inteiramente mágica. São, se não feitiços, contrafeitiços destinados à defesa contra as expectativas de desgraça.[…] E o que é determinante para a formação não é a realidade da experiência, e sim a do pensamento. Segundo estas observações, a ação obsessiva se fundamenta na fantasia de que uma desgraça pode ocorrer caso eu não realize ou realize uma determinada ação. As superstições são exemplos corriqueiros. Para evitar a desgraça de um acidente, alguém precisa fazer o sinal da cruz antes de viajar; colocar uma ferradura atrás da porta, não varrer a sujeira para a porta da frente da casa, colocar a planta espada de São Jorge na frente do muro da entrada, carregar um galho de arruda, ou não expor a felicidade na rede social para evitar a desgraça do “mau olhado” que o olhar do outro pode causar (chamamos de inveja), ou, ainda, alguém pode passar por um mendigo e dar uma esmola para evitar que o Universo ou Deus lhe retribua com a desgraça de uma vida miserável também, pois o tabu é “ama o próximo como a ti mesmo… tudo o que você quiser que os homens vos façam, fazeis vós a eles… o Universo tem a lei do retorno”. Muitos são os modelos de ações obsessivas que vivenciamos sob a pena de punição ou desgraça, caso não cumpramos os tabus.

A quebra do tabu traz a culpa na alma neurótica e, consequentemente, um ato de sentença e punição. É fácil perceber que num ato de transgressão, a desgraça outrora temida se manifesta e se materializa na vida do transgressor. É possível que, aquele que não fez o sinal da cruz antes de viajar, produza um deslize na estrada para fortalecer o tabu em sua mente e reafirmar o poder do Totem. Ao quase sofrer um acidente grave, a mente do neurótico confirma a expectativa da desgraça que advém do não cumprimento do tabu e exalta o poder do Totem. A sua mente dificilmente entenderá que foi um acaso, ela tem a predisposição em pensar que foi a falta do sinal da cruz. Alguém pode ter um apego a ideia de que um filme em que apareça cenas de morte pode trazer uma energia ruim para a casa; ela vê o filho assistindo o filme e fica apreensiva, na expectativa de que algo ruim pode acontecer, ela vai cozinhar e queima mão. A desgraça se cumpriu, a punição foi concretizada e reafirmou-se o tabu e o poder do Totem. A consciência transgressora foi aliviada pela autopunição.

Na atual situação de pandemia, tabus e totens são erigidos. A voz sacerdotal da mídia estabelece o Totem e o seu poder, os tabus se fundamentam, gerando ações obsessivas na sociedade da neurose. A expectativa da desgraça é vivificada nas mentes. A obediência aos tabus é absoluta para alguns, a tal ponto de proferirem palavras de baixo escalão aos que não cumprem, pois estes transgressores são responsáveis pela desgraça que virá. Este é o modelo vivenciado pelo povo selvagem, onde o transgressor é apedrejado pela comunidade ou lançado para fora do arraial, a fim de que todo o povo não receba a punição. Presenciei uma cena dessas: um homem, sem máscara, fazendo compra na feira ao ar livre, é xingado por outro que passa. O homem sem máscara é visto pelo homem de ação obsessiva que usa máscara como o transgressor do tabu (proibição) e causador da desgraça coletiva. Antes que me interpretem mal, faço a minha defesa: é certo que o cuidado deve existir, todavia, a questão aqui é a ação obsessiva ou o apego exagerado fundamentado na expectativa da desgraça proveniente da transgressão do tabu que sacraliza o Totem.

Existem, obviamente, casos mais patológicos chamados de TOC (transtorno obsessivo compulsivo), cujo medo (eulabeia gr.) da desgraça se transforma em uma compulsão fóbica (phobos gr.), como visto em outro momento deste ensaio, entretanto, trago aqui um olhar para as nossas pequenas ações obsessivas que, não obstante, geram grandes consequências, nas quais privamos e limitamos nossa vida por causa da expectativa da desgraça, residente nas nossas fantasias mágicas e animistas. Freud, da fala de um paciente, empresta a expressão “onipotência dos pensamentos” para se referir a ideia obsessiva, visto que nesta ação, o pensamento neurótico passa a ter um poder extremo para quem o tem, isto é, há o entendimento de que a fantasia que passa por seu pensamento é real e irá acontecer, como uma magia. Isto é vivenciado como real e sintomático.  

Neste ponto, vale afirmar que a crença tem uma grande influência sobre nós e em nós e, por este motivo, é importante pensarmos que o poder não está exatamente nas “coisas”, e sim, no poder que parte de nós, assim como na sociedade selvagem, onde o Totem recebia o poder de um sacerdote, ou como no texto bíblico em que Jesus diz “todo poder me foi dado”. O poder, portanto, é dado.

E você? A qual objeto dá poder? Quais são as tuas ações obsessivas e teus apegos? Qual tabu não se atreve a desobedecer pela expectativa da desgraça? Sob qual fantasia firma a tua vida? A partir destas reflexões de consciência, podemos entrar num processo para alterar os Totens e os tabus, bem como a expectativa da desgraça pela expectativa da graça, usando a “onipotência dos pensamentos” a nosso favor. Para tal, aconselha-se a ajuda de um profissional para auxiliar os primeiros passos neste caminho de transformação e autoanálise.

Por Carlos Colect – psicanalista/filósofo

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