Ao estudarmos as relações humanas interpessoais e intrapessoais, deparamo-nos com os inevitáveis mecanismos de defesas do Ego — identidade que nos conecta com o campo consciente e mundo concreto; é a instância psíquica responsável por amenizar o conflito inconsciente entre o Id (pulsões do instinto) e o Superego (consciência moral) e, assim, nos manter mais equilibrados dentro do que consideramos realidade concreta e consciência social (existência dos seres e objetos com os quais nos relacionamos objetivamente). Para esta funcionalidade, o Ego utiliza inúmeros mecanismos de defesa, com o objetivo de evitar o desprazer e angústia ocasionada por algum tipo de desordem.
Muitos são os pesquisadores que estudaram e estudam estes processos, porém, destaco Anna Freud (1895 – 1982), filha de Sigmund Freud (Pai da Psicanálise) e também psicanalista, a qual elaborou estudos e publicou a obra O Ego e os Mecanismos de Defesa (1936). Neste livro, ela descreve os mecanismos observados e seus modos operantes. Cito alguns: Regressão; Formação reativa; Anulação; Introjeção; Projeção; Sublimação; Isolamento; Negação; Identificação…
Para termos relações mais saudáveis, considero ser de extrema importância obter consciência desses mecanismos, pois, ao possuirmos esta lucidez, entenderemos que ninguém maltrata o outro porque o outro é mulher, índio, negro, branco, latino, ruivo, magro, gordo, tem alguma deficiência, dentre outras questões,… maltrata, exclui ou rejeita porque está se defendendo de algo que, muitas vezes, habita em si mesmo, como uma sombra ou imagem turva. Desta forma, utiliza-se de mecanismos de defesa como: identificação (quando me vejo no outro e, se for uma imagem que me causa desprazer, tento eliminar da minha presença), projeção (quando há algo desagradável em mim e não quero mexer e, assim, projeto no outro por meio de palavras ofensivas como “você é um inútil”, por exemplo; quando na verdade eu me sinto inútil), deslocamento (quando sou acometido de uma dor interna, ou fui maltratado ou rejeitado e, deste modo, desloco a minha raiva ou dor para algo externo que aparentemente é mais frágil). Esses são alguns mecanismos de transferência usados num processo nocivo de socialização. O foco, portanto, não é a cor da pele do outro, sua opção sexual ou o comportamento do outro, é um reflexo da si mesmo projetado e transferido no outro.
Podemos sugerir, portanto, que todo relacionamento acontece dentro de uma transferência positiva ou negativa, associada a outros mecanismos de defesa. Falarei, todavia, para este momento, apenas da transferência. O que significa isso? Transferimos (inconscientemente) imagens de situações e pessoas das vivências passadas (pai, mãe, infância…) ou si mesmos e projetamos sobre o outro. Numa transferência positiva, projeta-se, na relação, as imagens paternas geradas nas experiências de aceitação da infância. Por outro lado, na transferência negativa, há uma resistência e são projetadas as imagens das vivências paternas geradas nas experiências de rejeição. Esta transferência não ocorre somente com imagens dos pais, mas com imagens de outras pessoas significativas também. Neste caso, o propósito do relacionamento será sempre o sofrimento do outro ou de si mesmo, visto que a busca inconsciente está em reaver uma dívida do passado. O outro é visto, na mente inconsciente, como a figura (pai, mãe, alguém…) que causou o sofrimento no passado e, por isso, precisa de alguma forma ser cobrado e sentenciado. O passado é revivido no presente. Observando este prisma, fica evidente a necessidade de compreendermos as transferências, para evitarmos transtornos desnecessários, sendo conscientes de que estamos nos relacionando com imagens inconscientes e não com o Ser concreto diante de nós.
De forma geral, as transferências são manifestadas impulsivamente e carregadas com carga emocional elevada sem racionalização apurada, pois habitam uma memória infantil, das vivências da infância. Por isso, em sua maioria, são incisivas e cobradoras de mudanças, advindas de uma criança ferida. Em suma, a transferência traz consigo um grande desejo de mudança do outro (amigo, professor, cônjuge, namorado, colega de trabalho; …).
Vale frisar, entretanto, que os mecanismos de defesa existem para o nosso bem, porém, são saudáveis apenas por um momento. Quando ultrapassam o tempo necessário para o seu uso, eles se transformam em sintomas. É como alguém que fratura o braço, coloca gesso e depois que o osso é restaurado deseja, ainda, continuar usando o gesso, isto, certamente, tornar-se-á em outro problema. Da mesma forma, o mecanismo de defesa, usado no momento do desprazer da situação, não se torna saudável ao se estender para além daquele momento que, muitas vezes, reside na infância e faz morada na fase adulta.
É certo que o tema em questão é de sobremaneira profundo e exige muito de nossas análises pessoais. Vale, apesar disso, compreender que, caso queiramos nos relacionar melhor com o mundo fora de nós (se assim podemos dizer), precisamos estar atentos para não carregarmos o nosso mundo interno para o mundo externo, de modo nocivo. Isto é possível, na medida em que adquirimos mais consciência dos nossos mecanismos de defesa e passamos a ter mais nitidez acerca da existência do “outro oculto entre nós”.
Por Carlos Colect – psicanalista/filósofo
