Rafaele Raquel do Nascimento, de 11 anos, mora no Residencial Salvação e estuda sob a luz do poste porque na própria casa a energia foi cortada há 6 meses.
À luz de um poste e sentada na porta de casa, uma menina de 11 anos depositou em uma carta ao Papai Noel a esperança em continuar estudando em Santarém, no oeste do Pará. Rafaele Raquel do Nascimento pediu dinheiro para pagar passagem do ônibus que a leva à escola numa viagem de 50 minutos. A carta ainda não foi adotada.
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Sentada na porta de casa, Rafaele realiza as tarefas da escola — Foto: Geovane Brito/G1
Com letrinhas desenhadas em um pedacinho de papel, Rafaele acreditou na magia no Natal e, apesar das dificuldades impostas pela vida, sempre conta com o apoio da mãe para nunca deixar de sonhar.
A história da menina começou ser rabiscada pelo destino a partir dos olhos de um professor. Sidney Nascimento passou em frente à casa da menina, no Residencial Salvação, e a viu sentada na porta estudando sob a luz do poste – única fonte de iluminação à noite. Na casa da família, a energia elétrica foi cortada em julho deste ano.
O professor pegou a cartinha e começou a andar pela cidade em busca de padrinhos dispostos a adotarem os pedidos.
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Rafaele Raquel tem 11 anos e estuda o sexto do ensino fundamental — Foto: Geovane Brito/G1
Três pedidos cheios de esperança
Entre palavras contando como está a vida da família, Rafaele fez três pedidos ao bom velhinho:
- Dinheiro para comprar passagens de ônibus e continuar os estudos;
- Brinquedos para brincar de casinha com as duas irmãs; e
- pagamento da conta de energia elétrica para que a energia seja restabelecida e ela possa estudar dentro de casa.
“Eu comecei escrever porque eu quero ir à escola e nem sempre minha mãe tem dinheiro para colocar crédito na minha carteirinha. Aqui não tem energia, fui para frente de casa porque lá tem a luz do poste. Eu não conseguiria escrever no escuro”, contou.
Para a mãe Jamily Raquel do Nascimento, os pedidos foram uma surpresa. “A carta teve uma repercussão tão grande que eu me assustei e por isso a surpresa. Todo ano ela escreve cartas, esse ano ela se superou”, contou.
Rotina de estudos
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Rafaele também estuda à luz de velas — Foto: Geovane Brito/G1
Assim como escrever a carta foi dificultoso, Rafaele contou que estudar também é difícil. Sempre na frente de casa, a menina pega os livros e faz as tarefas ali mesmo. “Às vezes chego na escola e dói a vista porque eu forço muito para escrever. Com a luz do poste não dá para ver direito, mas já resolve bastante”, ressaltou.
A rotina de Rafaele começa bem cedo, às 6h. Ela acorda e se arruma para enfrentar cerca de 50 minutos dentro do ônibus no percurso entre a casa e a escola estadual Frei Ambrósio, no centro da cidade. É preciso atravessar a cidade para estudar.
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Rafaele e Lara gostam de brincar de casinha durante os intervalos nos estudos — Foto: Geovane Brito/G1
Escondida atrás de um tímido sorriso, a menina conversou e falou sobre a rotina diária. “Sempre vou sozinha no ônibus porque minha mãe fica com as minhas irmãs. É muito difícil, mas o que eu quero é estudar”, completou Rafaele.
Antes de ir para uma escola mais longe, a menina estudava no próprio complexo de casas do Governo Federal. Entretanto, no Residencial Salvação não é ofertada a série que Rafaele começou fazer em 2019. Desta forma, a mãe precisou correr atrás de uma instituição que recebesse a filha.
Nas escolas próximas não havia vaga, então foi necessário colocar em uma escola que ofertasse, muito embora fosse longe.
“É guerra, é luta todo dia, mas estamos firmes e fortes. Meu coração fica bastante apertado, é uma situação que não desejo a ninguém. Dói ver as minhas filhas brincando no escuro, ela [Rafaele] estudando no escuro”, completou.
Na mesinha de estudos e onde a família faz as refeições estão os sinais de alguém que não quer desistir de sonhar. Latinhas que viram castiçais iluminam a noite com velas para que Rafaele apoie os livros próximo para aprender mais um pouco.
Dificuldades familiares
Na pequena casa, quatro pessoas que representam o significado de amor. A jovem mãe Jamily Nascimento com as três filhas: Rafaelle, Lara Luíza, de 5 anos, e Luna Monique de 3.
Jamily conta que atualmente está desempregada e muitas vezes não tem dinheiro para custear as passagens nos coletivos para a filha. O pai das meninas ajuda como pode, mas ele não mora na mesma casa.
“Ele manda dinheiro, eu me viro, não é toda vez que acontece dela ficar sem ir à aula. Mas isso já aconteceu várias vezes. Desempregada com três crianças em casa é complicado”, explicou.
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Família usa velas todas as noites para não ficarem na escuridão dentro de casa — Foto: Geovane Brito/G1
Ano letivo em 2020
O próximo ano letivo ainda está longe, mas a família já pensa em como vai conseguir comprar os materiais escolares para as três meninas. Rafaele fez um pedido a mais, que o Papai Noel não esquecesse que ela e suas irmãs precisam de cadernos, lápis e canetas para escreverem as próprias histórias.
Os padrinhos de Natal podem fazer doações à família da Rafaele deixando na TV Tapajós, na Avenida Ismael Araújo, bairro Santíssimo, em Santarém.
Passe livre garantido
Logo após a publicação dessa reportagem, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Santarém (Setrans) informou que vai conceder à Rafaele uma carteirinha de passe livre para que ela tenha garantido o transporte para ir à escola durante o ano letivo de 2020.
Luz em casa
Ao G1, a concessionária de energia informou que se sensibiliza com o caso e que ainda na tarde deste sábado (21), uma equipe irá realizar uma visita na residência da família de Rafaele, a fim de oferecer as melhores condições e então garantir que a família volte a ter o fornecimento de energia.
Leia carta na íntegra
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Carta da menina Rafaele escreveu para o Papai Noel — Foto: Reprodução
“Querido Papai Noel, me chamo Rafaele tenho 11 anos de idade papai Noel eu e minha família estamos no momento muito difícil na minha casa, minha mãe está desempregada e às vezes não não vou à escola, porque ela não tem dinheiro pra colocar crédito na minha carteirinha. Por favor Papai Noel, me ajude a conseguir crédito para eu poder ir à escola. Na minha casa também está sem energia e a minha mãe não conseguiu pagar ainda. Eu e as minhas irmãs estamos no escuro e não consigo fazer meus meus trabalhos, às vezes, porque não tem luz. Papai Noel, gostaria de ganhar um brinquedo também, gosto de brincar de casinha com as minhas irmãs. Um beijo, papai Noel e muito obrigada que Jesus abençoe.”
À luz de um poste e sentada na porta de casa, uma menina de 11 anos depositou em uma carta ao Papai Noel a esperança em continuar estudando em Santarém, no oeste do Pará. Rafaele Raquel do Nascimento pediu dinheiro para pagar passagem do ônibus que a leva à escola numa viagem de 50 minutos. A carta ainda não foi adotada.
G1

