Todos nós, ao longo da nossa breve existência, somos acometidos por sintomas. Isto é um fato experienciado em nossa carne e nas instâncias psicológicas que devemos dar a devida atenção, visto que o sintoma é como um farol que direciona o barco em meio à turbulência da tempestade.
Na etimologia grega, a expressão sintoma advém da união de duas palavras: sin (junção) e tomo (pedaços), podendo significar o resultado de uma junção de fragmentos. Em outras palavras, por meio de sensações e alterações fisiológicas e psíquicas, o sintoma revela que há uma cisão na integridade do organismo; uma quebra no estado de normalidade, ordem e equilíbrio. É, portanto, um meio que indica a presença de uma desordem, porém, não é a desordem em si.
Utilizando-se, ainda, da etimologia grega, a palavra soma (corpo) dá origem a expressão somático, usada para se referir aos sintomas observáveis no corpo físico. Sobre tais manifestações, a humanidade, por ter um neocórtex mais desenvolvido do que os outros animais, isto é, por ter a capacidade de questionar o seu mundo, debruça-se para desvendar estes mistérios, a fim de promover um significado satisfatório sobre suas dores e sofrimentos. Nesta possibilidade, proponho um olhar sobre os sintomas somáticos, objetivando uma melhor compreensão acerca desses fenômenos essenciais que servem de alerta para a nossa sobrevivência.
De inicio, segundo a visão do filósofo Platão (Atenas, séc. IV – V a.C.), há uma ideia (eidos gr. – imagem) por detrás de tudo o que está no mundo concreto. Segundo o pensador, para que algo exista no mundo sensível — experimentado por meio dos sentidos—, é preciso que antes tenha sido uma ideia, uma imagem-modelo mental. Para Aristóteles (Estagira, séc. IV a.C.), a ideia está no próprio objeto. Antes de o celular ser celular no mundo concreto, por exemplo, ele foi uma imagem idealizada na mente de alguém. É possível, a partir desse pensamento, entender que quando algo não está conectado com sua ideia original, está fora do seu significado. Como exemplo, um guarda-roupa que não guarda roupas está fora da sua ideia ou da imagem mental que o gerou e, assim, fora do seu sentido existencial.
No aspecto psíquico, de igual modo, produzimos um sintoma psicossomático quando nos afastamos de uma ideia original. Se há um sintoma depressivo que inativa o sistema nervoso, isto pode mostrar que há um afastamento da ideia do Sistema Nervoso, que é agir e sentir. O sintoma, por sua vez, revela a ideia contrária que o reforça: “Não posso ou sou incapaz de ter essa ação ou de sentir isso, pois oferece perigo…”. Se há, em outro exemplo, uma dor de cabeça, tal sintoma comunica a ideia reforçadora: “sou incapaz de pensar nisso, pois oferece perigo..”, indo, portanto, em afastamento da ideia original do cérebro, que é pensar.
Desta maneira, enfatizo que dentro de um sintoma existe uma ideia (imagem) reforçadora, ligada à sensação de incapacidade e perigo fantasioso, a qual é contrária à ideia essencial do local onde reside o sintoma. Preciso, portanto, encontrar a ideia original do local somático do sintoma e a ideia contrária de incapacidade e perigo que o sustenta, para que haja significação, ou seja, para que o sintoma somático se una a sua ideia original, tenha sentido e perca a força, pois o peso do sintoma está na ocultação do sentido e significado original.
Para amenizar a sensação de incapacidade e impotência que circunda a ideia que fortalece o sintoma, precisamos de afetos que gerem potência de ação, conforme o filósofo Spinoza (Amsterdã, séc. XVII d.C.), visto que o sentimento de impotência frente a uma atitude se relaciona com os encontros afetivos que nos afetaram na infância. Logo, precisamos de encontros que nos afetem de forma a devolver o poder de ação, nos quais temos um depósito de confiança de pessoas significativas. Pessoas que acreditam em nós quando nós não acreditamos. Pessoas que nos removem as culpas e nos impulsionam a andar. Inserido nisto, segundo a física, a potência é aumentada no ritmo constante. Em outras palavras, a força de ação aumenta quando há persistência num ritmo constante, assim como a água que tanto bate até que fura. A ação, para potencializar, precisa encontrar um ritmo, um hábito insistente, seja em um comportamento ou fala.

Carlos Colect é psicanalista/filósofo


Maravilhoso e realista!
Obrigado, Ana Lúcia, pelo comentário.