O Trabalho como instrumento de tortura e a Profissão de fé por Carlos Colect

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O teu trabalho é fonte de vida ou fonte de renda? Fonte de dor ou fonte de prazer? Estas são questões profundas que podem nos levar a um breve momento de crise, visto que o mundo capitalista em que vivemos não nos permite ou pouco nos liberta para adentrarmos os questionamentos das nossas ações.  Há quem tenha passado pela sua breve existência sem nunca ter pensado sobre a obra de suas mãos, apenas foi conduzido pela ânsia da necessidade ou pelo tabu dogmático “time is Money”.

A sociedade atual não nos educa para a reflexão, apenas para a ação, muitas vezes irracional, motivada pela emoção em colapso. Podemos afirmar que o conteúdo primordial do ensino atual é extrovertido — voltado para a ação externa —, e não para a introversão, isto é, para o mundo interno e inconsciente. Acerca disso, precisamos da educação de educadores que vivem a vocação do “educare (lt.)” – “educação – guiar para fora”. Seres que, como parteiros, conduzem o indivíduo no processo do vir à LUZ; removem da escuridão da ignorância e inconsciência, acendem a luz aos olhos da mente e alimentam o “alumnus (lt.)” – “aluno – criança de peito”, promovendo a maturidade no discernimento de si, do outro e do nós.   

Tal papel e função começam em casa e se estendem à “escole (lt.)” – “escola” que, para os gregos clássicos, é um lugar de “otium (lt.)” – “ócio”, onde a criança é colocada numa posição filosófica de busca pelos significados e valores da Vida, não somente de busca pelo “negotium (lt)”, ou seja, pelos negócios materiais. Como dito, o olhar das crianças, atualmente, é guiado para o “negotium“, não para o “otium“; é direcionado a observar as questões de fora, não de dentro; é induzido ao TER, não ao SER. Em outras palavras, não se prepara o Ser Humano para a Vida (otium), prepara-se para os negócios (negotium), de forma cega. Contudo, deixo claro que o “otium” e o “negotium” precisam estar unidos por valores. Um não pode anular o outro. Fora e dentro se complementam.

Ao sermos construídos apenas para o negócio (negotium), acabamos negociando  valores internos, vitais e eternos em troca do trivial, passageiro e efêmero. Entramos em situações de frustração, estresse, descontentamento e insatisfação, realizando obras que não nos fazem sentido ou não nos gera vida. Assinamos contratos, damos o nosso tempo, oferecemos o nosso suor aos deuses do Olimpo, somente pelo status, por não ter uma visão ampliada capaz de observar outras oportunidades ou, ainda, por ter uma mente que se sente culpada por vivencias passadas e precisa aliviar o peso da consciência se punindo com um trabalho insuportável e repetitivo, numa síndrome de  Sísifo que, no mito grego, é condenado a rolar uma grande pedra até o topo da montanha e no final do dia ela rola para baixo novamente, dia após dia, o trabalho é retomado como uma punição. No inconsciente coletivo, “trabalho” carrega a imagem de tortura ou consequência penosa de uma transgressão. Assim também é expresso no Gênesis bíblico, onde no Jardim de Deus, Adão e Eva transgridem a lei divina e são punidos com o “suor do rosto”. Foi-lhes sentenciado: “do suor do teu rosto, comerás o teu pão” (Gn 3.19). Sobre esta sentença que habita a mente coletiva da humanidade, muitas vezes, a alma que se sente transgressora de uma ordem divina irá se prender num trabalho que lhe proporcione um estado de sofrimento e tortura emocional e psíquica. É importante fazer um autoexame para perceber se não se está nessa condição punitiva de castigo.

Pois bem, recordemos que a origem da palavra “trabalho” vem do latim “tripalium“, que era um instrumento romano de tortura. Assim, o “trabalho”, etimologicamente, está associado a algo penoso, ao cumprimento de uma pena, uma punição ou condenação. Essa é a ideia que veio com os romanos no séc. VI. Em tempos bíblicos, mais antigos, o trabalho está ligado às palavras “avodah” (hebraico) e “latreia” (grego), ambas com um sentido de serviço sagrado, podendo ser traduzido por “adoração”, “prestar culto” ou “fazer um sacrifício aos deuses”. Esta ação estabelecia um culto, raiz da palavra CULTURA. Desta forma, refletimos: o que cultua o seu trabalho e que cultura estabelece? A quem tem sacrificado?

Juntamente com a ideia sacrificial do trabalho, nasce a ideia de profissão. Todo Homem, em qualquer lugar do mundo, é conduzido a escolher uma profissão que forneça sustento para a sua vida. O que poucos observam, no entanto, é que “profissão” é “professar”, intimamente relacionado à fé. Um trabalho que produz sustento é uma profissão de fé; é a confissão de uma crença. A profissão de fé está intrínseca no ritual do trabalho. Imaginemos um sacerdote realizando o trabalho num templo da antiguidade, no qual declarava, ao mesmo tempo, as suas crenças. Deste modo, o trabalho confirma a profissão. O trabalho é o ato observável no mundo concreto, enquanto a profissão é a fé ou crença que reside no mundo subjetivo.  

Hoje, em sua maioria (e nada há de mal nisso), o trabalho é visado pelo salário que oferece, pela viabilidade no Mercado e pela crença individual que permeia uma fé que envolve desejos que abrangem apenas o indivíduo (casa própria, carro, bens de consumo, status financeiro, lucro pessoal…), em conformidade com a doutrina capitalista. A fé coletiva que visa o outro, por sua vez, é um quesito pouco analisado na escolha de uma profissão e, a meu ver, é esta fé que faz um trabalho produzir justiça e vida, pois não visa somente um lado (eu), mas também o outro lado (o outro). Talvez, isto faça sentido com o que o verso bíblico diz: “o justo viverá pela sua fé!”, de outro modo, há justiça e vida quando um trabalho é realizado em conjunto com uma profissão de fé saudável; quando o trabalho (coletivo – outro) e profissão (indivíduo – eu) caminham juntos, como um exercício fiel a uma boa crença que não se atem somente a si mesmo. Este é o bom trabalho: a realização de uma vocação sagrada. Ser médico deve ser uma “profissão de boa fé”, e não um emprego por status; da mesma forma um escritor, um jornalista, um professor ou qualquer outro ofício. Assim, antes de visar o trabalho é preciso reconhecer a crença que se tem em si, ou melhor, reconhecendo a sua crença, reconhece-se o seu trabalho, de modo que não se torne um instrumento de tortura ou apenas fonte de renda e dor insuportável. O sacrifício do trabalho vale a pena quando unido à profissão de fé.

Todos têm alguma crença, basta descobrir se ela se volta para a humanidade, pois o trabalho é uma ação comunitária. Se somente houver crença pessoal, não haverá vocação, não haverá trabalho que sustenta a alma; haverá somente um emprego, uma fonte de renda, e não de vida. Isto não é uma negação de si mesmo, é apenas uma visão do outro como uma extensão de si próprio.

Para auxiliar nesta reflexão, cito o verso bíblico — “Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé.” (Tiago 2.18) — e proponho a seguinte questão para que seja respondida no interior de cada um: “Qual fé (crença) a tua obra tem revelado?”

Por Carlos Colect

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