Após 50 anos, o poeta David Costha volta à capital do Paraná. Em situação de rua e tentando vender versos, refaz os laços com a cidade que o inspirou arte quando criança.
“Ei, jovem, você tem um minutinho?” É assim que David Costha, 60, costuma abordar quem cruza seu caminho pelas ruas de Curitiba e de tantas outras cidades que passou, e continua passando. O poeta itinerante quer um tempo para falar sobre a palavra. Une as frases para falar sobre as suas letras. Quer discutir o próprio trabalho.
Nas ruas da capital paranaense desde o último dia 10, David guarda na bolsa alguns exemplares dos minilivros que escreveu, e um passado experiente. Ele é um poeta das ruas, atualmente sem teto. Em tour pelo Sul do País, tenta garantir o pão de amanhã vendendo versos a R$ 3.
Antes de desembarcar em Curitiba, David passou por cidades do interior de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Paulistano, ainda tem São Paulo como cidade mãe. E confessa ter visto em Curitiba muito da maior cidade da América Latina, principalmente no Largo da Ordem.
Em um dia atipicamente ensolarado na Rua XV de Novembro, David quebra o mito do curitibano fechado: “É uma cultura pujante, um pessoal que gosta de se comunicar em diversas temáticas. Só posso dizer o melhor dessa cidade”.
Pela primeira vez, David vai poder comemorar o aniversário de Curitiba na cidade. Nesta sexta-feira (29), a cidade completa 326 anos. Mas foi há quase 50 anos que a aniversariante o presenteou.
Foi em Curitiba que, por volta dos sete anos de idade, David descobriu que queria ser artista. Ele veio visitar a cidade com a família. Quando estava para retornar para São Paulo, sentiu vontade de ir ao banheiro. “Minha mãe falou assim, entra aqui e faz nesse matinho mesmo. E corre que lá vem o ônibus”, conta.
Foi no “matinho” que ele encontrou um pedaço de um braço de violão. “Aquilo foi como se fosse um presente para mim”, lembra. A madeira descartada tocou o coração da criança, que foi embora imaginando ser artista.
Na adolescência, o garoto David gostava de ler a extinta revista Recreio. Até que um dia descobriu o clássico Meu Pé de Laranja Lima, romance de José Mauro de Vasconcelos. Mais velho, quando começou a receber da vida as primeiras desilusões, encontrou refúgio nas palavras. “Eu fui desabafar naquilo que estava mais próximo, que era um lápis e um papel”. Desde então não parou mais.
Dificuldades
Aos 60 anos, David tem muito o que contar. Já gravou músicas e publicou um livro de poesias chamado Esteio, o qual, segundo ele, chegou a receber uma crítica positiva da coluna Bilhete, de Deocleciano Torrieri Guimarães, no jornal Folha de S. Paulo.
Apesar de ainda não sair do armário e se assumir como poeta, David continua a escrever novos versos. Mesmo assim, a vida ainda não lhe trouxe o estrelato de um best seller. Altos e baixos na carreira e crises com a família o colocaram em situação de rua.
Um dia, quando estava em casa sem nada para comer, no meio do desespero, teve um insight. E escreveu o seguinte verso:
Venha-nos amor. Em meio às caminhadas. Entre vidas que nos seguem. Se à si em nós percebem-se, ou não. Por amar, amor. Venha-nos!
Na sequência, pegou 20 centavos que tinha no bolso e fez uma cópia. Foi para rua tentar vender. “Por que a Poesia? Quando a gente sofre algum trauma na vida, a tendência é que a gente volte para o ninho”, diz.
E foi voltando para o aconchego do lar das palavras que tentou e continua a tentar refazer a própria casa. Alguns compraram seu sonho e desde então vive de quem tem um tempo para ler e ouvi-lo.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2019/7/K/dLO7lgQGmJguVLQmokjA/file1.jpeg)
Contribuição por versos ajuda poeta a comer, dormir e viajar — Foto: David Costha/Arquivo Pessoal
Visões do poeta em Curitiba
Assim que chegou na cidade, David foi atrás de histórias. Quis explorar Curitiba e conhecer o que alguns espaços reservavam. Na Biblioteca Pública do Paraná, ficou surpreso com o acervo, de 162 anos recém-completos.
Foi buscar saber o que era a tal da Boca Maldita, que tanto já tinha escutado falar em São Paulo. Descobriu que foi palco para milhares de pessoas que foram às ruas em 1984 para pedir por Diretas Já. Um marco da democracia no coração da capital do Estado.
David conta que certa vez já recitou um livro de Paulo Leminski. Foi na cidade que descobriu que o escritor era curitibano. Ainda deseja visitar a pedreira que leva o nome de Leminski, mas por hora, segue a vida pelo Centro.
Entre os espaços que mais chamaram atenção do senhor, ainda na região da Boca Maldita, está o Bondinho da XV. O local foi reaberto no fim do ano passado, mas o bondinho está na XV de Novembro desde 1973.
Utilizado como espaço de leitura, tendo mais de 2 mil livros no acervo, o bondinho marcou a memória e fotos tiradas por David. “É uma intervenção singela e provocativa no coração curitibano”, opina.
Foi conversando com um jovem que encontrou enquanto falava sobre o próprio trabalho que descobriu que Curitiba estava de aniversário no dia 29. Estendeu os parabéns destinados aos cidadãos para senhora cidade.
Já com passagem marcada para São Paulo, o poeta criou amor por Curitiba. “Assim como todo apaixonado, não vejo defeitos”, diz rindo. Pensa em voltar e se instalar de vez na cidade por ter sido bem recebido e pelo nível cultural que encontrou na capital paranaense.
“É uma cidade onde o povo vive e deixa viver. Eu posso falar isso porque tenho conhecido várias cidades. Eu encontrei uma Curitiba alegre, jovem, com um povo educado e inteligente. Curitiba consegue fazer isso a com as pessoas. Marcar”, pontua David.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2019/b/D/ULvGS3RTSPZ5VndBXVwg/file-1.jpeg)
Minilivros são oferecidos a R$ 3 com versos curtos nas ruas que o poeta passa — Foto: Natalia Filippin
G1
