Relações de potência e impotência. Ser humano: o animal político por Carlos Colect

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De início, ao falarmos de relação ou relacionamentos, precisamos trazer à consciência que, como declarou o filósofo Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), o Ser Humano é um animal político (Zoon Politikon) capaz de articular meios racionais para organizar a sua comunidade. Por isso, chamado de Político, palavra grega que procede da junção de duas outras:Politikèpolistechnè: a técnica de organização da polis (cidade). Este processo de organização ocorre nas articulações das relações, tornando o Ser Humano um ser que só existe e se realiza em sociedade, como engrenagens de uma grande fábrica, que se ligam se só têm sentido estando acopladas umas nas outras.

Em outras palavras, não há humanidade fora das relações; não posso existir sem a presença de outro, seja no âmbito interno ou externo; no campo subjetivo das imagens mentais do psiquismo ou no mundo objetivo, sensível e concreto. Deste modo, tudo o que sou é constituído a partir da relação que tenho para comigo e para com o outro, num processo interacionista. Tratamos, assim, de um fenômeno essencial na composição vital de todos os seres vivos que habitam o mesmo habitat.  

Relação: troca de histórias

É na relação que eu relato ao mundo o que me trouxe até aqui, quem me tornei e o que estou me tornando. Sim, relação, em latim, provém de relatus: narrar algo que ocorreu. Nos tempos antigos, relação estava ligada ao contar um conto ou levar uma história a alguém. Assim as pessoas se encontravam para transmitir ensinamentos, crenças e firmar uma cultura. Quando alguém ia se relacionar, estava indo para um ambiente de troca de histórias. Esta é a essência intrínseca no que hoje conhecemos como relação. Portanto, toda relação carrega em si uma troca de conteúdos, num processo de comunicação que acontece no afetar dos corpos.

O corpo afetado: potência e impotência

   Por que corpos? Ora, não seria o corpo (soma gr.) o ponto de contato entre a subjetividade da mente e a objetividade da sociedade, através do qual somos afetados? Pois bem, ao falar do corpo, falo da fisiologia que o compõe. É na fisiologia dos sentidos dos corpos que se iniciam as relações. É no sentir do ouvir, do falar, do cheirar, do tocar e do ver que a relação começa. É no sistema límbico, região cerebral responsável por sentir o mundo, que os relacionamentos têm o seu início, podendo gerar um indivíduo com potência ou impotência de ação. Como afirma o filósofo Espinoza (séc. XVII d.C.): o corpo humano pode ser afetado de muitas maneiras, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída (Ética III, post. 1).

Afecções do corpo

Por este ângulo de visão, é pela percepção nascida dos sentidos ou afecções do corpo que o meu ser tem a potência de agir aumentada ou diminuída.Em conformidade com o pensamento de Espinoza, associo a fala do Mestre Galileu, descrita no livro bíblico:A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. (Mateus 6:22,23). Neste texto, os “olhos”, de acordo com o grego, é οφταλμος ophthalmos, que diz respeito aos olhos mentais e a faculdade de conhecer, isto é, os olhos são símbolos da percepção e consciência. A condição de uma percepção boa ou má corresponde ao nível de consciência que estabelecerá os estados de luz (ação) ou trevas (inércia). Interessante pensar que a palavra “bons”, usada no texto grego, é απλους haplous, cujo sentido está entrelaçado a ideia de simplicidade e pureza. E o que é o puro, senão aquilo que está livre de artificialidade, sem misturas? Quando falamos que algo é puro, estamos falando que nele não há mistura. Deste modo, a percepção boa está num nível de consciência pura, que não se mistura com o que lhe adentra os sentidos. Há uma boa capacidade de discernimento. Em outra forma, se o teu nível de consciência e lucidez te permitir não se misturar com as afecções que advém das relações, então, teu ser não terá a potência diminuída nos afetos de tristeza, e sim aumentada nos afetos de alegria.

No que tange a relação, todas são afetivas, pois afetam de alguma forma. Histórias e conteúdos são trocados. Precisamos, assim, pensar nos afetos que transformam. O que seria o afeto, senão o resultado de um encontro, de uma união entre duas ou mais partes? Em um dos sentidos etimológicos, Affectus (latim) é “unir”. É, desta forma, o encontro que une e afeta os objetos (coisas, pessoas…) envolvidos para bem ou para mal, para produzir potência ou impotência de ação.

Permita-se vivenciar relações que potencializam o teu agir.

Carlos Colect é psicanalista/filósofo

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