Inicio este texto com as seguintes questões: O que você vê é realmente o que você vê? Você realmente pode confiar nos teus sentidos? Tudo isto o que se apresenta é, de fato, uma realidade ou verdade absoluta? O teu sofrimento e o teu medo tem sido baseado no que você considera real ou no que os outros te impõem? Faço tais questionamentos porque estamos no meio de um caos pandêmico, segundo as muitas palavras afirmadas e infinitas imagens mostradas. Diante de todo o bombardeio de informações, podemos considerar e aceitar tudo como uma verdade ou mentira absoluta e inquestionável?
Pois bem, “…que é a verdade?”(João 18.38), perguntou Pilatos ao Cristo, sem obter uma resposta audível. Essa questão ecoa desde os primórdios da humanidade. Para o filósofo Nietzsche, a verdade é um ponto de vista; para o relativismo, a verdade é relativa; para a filosofia sofista, algo declarado com convicção e por longo tempo se torna uma verdade. Em outro aspecto, a verdade é tão somente uma crença. Suponhamos que alguém encontre um corpo e uma faca ao seu lado e, ao pegar a faca, alguém fotografe. A cena mostra a verdade? Como explicar que não se trata do assassino, mas de um inocente? A verdade, então, neste olhar da justiça, é tratada como interpretação.
Na palavra grega (aletheia) ou hebraica (emet), temos um sentido interessante: algo oculto que foi revelado. Sobre este conceito, fica a incógnita: a humanidade suportaria a inexistência do oculto? E se tudo fosse revelado? Penso que o oculto mantém viva a raça humana. Seríamos feitos para toda a verdade? Suportaríamos descobrir toda a verdade sobre nós mesmos? Hoje, compreende-se que a mente trabalha com pouca verdade (revelação). Grande parte dela está oculta em cerca de 95% no campo psíquico inconsciente, de acordo com a neurociência e psicanálise, ou na energia e matéria escura do Universo, segundo a física. E nas relações pessoais? Haveria alguma relação que suporte toda a revelação do oculto (verdade)? Haveria alguém capaz de cobrar a verdade de alguém se não houver contato com a sua própria verdade? Outra questão surge: a verdade liberta? A mente revelada conduz para fora do inconsciente e nos torna mais esclarecidos a ponto de compreender que a noite precisa existir e faz parte do dia.
Ao observarmos o quanto de oculto existe na vida, é possível conjecturar que não nascemos para a verdade plena ou que ainda não estamos preparados para ela. Nossa mente não está configurada para a aletheia gr. – oculto revelado, pois carrega em si um entendimento de maldade, por isso, declaramos “a verdade dói”, tornando-a hostil à nossa visão. Neste entendimento comum de que a verdade é algo que causa e gera dor, tendemos ao caminho da ilusão, contudo, travestida de verdade. Preferimos a ‘mentira’ sobre si mesmos a revelação de quem realmente somos. Preferimos a ‘mentira’ expressa na boca da multidão a verdade que se revela no íntimo. Preferimos as sombras projetadas na caverna, como afirmou o filósofo Platão, a imagem fora da caverna, pois a verdade conduz ao desconforto da mudança. Ela se oculta em nosso inconsciente como na caixa dada por Zeus a Pandora que, ao abri-la, descobre os males do mundo, porém, ali também habita a verdadeira esperança. Na ocultação da verdade sobre nós mesmos (também necessária para proteção provisória de nossa psique) reside somente a pseudoesperança, geradora de frustração. Quem deseja a Esperança, ou seja, quem deseja o que de fato esperar, precisa estar disposto a abrir, em algum momento da vida, a sua caixa de Pandora e libertar seus males.
A verdade, neste ângulo, trata-se apenas de fragmentos que se espalham pelo mundo e, aos poucos, emergem do mar dos pensamentos da humanidade. A vida não pode receber toda a verdade, num único momento. Desta forma, penso que nem tudo precisa e pode ser revelado no convívio social. Caso contrário, não haveria relações sociais. Como diria Freud, uma hipocrisia precisa haver, isto é, uma atuação teatral. Como assim evidencia a palavra “hypocrisis” que, em latim, traz a ideia do ato de fingir como um ator. Nem todo pensamento é expressado, nem todo sorriso corresponde ao interior, nem toda palavra é verídica, nem toda ação está de acordo com o que se pensa… mas, não tem problema, isso não é simplesmente maldade ou falsidade, também faz parte do nosso mecanismo de sobrevivência. Permita que as pessoas não revelem toda a verdade. Permita que uma parte permaneça oculta. Da mesma forma, não revele toda a tua verdade, para o bem do outro. O outro, nem sempre, precisa da tua verdade. Nem mesmo a tua mente te revela toda a tua verdade, pois te seria muito incomodo, por isso, grande parte dela é inconsciente.
Acerca disto, sobre tudo o que temos visto e ouvido no âmbito social, não importa o que é verdade plena ou mentira absoluta, pois desconhecemos o todo, apenas temos imagens fragmentadas e nebulosas. Há um grande abismo de incógnitas. Tudo o que possuímos são as nossas interpretações e olhares estabelecidos a partir do local em que nos encontramos; a partir de nossas experiências, conteúdos psíquicos e intelectuais. No entanto, a interpretação do que adentra os sentidos pode provocar saúde ou adoecimento, movimento ou inércia. A criança, por exemplo, que interpreta ter um bicho papão debaixo de sua cama pode paralisar pelo medo de algo que não está sob a sua cama, e sim na sua percepção. Nisto, portanto, está a importância: na percepção e interpretação.
Por este ângulo de visão, é pela percepção nascida dos sentidos ou afecções do corpo que o meu ser tem a potência de agir aumentada ou diminuída.Em conformidade com o pensamento do Mestre Galileu, descrita no livro bíblico:A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. (Mateus 6:22,23). Neste texto, os “olhos”, de acordo com o grego, é οφταλμος ophthalmos, que diz respeito aos olhos mentais e a faculdade de conhecer, isto é, os olhos são símbolos da percepção e consciência. A condição de uma percepção boa ou má corresponde ao nível de consciência que estabelecerá os estados de luz (ação) ou trevas (inércia). Interessante pensar que a palavra “bons”, usada no texto grego, é απλους haplous, cujo sentido está entrelaçado a ideia de simplicidade e pureza. E o que é o puro, senão aquilo que está livre de artificialidade, sem misturas? Quando falamos que algo é puro, estamos falando que nele não há mistura. Deste modo, a percepção boa está num nível de consciência pura, que não se mistura com o que lhe adentra os sentidos. Há uma boa capacidade de discernimento. Em outra forma, se o teu nível de consciência e lucidez te permitir não se misturar com as afecções que advém dos sentidos, então, teu ser não terá a potência diminuída nos afetos de tristeza, e sim aumentada nos afetos de alegria. Assim sendo, tenha discernimento e não entregue os teus ouvidos a tudo o que lhe é falado, nem os teus olhos a tudo o que lhe é mostrado. A verdade ou a mentira não seria você quem faz, segundo a sua interpretação e percepção?
Por Carlos Colect – psicanalista/filósofo

