segunda-feira, junho 15, 2026

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A Sociedade pode ser feliz? Por Carlos Colect

Admito, a dúvida — proposta no título — soa estranha ao mundo que se apropria da antiga filosofia de Aristipo de Cirene (435 a.C.) e que recria a sua doutrina hedonista, na qual o Prazer se consolida como o Bem Supremo a ser alcançado. O Hedonismo Normativo, uma de suas vertentes, afirma que a humanidade deve perseguir o prazer e evitar a dor. Reinventando o pensamento grego clássico, criamos o Hedonismo Popular que, seguindo o cerne básico, tem o Prazer como meta em todas as ações e pensamentos cotidianos, porém, norteado por uma gratificação egoísta e imediatista, ignorando as possíveis consequências desta busca pulsional do Id, conforme a instância psíquica nomeada por Freud para se referir ao Princípio do Prazer. É, neste prisma, possível afirmar que habitamos uma sociedade hedonista.

Para esclarecer este pensamento social, vale trazermos algumas informações relevantes acerca da nomenclatura advinda do mito grego. De forma simplista, Hedonismo provém do nome Hedon (ou hedonê, de acordo com a versão do mito), filho de Eros e Psique. Em suma, simbolicamente, a Mente (Psique), quando unida ao Desejo (Eros) produzido pela falta, gera o Prazer (Hedon). Este é o mecanismo natural da vida humana, isto é, o objetivo final do nosso psiquismo sempre será o Prazer que, resumidamente, é o momento em que nos aliviamos da tensão existencial (angústia, vazio, ansiedade, falta, incompletude…). Portanto, é legítima a busca pelo Prazer. Aristipo tinha a sua razão e verdade ao compreender o Prazer como algo central na existência humana, conforme o Hedonismo Psicológico, o qual entende que o comportamento humano saudável tende a ir em direção ao prazer e a diminuir a dor.

A problemática, atualmente, não está na busca pelo Prazer, e sim na negação da dor; está na falta da consciência de que há ambivalência no Prazer, ou seja, há prazeres nocivos e saudáveis; prazeres que levam ao prejuízo vital e ao lucro vital; à morte e à vida. Como diz o provérbio hebreu: “Há caminho que parece direito ao homem, mas o seu fim são os caminhos da morte.” (Pv 16:25). Além disso, encontramos dificuldades quando a busca pelo prazer se torna um discurso universal impositivo, associando-se ao conceito de Felicidade Plena, anulando qualquer possibilidade de sentimentos dolorosos, desconfortáveis e sofridos. É uma lógica incoerente, visto que a raiz que motiva a busca pelo Prazer (Hedon) é o vazio, a falta e o desconforto. Esta condição desagradável humana desperta o Desejo (Eros), o qual “engravida” a Mente (Psique), movimentando-a em direção ao alívio (prazer). Sendo assim, quando os desconfortos do vazio humano são anulados ou negados, anula-se a possibilidade da mente gerar o prazer. Deste modo, podemos conjecturar que O MAL-ESTAR É NECESSÁRIO e que uma SOCIEDADE “FELIZ” É UMA SOCIEDADE VIOLENTA.

Sociedade violenta? Sim. Como vimos, uma sociedade que almeja viver apenas o Bem-Estar (felicidade) é uma sociedade que visa o prazer no alívio existencial. Isto implica na busca por evitar o conflito psíquico que habita cada Ser. Tal fato, torna a humanidade em violenta e insaciável, visto que o conflito psíquico se dá, justamente, pela repressão nos impulsos violentos (ID/princípio do prazer). Se desejarmos eliminar o conflito, eliminamos o mecanismo de defesa da repressão. Logo, matamo-nos e nos ferimos, transformamo-nos em psicóticos e perversos em potencial, deslimitados e em “combate” com tudo o que tenta conter os nossos impulsos e pulsões. Sendo assim, o desejo de bem-estar acaba por se tornar em Mal-Estar. Um ciclo se instaura. Desta forma, não há como fugir do Mal-Estar na Sociedade humana. A Sociedade e seus sócios, se quiserem conviver de forma harmoniosa, não podem sentir outra coisa, senão um Mal-Estar, pois temos de reprimir e conter os impulsos e as fantasias destrutivas, as quais são naturalmente humanas. Isto, portanto, causa tensão psíquica, desconforto, conflito e mal-estar.

Não nos iludamos, pessoas plenamente “felizes” são pessoas violentas, agressivas, que vivem sem a privação da consciência moral (superego). São psiquicamente Perversos, infantis, cujo prazer é sado masoquista. Em outras palavras, o ato prazeroso está no ferir a si mesmo e o outro, pois o outro é alguém que não existe dentro de si como um limitador. Não há consciência da existência do outro. Todavia, todos nós somos dotados de pulsões agressivas e destrutivas, fantasias de todos os tipos e desejos de morte… porém, precisam ser contidos conforme a Lei Social. Cada época e sociedade têm a sua Lei, na qual o cidadão precisa se enquadrar ou se domesticar, e, deste modo, administrar o seu Mal-Estar.

Carlos Colect – Psicanalista

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