{"id":9202,"date":"2019-05-04T11:41:26","date_gmt":"2019-05-04T14:41:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=9202"},"modified":"2019-05-04T11:41:27","modified_gmt":"2019-05-04T14:41:27","slug":"o-estupro-so-acontece-porque-o-assedio-e-permitido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/05\/04\/o-estupro-so-acontece-porque-o-assedio-e-permitido\/","title":{"rendered":"\u201cO estupro s\u00f3 acontece porque o ass\u00e9dio \u00e9 permitido\u201d"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Maria Camargo, roteirista e autora da s\u00e9rie &#8216;Ass\u00e9dio&#8217; da Globo, leva para a televis\u00e3o aberta as hist\u00f3rias das mulheres v\u00edtimas do m\u00e9dico Roger Abdelmassih<\/h4>\n\n\n\n<p>Qual \u00e9 o valor da palavra? Esse foi um dos principais questionamentos que fizeram a roteirista Maria Camargo escrever as hist\u00f3rias de mulheres que foram v\u00edtimas de\u00a0abusos sexuais\u00a0cometidos por um m\u00e9dico renomado. Inspirada no livro\u00a0<em>A Cl\u00ednica &#8211; a farsa e os crimes de Roger Abdelmassih<\/em>, de Vicente Vilardaga, ela escreveu a s\u00e9rie\u00a0<em>Ass\u00e9dio<\/em>, a primeira s\u00e9rie da Globo desenvolvida exclusivamente para a plataforma digital da emissora \u2014onde come\u00e7ou a ser exibida h\u00e1 sete meses\u2014 e que estreia na televis\u00e3o aberta nesta sexta-feira (03\/05), com o total de 10 epis\u00f3dios. &#8220;Eu conhecia a hist\u00f3ria do &#8216;m\u00e9dico monstro&#8217; que estuprou n\u00e3o sei quantas pacientes, mas sabia muito pouco sobre essas mulheres, s\u00f3 tinha lido alguns depoimentos. Quando li a contracapa do livro, intui que elas tiveram uma participa\u00e7\u00e3o muito forte na condena\u00e7\u00e3o dele e percebi que essa hist\u00f3ria me interessava, a hist\u00f3ria das mulheres que foram al\u00e9m desse papel de v\u00edtimas&#8221;, conta Camargo em entrevista a EL PA\u00cdS.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">MAIS INFORMA\u00c7\u00d5ES<\/h3>\n\n\n\n<p>&#8220;Nos casos de crimes de cunho sexual, \u00e9 uma constante o argumento de &#8216;\u00e9 minha palavra contra a sua&#8217;. Mas quando voc\u00ea tem diversas mulheres contando a mesma coisa, esse relato ganha outra forma. E, hoje em dia, o relato tem, sim, muitas vezes, o valor de prova&#8221;, continua a autora. Roger Abdelmassih, de 75 anos, especialista em reprodu\u00e7\u00e3o humana e um dos pioneiros da fertiliza\u00e7\u00e3o em laborat\u00f3rio no pa\u00eds, foi preso e condenado a 181 anos de pris\u00e3o por abusar sexualmente de suas pacientes enquanto elas estavam sob efeito de sedativo. A primeira que o denunciou contou sua hist\u00f3ria em 2009, mas s\u00f3 teve o registro cassado em 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>Camargo n\u00e3o queria fazer uma obra sobre um estuprador serial, mas sim sobre o simb\u00f3lico dessa viol\u00eancia. O projeto, que nasceu dois anos antes de que o\u00a0movimento #MeToo\u00a0colocasse os abusos sexuais em debate no \u00e2mbito internacional, reflete sobre o mundo em que as agress\u00f5es contra as mulheres sempre foram toleradas, e sobre as mudan\u00e7as que come\u00e7am a transformar a sociedade. &#8220;Pensei muito no que quer dizer um mundo e um pa\u00eds onde um homem conseguiu durante tantos anos cometer essa viol\u00eancia com tantas mulheres, com tantas pessoas circulando por ali, sem ter sido incomodado. Como se permite que uma coisa dessas aconte\u00e7a?&#8221;, pergunta-se Camargo. E ela mesma se d\u00e1 a resposta: &#8220;N\u00e3o se trata apenas do que acontece dentro do consult\u00f3rio de um &#8216;m\u00e9dico monstro&#8217;. Essa \u00e9 uma hist\u00f3ria do extremo, mas, para chegarmos at\u00e9 esse ponto, h\u00e1 uma permissividade que permeia tudo. S\u00f3 acontece o estupro porque o ass\u00e9dio \u00e9 permitido. \u00c9 uma quest\u00e3o cultural&#8221;. Da\u00ed vem o t\u00edtulo da s\u00e9rie estrelada por um elenco que conta com Ant\u00f4nio Calloni (como o m\u00e9dico Roger Sadala), Adriana Esteves, Paolla Oliveira e outros estrelas da dramaturgia brasileira.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Maria Camargo come\u00e7ou a carreira na Globo como roteirista no programa policial\u00a0<em>Linha Direta<\/em>, em 1999 e ficou &#8220;muito impactada&#8221; ao perceber que cerca de 90% dos casos que chegavam \u00e0 reda\u00e7\u00e3o eram de\u00a0feminic\u00eddios. Resgatou parte desse choque para escrever\u00a0<em>Ass\u00e9dio<\/em>\u00a0e apresent\u00e1-la \u00e0 emissora. O projeto foi imediatamente aprovado. &#8220;H\u00e1 20 ou 10 anos seria imposs\u00edvel fazer esse trabalho. N\u00e3o s\u00f3 o assunto em si est\u00e1 em pauta agora, como tamb\u00e9m a rea\u00e7\u00e3o a ele, essa coisa de dizer que tudo \u00e9 mimimi, que h\u00e1 exageros, que tudo agora \u00e9 ass\u00e9dio. Estamos muito longe de melhorar realmente.\u00a0As taxas de feminic\u00eddio s\u00f3 crescem. Mas, ao mesmo tempo, se fala mais sobre isso, mais mulheres denunciam. Acho que conseguir fazer uma s\u00e9rie de alcance nacional sobre o assunto j\u00e1 \u00e9 um passinho adiante&#8221;, diz ela.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/05\/03\/cultura\/1556895386_835560_1556906786_sumario_normal.jpg\" alt=\"Imagem de divulga\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie 'Ass\u00e9dio', da TV Globo.\"\/><figcaption>Imagem de divulga\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie &#8216;Ass\u00e9dio&#8217;, da TV Globo.&nbsp;RAM\u00d3N VASCONCELLOS (GLOBO)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Dramaturgia<\/h3>\n\n\n\n<p>A roteirista j\u00e1 havia atravessado antes o limbo entre fic\u00e7\u00e3o e realidade. Em 2015, ela escreveu o roteiro de\u00a0<em>Nise: o cora\u00e7\u00e3o da loucura<\/em>, a cinebiografia da psiquiatra Nise da Silveira, que foi isolada por seus colegas m\u00e9dicos por contrapor-se aos tratamentos convencionais de\u00a0esquizofrenia\u00a0nos anos 1950, que inclu\u00edam lobotomia e eletrochoques. Ali, no entanto, a mensagem do relato era essencialmente positiva. Em\u00a0<em>Ass\u00e9dio<\/em>, o desafio era plasmar na tela o horror e o trauma de v\u00edtimas marcadas para sempre. Para isso, ela e sua equipe estudaram em profundidade os depoimentos dessas mulheres e procuraram fontes do Minist\u00e9rio P\u00fablico, envolvidas na investiga\u00e7\u00e3o. &#8220;A for\u00e7a dessa hist\u00f3ria \u00e9 que ela realmente aconteceu, mas, a partir da\u00ed, eu tinha que criar uma fic\u00e7\u00e3o com responsabilidade. Me perguntava a cada passo se n\u00e3o estava cruzando limites e tive que fazer escolhas \u00e9ticas e est\u00e9ticas&#8221;, diz. Uma das dificuldades foi o grande n\u00famero de v\u00edtimas, diretas e indiretas, entre as quais Camargo inclui a pr\u00f3pria fam\u00edlia do m\u00e9dico. &#8220;Isso faz parte do potencial simb\u00f3lico que essa hist\u00f3ria tem&#8221;, argumenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que escreveu a sinopse da s\u00e9rie, ela construiu &#8220;mulheres simb\u00f3licas&#8221;, conforme explica: &#8220;Resolvi pegar situa\u00e7\u00f5es de repeti\u00e7\u00e3o. V\u00e1rias mulheres foram atacadas pelo Abdelmassih, por exemplo, enquanto estavam anestesiadas, ent\u00e3o temos duas personagens que passam por isso. Tamb\u00e9m havia mulheres muito ricas e outras mais humildes, que venderam tudo para fazer a insemina\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o temos uma personagem que chega \u00e0quele hospital com muito esfor\u00e7o, investindo tudo o que tinha para realizar aquele sonho. Fui pegando esses contextos que as levaram at\u00e9 ali para construir esse simbolismo, deixando claro que fizemos fic\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Amora Mautner, diretora art\u00edstica da obra, o desafio era outro: construir cenas cruas, \u00edntimas e de grande viol\u00eancia, mostrar cenas de estupro sem suscitar em &#8220;nenhuma cabe\u00e7a torta&#8221; algum tipo de excita\u00e7\u00e3o sexual. Para isso, adotou o que chama de &#8220;est\u00e9tica de IML&#8221;, que permeia toda a s\u00e9rie, com uma fotografia fria, em tons de verde e branco. &#8220;Todas as cenas de viol\u00eancia s\u00e3o contadas a partir do ponto de vista da mulher. E quer\u00edamos contar o estupro como uma esp\u00e9cie de morte mesmo, de uma maneira que seja angustiante e do\u00eddo para quem v\u00ea&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas apesar de falar de dor, a obra fala tamb\u00e9m \u2014e principalmente\u2014 de cura atrav\u00e9s do afeto. O foco est\u00e1 posto sobre as rela\u00e7\u00f5es que se comunicam umas com as outras para romper o c\u00edrculo de sil\u00eancio. &#8220;Elas conseguiram achar umas \u00e0s outras na Internet, em um momento em que esse movimento digital ainda era muito incipiente, para tomar contato com a hist\u00f3ria daquelas que vivenciaram o mesmo drama e, assim, ter for\u00e7a de denunciar&#8221;, destaca Maria Camargo. A roteirista lembra, por exemplo, que muitas v\u00edtimas de Roger Abdelmassih contataram\u00a0v\u00edtimas de Jo\u00e3o de Deus, m\u00e9dium preso acusado por mais de 300 mulheres de abuso sexual, para ajud\u00e1-las. &#8220;Essa\u00a0sororidade, essa rede de solidariedade entre as mulheres, \u00e0s vezes entre mulheres muito diferentes entre si, realmente existe&#8221;. De isso tamb\u00e9m trata\u00a0<em>Ass\u00e9dio<\/em>, de mulheres salvando-se a si mesmas e umas \u00e0s outras pelo poder da palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>ElPa\u00eds<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Camargo, roteirista e autora da s\u00e9rie &#8216;Ass\u00e9dio&#8217; da Globo, leva para a televis\u00e3o aberta as hist\u00f3rias das mulheres v\u00edtimas do m\u00e9dico Roger Abdelmassih Qual \u00e9 o valor da palavra? 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