Compreendemos, pela psicologia e psicanálise, que temos um aspecto infantil que nos guia na “fase adulta”, tornando-nos imaturos em nossas reações, ações e visões acerca do mundo. O aspecto infantil, conforme entendemos, chamamos de “criança interior”, a qual carregamos com sentimentos de vergonha, rejeição, inferioridade, dentre outras consequências de uma família de origem disfuncional. Cabe, a nós, identificarmos a criança que nos habita e a educarmos, corrigindo os pontos negativos dos sofrimentos da infância — desconfiança, vergonha, inferioridade, culpa, dúvida, confusão de papéis, isolamento e desesperança — e elevando os pontos positivos, tais como a confiança, autonomia, iniciativa, criatividade, identidade, intimidade, integridade do Ego (princípio da realidade e consciência).
A consciência ou percepção da Criança que reside em nosso interior e que, por vezes, manifesta-se desestruturando a nossa maturidade nas relações sociais, pode se iniciar na observação dos pensamentos, ou melhor, na forma como os pensamentos se apresentam. Entende-se, portanto, de acordo com John Bradshaw, no seu livro Volta ao Lar (1993), além de outros teóricos da infância, que o pensamento da Criança possui três características básicas: polarização, catastrófico e universalização. Ao percebermos estas características em nossos pensamentos, estaremos trazendo luz sobre nossa Criança Interior, tornando-nos mais conscientes da sua presença e atuação. Vejamos que, basicamente, o PENSAMENTO POLARIZADO consiste em “tudo ou nada”, “me ama ou me odeia”, “sou aceita ou rejeitada”, é, assim, um pensamento absolutista, onde o “mau” não pode caminhar com o “bem” dentro da mesma pessoa ou situação. A criança não se sente amada quando a mãe não fica o tempo todo com ela, ou quando a corrige sente que a mãe não a ama. Esse tipo de pensamento produz desesperança.
É um pensamento radical, que não consegue lidar com a ambivalência das emoções. O PENSAMENTO CATASTRÓFICO, em síntese, caminha junto com a ansiedade infantil, isto é, o medo do imaginário e do irreal. A criança, ao ouvir as imposições catastróficas dos pais assustados, tentando educar os comportamentos dos filhos, assimilam a catástrofe ao pensar o mundo. Por exemplo, “filho, não saia, senão o homem do saco vai te pegar!”. Existe um imaginário e irreal que produz uma ideia catastrófica. Pode haver inúmeras situações em que este pensamento pode aparecer, dentre elas numa situação de problema de saúde, onde a pessoa acha que vai morrer, ou nas relações, onde a pessoa acha que vai ser traída, ou que se os filhos saírem de casa vão ser assaltadas; ou a pessoa pode pensar que vai sofrer um acidente de carro por sentir que desobedeceu a Deus (pecou). Enfim, as situações podem ser várias e podem gerar muita angústia.Por fim, o PENSAMENTO UNIVERSALIZADO, persiste na generalização de fatos isolados.
O “nunca, jamais e sempre” insiste em gerar uma perturbação interior. Quando a criança vê a mãe saindo para trabalhar, desespera-se, pois acredita que a mãe NUNCA mais irá voltar; ou se a criança cai da bicicleta, pode acreditar que se SEMPRE vai cair; ou, ainda, quando se afoga na piscina, pode pensar que SEMPRE vai se afogar. Deste modo, o pensamento universalizado pode trazer a ideia de que sempre algo vai acontecer, ou que nunca ou jamais algo vai dar certo. Por exemplo, uma mulher pode ser agredida pelo marido e, depois da separação, generaliza todos os homens como agressores, ou todas as relações como abusivas. Neste caso, a mente dela regride ao modo de pensar da criança. A universalização do pensamento pode estar intimamente ligada a um Trauma infantil. Pois bem, ao identificarmos estas formas de pensar, precisamos dialogar com a nossa criança, levando ela para o tempo dela (passado) e nos colocarmos no tempo presente, trazendo a fala do adulto, compreendendo que há uma ambivalência, e que não precisa ser radical nas sentenças e observações. Além disso, devemos permitir, segundo Bradshaw, que a criança se aventure e descubra novos caminhos na vida, arriscando-se um pouco mais, com a garantia de que estamos com ela, sendo o adulto que a protege e segura. Em resumo, contra a Polarização, Universalização e o Catastrófico, podemos mostrar para ela que a Vida tem vários lados e que não há somente uma polarização, radicalização, “nunca, jamais e sempre”, mas também existe o “talvez e às vezes”.
Por Carlos Colect