Na última quinta-feira, o plantão da enfermeira Ana (nome fictício) já começou intenso em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Curitiba. Tão logo teve início o expediente, um paciente internado com Covid-19 entrou em parada cardiorrespiratória. Para que o procedimento de emergência fosse realizado, foi necessário antes afastar as outras camas por perto, encostando umas nas outras para abrir algum espaço (com o crescimento no número de casos graves da doença, as unidades de saúde estão abarrotadas de pacientes). Mesmo depois de todo o esforço, o desfecho não foi positivo e mais uma vida foi levada pelo coronavírus.
Num momento em que o sistema de saúde se encontra à beira de um colapso na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), faltam vagas e sobram lágrimas. Lágrimas por aqueles que se foram e pelo temor do que está por vir. Lágrimas pelo sentimento de impotência que se instala entre os profissionais de saúde, decorrente da impossibilidade de oferecer melhor atendimento aos pacientes acometidos por uma doença sem cura.
Para se ter noção da gravidade do momento que vivemos, a situação que abriu esta reportagem nem foi a mais dramática que Ana viveu em seu trabalho recentemente. Isso porque em outro dia da última semana a UPA em que ela trabalha teve de lidar com sete mortes por Covid-19 num único plantão. “É difícil, as vezes não conseguimos segurar o choro. Eu já chorei, já vi colegas chorando…”, conta a enfermeira, num relato parecido com o dado pelo médico André (também nome fictício), que trabalha em uma UPA que está recebendo pacientes Covid e num hospital de Curitiba. “Eu já chorei, choro de desespero, de pensar ‘meu Deus, não vai acabar nunca isso?’ Nossa chefe esses dias chorou um monte”, diz ele.
Na última terça-feira, quando estava de plantão, André conta ainda que um carro parou em frente à unidade de saúde em que ele trabalha, chamando sua atenção por conta dos gritos desesperados que começaram a ecoar. No veículo estavam os familiares de uma pessoa com Covid-19 que havia sofrido uma parada cardíaca. Eles contaram à equipe da UPA que tentaram por cerca de 10 minutos acionar o Samu, em vão. Resolveram então colocar por conta própria o parente no veículo e levá-lo para ser atendido.
“Começamos a avaliar ele e já constatamos o óbito”, conta o profissional, desabafando ainda diante de tantas tragédias. “A sensação é de que não vou dar conta. Será que vale a pena ficar aqui? Mas daí penso que se eu sair seria ainda pior, então ficamos nessa”, complementa o médico.
“Este não é só o momento mais difícil que já enfrentamos, mas algo 20 ou 30 vezes além do que imaginei que pudesse acontecer na minha carreira. Nunca pensei numa situação próxima dessa, que eu chamo de caos por conta da desproporção entre necessidade de atendimento e a disponibilidade de leitos UTI e não-UTI. É uma coisa inédita, nunca tinha passado. E é frustrante, porque é algo que está fora do nosso alcance alguma forma de resolução”
depoimento de um médico que é supervisor num hospital privado de Curitiba
Transporte é um dos gargalos
Na noite de domingo, outro episódio registrado no Hospital do Trabalhador chamou a atenção. Em um corredor ao lado do estabelecimento de saúde, seis ambulâncias com pessoas contaminadas pelo novo coronavírus aguardaram por horas para conseguir um encaminhamento para os pacientes. Segundo os relatos ouvidos pela reportagem, esse aspecto logístico tem sido um dos grandes gargalos do sistema neste momento tão crítico.
“Na UPA, temos alguns casos de pacientes graves, mas eles não podem ficar muito tempo ali porque não temos todos os recursos. Então imagine que eu consigo uma vaga em um hospital para esse paciente, ligo para o Samu e peço esse transporte, uma ambulância com médico. Se eu pego a vaga umas 16 horas e aciono o Samu, o paciente vai sair meia-noite, as vezes no meio da madrugada. Então o transporte eu imagino que está bem complicado, pouca ambulância para muito paciente”, afirma o médico André.
O depoimento de um socorrista do Samu corrobora com as afirmações. Segundo esse profissional, nos últimos dias as equipes não têm conseguido parar nem para almoçar direito. Com os pacientes já dentro das ambulâncias, pode levar horas até um leito ficar disponível.
“Meu penúltimo plantão foi bem complicado, Covid em cima de Covid. Pegava na unidade de saúde e levava para a UPA. O rádio também não parava, só escutava ‘viatura tal com Covid positivo’”, diz o socorrista. “Esse é o momento mais crítico e que estou com mais medo.”
‘O duro é entrar na internet e ainda ver gente falando em tratamento precoce’
O socorrista do Samu conta ainda que fica chateado ao ver relatos de aglomeração e pessoas promovendo festas em um momento tão crítico como o atual. A falta de empatia e sensibilidade é o que mais choca. “A vontade é pegar o pessoal na rua, fazendo festa, aglomeração, e levar dentro da UPA para ver a situação, levar para dentro dos hospitais. Todo mundo tem de trabalhar, não nego isso, mas, do meu ponto de vista, morto não compra. O pessoal tinha de ter um pouco mais de respeito”.
Já o doutor André comenta que é “duro” trabalhar o dia inteiro com casos de Covid-19 e depois, quando entra na internet, ainda ver pessoas falando em tratamento precoce.
“Como médico, tudo que prescrevo é validado em estudos. Os estudos de mais alta evidência demonstram que não tem nada de benefício [com medicamentos como cloroquina e ivermectina] e as vezes ainda pega complicações, faz efeito colateral. Esses dias recebi um paciente com hepatite grave por uso de ivermectina. E aí? Como vai fazer num caso desses? E tem muita gente usando que acha estar protegido, aí se expõe, passa para o vô, a vó, eles morrem e aí vem o remorso. Já peguei várias situações assim.”
Consumo de oxigênio dispara e estoque de remédios está perto do fim
Com a explosão na procura por atendimento, o Paraná já começa a enfrentar problemas como a falta de oxigênio (principalmente na região oeste e norte do estado) e o risco de medicamentos utilizados para a entubação acabar. De acordo com o Cento de Medicamentos do Paraná (Cemepar), por exemplo, o estado só tem estoque para mais três dias no que diz respeito a remédios usados em ventilação mecânica. Para resolver a situação, foi pedido mais insumos ao Ministério da Saúde.
Além disso, o consumo de oxigênio cresceu até 500% no último mês nos municípios paranaenses, com previsão de nova alta no mês de março. A situação levou três cervejarias de Clevelândia, a 414 quilômetros de Curitiba, a interromper parte da produção do produto para doar cilindros à unidades de saúde e ajudar na contenção da crise sanitária.

