{"id":8987,"date":"2019-05-02T14:33:25","date_gmt":"2019-05-02T17:33:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=8987"},"modified":"2019-05-02T14:33:26","modified_gmt":"2019-05-02T17:33:26","slug":"mia-couto-doeu-ver-como-africa-e-mocambique-ficaram-tao-distantes-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/05\/02\/mia-couto-doeu-ver-como-africa-e-mocambique-ficaram-tao-distantes-do-brasil\/","title":{"rendered":"Mia Couto: \u201cDoeu ver como \u00c1frica e Mo\u00e7ambique ficaram t\u00e3o distantes do Brasil\u201d"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O escritor mo\u00e7ambicano conversa com o EL PA\u00cdS sobre escrita, pol\u00edtica e o ciclone Idai, que quase destruiu sua cidade natal e demorou a ser notado pelos brasileiros<\/h4>\n\n\n\n<p>Antes de aprender a ler livros,\u00a0Mia Couto\u00a0(Beira, Mo\u00e7ambique, 1955) aprendeu a ler a terra. A grande divers\u00e3o de seu pai, um poeta que teve que exilar-se de Portugal devido a persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, era passear com os filhos ao longo da linha do trem para buscar pequenas pedras brilhantes no meio da poeira. &#8220;Ele ensinou-nos a olhar para as coisas que pareciam sem valor. E, sem nunca nos obrigar a ler, ensinou-nos a ler a vida&#8221;, conta Ant\u00f3nio Em\u00edlio Leite Couto \u2014Mia \u00e9 um pseud\u00f4nimo\u2014 em uma sala de reuni\u00e3o de um arranha-c\u00e9u de S\u00e3o Paulo. Com uma camiseta azul (um tanto amassada) da mesma tonalidade de seus olhos e uma cal\u00e7a\u00a0<em>jeans<\/em>, o escritor parece haver ca\u00eddo de repente no espa\u00e7o onde, no recinto ao lado, homens e mulheres em blazers e palet\u00f3s discutem neg\u00f3cios. Por vezes, as vozes do grupo elevam-se, ainda que sutilmente, mas o suficiente para contrastar com o tom monoc\u00f3rdio e pausado do escritor mo\u00e7ambicano, que, em sua fala tranquila, constr\u00f3i elucubra\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e met\u00e1foras a cada segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mia Couto descobriu-se poeta aos 14 anos \u2014 o primeiro poema foi feito para o pai e publicado sem a autoriza\u00e7\u00e3o do jovem escritor no Di\u00e1rio da Beira, algo que, \u00e0 \u00e9poca, lhe fez querer &#8220;morrer de vergonha&#8221;. A prosa chegou anos mais tarde, quando come\u00e7ou a trabalhar como rep\u00f3rter em um jornal, como infiltrado da luta clandestina pela independ\u00eancia de\u00a0Mo\u00e7ambique. &#8220;A\u00ed comecei a ter a tenta\u00e7\u00e3o de escrever, de inventar mundos paralelos&#8221;, lembra. Quando conheceu a l\u00edrica de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, soube que ia por bom caminho. O escritor mo\u00e7ambicano visitou recentemente diversas capitais do Brasil para falar sobre a obra-prima do brasileiro,\u00a0<em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>\u00a0(1956), que acaba de ganhar uma nova edi\u00e7\u00e3o da Companhia das Letras. Numa dessas vindas, conversou com o EL PA\u00cdS, em S\u00e3o Paulo, sobre a influ\u00eancia desse livro em sua escrita, sexismo na literatura e sobre como as palavras reinventam-se e seguem vivas, firmes, mesmo quando tudo ao redor se destr\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta.<\/strong>&nbsp;Quando voc\u00ea conheceu a literatura de Guimar\u00e3es Rosa?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0 Ele chegou a mim atrav\u00e9s de\u00a0Luandino Vieira, um escritor angolano que me influenciou muito. Meu primeiro livro de contos foi muito marcado pela escrita do Luandino, que deixava que as vozes da rua entrassem na hist\u00f3ria e fossem elas pr\u00f3prias personagens. E um dia ele falou comigo e disse: \u201cVai at\u00e9 a fonte, que est\u00e1 no Brasil. Eu mesmo fui influenciado pelo Guimar\u00e3es Rosa\u201d. Em 1985, quando Mo\u00e7ambique vivia uma guerra civil que nos fechava para o mundo, eu n\u00e3o conseguia ter liga\u00e7\u00e3o com o Brasil, mas um amigo trouxe-me uma fotoc\u00f3pia d\u2019<em>A terceira margem do rio<\/em>. Eu estava no processo de criar meu segundo livro de contos, e aquilo foi como se eu tivesse descoberto a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o de escrever. Esse foi meu primeiro grande contato com Guimar\u00e3es. Depois fiquei anos tentando voltar e encontr\u00e1-lo em livros e mais tempo ainda demorei em chegar a\u00a0<em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>. E, quando cheguei a ele, mesmo tendo passado pelos contos, o primeiro encontro n\u00e3o foi f\u00e1cil. Eu acho que tinha medo, continuo tendo. \u00c9 como se de repente houvesse uma revela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sobre o que ele estava contando, mas sobre mim pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;Qual foi essa revela\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.\u00a0<\/strong>\u00a0O que o Guimar\u00e3es fez foi uma abertura de caminho, uma esp\u00e9cie de luz verde, uma autoriza\u00e7\u00e3o, dizendo \u201cvoc\u00ea pode ir por este caminho, pode-se fazer literatura assim\u201d, deixando que as vozes chamadas n\u00e3o cultas, que as vozes das pessoas do campo pudessem remexer na hist\u00f3ria e no pr\u00f3prio narrador. Quando cheguei a\u00a0<em>Grande Sert\u00e3<\/em>o, eu j\u00e1 estava embriagado dessa\u00a0literatura.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;Dar esse protagonismo \u00e0s vozes das personagens, como se brotassem sozinhas das p\u00e1ginas do livro, \u00e9 a grande contribui\u00e7\u00e3o de Guimar\u00e3es Rosa \u00e0 literatura lus\u00f3fona?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;Eu acho que tudo o que ele faz \u00e9 quase um milagre, principalmente tendo o p\u00e9 em uma coisa muito perigosa, que \u00e9 o pitoresco, que pode ser considerado regionalista, e, ao mesmo tempo, debru\u00e7ando-se sobre os grandes temas do mundo, as grandes interroga\u00e7\u00f5es da humanidade. Do ponto de vista da literatura lus\u00f3fona africana, foi uma contribui\u00e7\u00e3o mais ao n\u00edvel do tratamento lingu\u00edstico, ver como ele contava aquilo por meio de uma linguagem po\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp; Qual seu trecho favorito de&nbsp;<em>Grande Sert\u00e3o<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;\u00c9 o momento em que o Riobaldo sobe numa grande pedra, olha para o v\u00e3o abaixo e diz que parece que \u00e9 como se a gente tivesse um brinquedo, que \u00e9 o mundo. Essa coisa de transformar o mundo em uma coisa com a qual podemos brincar \u00e9 uma esp\u00e9cie de revolu\u00e7\u00e3o de uma inf\u00e2ncia que foi tolhida. Isso me tocou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;V\u00ea similaridades entre sua obra e a de Guimar\u00e3es Rosa?<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando o sofrimento \u00e9 t\u00e3o intenso, eu acho que n\u00e3o tem cabimento meu papel como escritor\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp; Acho que n\u00e3o tem muita coisa. S\u00f3 isso que eu, agora j\u00e1 menos, mas em um certo momento deixei-me encantar por essa&nbsp;<em>brincria\u00e7\u00e3o<\/em>, que era jogar com as palavras, reinvent\u00e1-las, muito motivado por uma coisa que vem de dentro. Isto \u00e9, os mo\u00e7ambicanos t\u00eam vivas e falam em seu cotidiano outras l\u00ednguas que n\u00e3o o portugu\u00eas, e h\u00e1 um momento muito feliz para um escritor, que \u00e9 perceber que sua l\u00edngua n\u00e3o est\u00e1 acabada, n\u00e3o est\u00e1 feita. Por exemplo, eu todo dia recolho palavras novas na rua, palavras que n\u00e3o s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. Isso \u00e9 um alimento muito grande. Por exemplo, as pessoas dizem&nbsp;<em>arrum\u00e1rio<\/em>&nbsp;para dizer arm\u00e1rio. A palavra&nbsp;<em>arrum\u00e1rio<\/em>&nbsp;tem muito mais sentido, n\u00e3o s\u00f3 porque \u00e9 o lugar onde arrumamos as coisas, mas porque, se revisitarmos a hist\u00f3ria, o arm\u00e1rio era o lugar onde se guardavam as armas. Essa rela\u00e7\u00e3o da l\u00edngua com uma coisa que \u00e9 nossa, mas n\u00e3o \u00e9, que tem profundidade e hist\u00f3ria, \u00e9 muito salutar para nos reportarmos ao que Guimar\u00e3es Rosa dizia sobre o malef\u00edcio de uma linguagem funcional, uma linguagem que serve s\u00f3 para uma comunica\u00e7\u00e3o imediata.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;O contato com a literatura brasileira tem ampliado seu vocabul\u00e1rio de&nbsp;<em>brincria\u00e7\u00e3o<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Sim, porque o Brasil tem esse desafio de dizer sua cultura em uma l\u00edngua que era a l\u00edngua do outro. O pa\u00eds teve que encontrar isso, ent\u00e3o h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o muito mais criativa, de frui\u00e7\u00e3o da l\u00edngua portuguesa, mais do que existe em\u00a0Portugal, onde o idioma \u00e9 t\u00e3o pr\u00f3prio que \u00e9 dif\u00edcil brincar com ele.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;Quais s\u00e3o os brasileiros e brasileiras que voc\u00ea mais l\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;Eu sou da poesia e fico estagnado no tempo, ent\u00e3o sou muito ligado tamb\u00e9m ao&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/carlos_drummond_de_andrade\">Carlos Drummond de Andrade<\/a>, ao Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto mais ainda, \u00e0&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/hilda_de_almeida_prado_hilst\">Hilda Hilst<\/a>, Manoel de Barros\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;Do que escreveria se fosse brasileiro?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.&nbsp;<\/strong>N\u00e3o sei. Vejo, sobretudo aqui em S\u00e3o Paulo, uma nova gera\u00e7\u00e3o que vive um lado da escrita muito curioso, uma escrita sem lugar, que fala sobre o pr\u00f3prio drama do escritor, que n\u00e3o precisa tanto de uma hist\u00f3ria. Eu n\u00e3o seria capaz de fazer isso, porque eu teria que viver em uma grande cidade como esta, o que me arrancaria da rela\u00e7\u00e3o com a terra, a terra como se fosse uma criatura viva. Eu teria que escrever sobre o sert\u00e3o, como o Guimar\u00e3es (<em>risos<\/em>), porque ele conseguiu essa rela\u00e7\u00e3o com um lugar que n\u00e3o \u00e9 lugar nenhum, que ele inventou a partir de vozes que dizem coisas poderosas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea j\u00e1 disse que na \u00c1frica n\u00e3o h\u00e1 realismo m\u00e1gico, mas sim um \u201crealismo real\u201d. Acredita que acontece o mesmo no Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0 Vejo muito a \u00c1frica nas pessoas daqui, mesmo naquelas que, aparentemente, n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com o continente. A\u00a0\u00c1frica\u00a0impregnou muito o Brasil, desde a rela\u00e7\u00e3o com o tempo, com o corpo, essa fronteira muito flu\u00edda entre a rua e a casa, o \u00edntimo e o p\u00fablico, n\u00e3o \u00e9? A \u00c1frica est\u00e1 presente no Brasil de maneira que os pr\u00f3prios brasileiros n\u00e3o identificam.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos escrever uns sobre os outros. Antes, havia uma interdi\u00e7\u00e3o: os africanos que escrevessem sobre Europa ou Am\u00e9rica n\u00e3o eram considerados, porque existia aquela obriga\u00e7\u00e3o de o africano ser \u201caut\u00eantico\u201d. N\u00e3o sabemos o que \u00e9 isso de ser \u201caut\u00eantico\u201d, mas, para atender aos crit\u00e9rios de aceita\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica, pediam uma &#8220;\u00c1frica tradicional&#8221;, tinha que ter uma fogueira, uma feiticeira e esse tipo de estere\u00f3tipo que identifica uma \u201c\u00c1frica aut\u00eantica\u201d. A nova gera\u00e7\u00e3o de escritores africanos libertou-se dessa africanidade imposta desde fora e hoje h\u00e1 muitos escrevendo sobre o mundo inteiro.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/04\/18\/cultura\/1555598858_754829_1555962699_sumario_normal.jpg\" alt=\"Mia Couto\"\/><figcaption>Mia Couto, durante a entrevista.&nbsp;CAMILA SVENSON<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Um africano pode escrever sobre o Brasil, mas n\u00e3o \u00e9 o meu caso. Porque eu transportaria tanto a minha inf\u00e2ncia para qualquer lugar que eu fosse, que estaria sempre escrevendo num mesmo lugar, que \u00e9 minha cidade.\u00a0Agora que aconteceu o ciclone, percebi como isso tudo que era um ch\u00e3o que parecia est\u00e1vel, que parecia definitivo, de repente pode fazer-se fr\u00e1gil. Entrei em p\u00e2nico, porque pensei que tinha perdido meu lugar de inf\u00e2ncia, mas quando visitei a Beira, percebi que uma cidade \u00e9 feita, sobretudo, de pessoas. E as pessoas estavam ali, lutando, reconstruindo as casas e ainda com capacidade de contar hist\u00f3rias. Ali eu percebi que n\u00e3o, n\u00e3o acabou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.&nbsp;<\/strong>Uma parte de seu futuro romance se passa em uma igreja de Beira, que foi destru\u00edda pelo ciclone Idai. De que modo isso lhe afetou?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;Agora que tive tempo de pensar minha rela\u00e7\u00e3o com a escrita do Guimar\u00e3es Rosa, vi que, no fundo, o que ele entrega \u00e9 essa possibilidade nossa de fazermos de um lugar uma coisa sonhada, alguma coisa que \u00e9 m\u00edtica, que n\u00e3o faz parte da geografia. Percebi que essa minha cidade \u00e9 uma cidade que inventei. Ali\u00e1s, isso \u00e9 muito concreto, porque quando estou a falar com meus irm\u00e3os com muito entusiasmo sobre coisas que se passaram na nossa inf\u00e2ncia, eles me dizem \u201cn\u00e3o foi assim, nunca aconteceu isso\u201d. Eu ignoro, porque, para mim, aconteceu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;Voc\u00ea pensou em contar as hist\u00f3rias de sobreviv\u00eancia de Beira, tanto das pessoas quanto de sua cultura, depois do ciclone?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;De repente, tenho que repensar o romance que j\u00e1 comecei, e tenho um certo pudor em me aproveitar da circunst\u00e2ncia dram\u00e1tica. Quando o sofrimento \u00e9 t\u00e3o intenso, eu acho que n\u00e3o tem cabimento meu papel como escritor. Se eu fa\u00e7o qualquer coisa em rela\u00e7\u00e3o a esse tema, ser\u00e1 como cidad\u00e3o, ajudando os outros, sem interesse liter\u00e1rio. Pensei, sim, em fazer um registro daquelas pessoas foram her\u00f3is, que salvaram, que se entregaram, que arriscaram a vida e que nunca ter\u00e3o protagonismo. Penso em fazer isso de maneira pr\u00e1tica e did\u00e1tica para contar aos jovens que h\u00e1 gente que n\u00e3o tem rosto nem nome, mas que \u00e9 capaz de gestos como esses. Eu e minha fam\u00edlia [por meio da Funda\u00e7\u00e3o Mia Couto] faremos um livrinho com o depoimento dessas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;O romance, ent\u00e3o, est\u00e1 provisoriamente suspenso?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.&nbsp;<\/strong>Tenho que repens\u00e1-lo. E eu cheguei a um momento que \u00e9 muito triste para mim, que \u00e9 quando j\u00e1 sei o que vai acontecer, ent\u00e3o adio o m\u00e1ximo poss\u00edvel. Como ter vontade de escrever se eu j\u00e1 sei o que \u00e9 a hist\u00f3ria?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;A nova obra j\u00e1 tem nome?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;&nbsp; Eu vou dando nome aos livros \u00e0 medida que eles v\u00e3o se revelando. O nome que estava vivo, que me guiava, era um nome quase premonit\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o a essa situa\u00e7\u00e3o, porque era algo como&nbsp;<em>Antes de nascer, vi rios e mares<\/em>. E, de fato, foram rios e mares que engoliram aquela cidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.&nbsp;<\/strong>Voc\u00ea diz-se surpreso com a ajuda destinada pelo Governo brasileiro \u00e0 Mo\u00e7ambique depois da trag\u00e9dia, considerando os la\u00e7os culturais e hist\u00f3ricos entre ambos pa\u00edses. Considerou-a pequena. [Al\u00e9m da ajuda financeira, o Governo enviou 40 bombeiros que atuaram no desastre de Brumadinho, e decidiu manter a equipe de salvamento no pa\u00eds depois que o ciclone Kenneth, o segundo desde mar\u00e7o, atingiu o norte de Mo\u00e7ambique nas \u00faltimas semanas].<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0 Sim, mas gostaria de dizer uma coisa tamb\u00e9m para me defender, porque parece que \u00e9 pouco polido da minha parte, estando\u00a0Mo\u00e7ambique\u00a0a receber e eu a dizer que \u00e9 pouco. Mas realmente esper\u00e1vamos mais do Brasil, porque eu recebia tantos contatos de tanta gente que queria ajudar que me parece que uma pequena fra\u00e7\u00e3o dessa gente que telefonou e escreveu j\u00e1 cobriria os 100 mil euros enviados pelo Governo brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA \u00c1frica est\u00e1 presente no Brasil de maneira que os pr\u00f3prios brasileiros n\u00e3o identificam\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mas acho que mais grave at\u00e9 do que o Governo dar pouco, foi como a not\u00edcia chegou t\u00e3o tardiamente aqui. Falei com amigos brasileiros que s\u00f3 uma semana depois da trag\u00e9dia acordaram para uma coisa que, em outros pa\u00edses, a BBC e a Al Jazeera, por exemplo, j\u00e1 contavam. Doeu ver como \u00c1frica e Mo\u00e7ambique ficaram t\u00e3o distantes, j\u00e1 estivemos mais pr\u00f3ximos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu cheguei aqui h\u00e1 15 anos, a \u00c1frica ainda era muito mistificada, mas isso mudou com pol\u00edticas de aproxima\u00e7\u00e3o do\u00a0Governo Lula, por exemplo. Por outro lado, o pr\u00f3prio Brasil \u00e9 muito grande para perceber o que est\u00e1 a acontecer fora. O Brasil tem tanto dentro que \u00e9 dif\u00edcil olhar para fora, e esse fora tem um crit\u00e9rio, obviamente: estar mais pr\u00f3ximo dos Estados Unidos e da Europa. O pa\u00eds n\u00e3o se reconhece nem na chamada\u00a0Am\u00e9rica Latina, algo que \u00e9 estranho para n\u00f3s, porque a \u00c1frica vive a si pr\u00f3pria como uma entidade. Os africanos cantam a \u00c1frica como se fosse uma esp\u00e9cie de grande na\u00e7\u00e3o. Quando o Brasil fizer isso, vai se abrir para o continente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;Qual o papel da literatura para o pa\u00eds reconhecer a si mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;Em Mo\u00e7ambique, como a \u00c1frica como \u201cgrande m\u00e3e\u201d est\u00e1 sempre t\u00e3o presente, tivemos que desmistific\u00e1-la e perceber que h\u00e1 v\u00e1rias \u00c1fricas, v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es, e contar essa diversidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0 Em\u00a0<em>Terra Son\u00e2mbula<\/em>, voc\u00ea conta a\u00a0guerra civil\u00a0mo\u00e7ambicana e defende que a literatura tem a miss\u00e3o de revisitar o passado, mas sem a tenta\u00e7\u00e3o de atribuir culpas. De que maneira pol\u00edtica e literatura relacionam-se e como a primeira deve refletir a atualidade?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;Tanto a pol\u00edtica quanto a literatura s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es narrativas. Mas a constru\u00e7\u00e3o da narrativa liter\u00e1ria \u00e9 uma mentira que n\u00e3o mente, enquanto a pol\u00edtica faz o inverso. \u00c9 discutir a verdade, pensar como hoje a pol\u00edtica se constr\u00f3i muito a partir da mentira, isto \u00e9 de uma narrativa pobre, que vai de encontro aos medos, aos fantasmas, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de \u00f3dio. A literatura pode mostrar esses que s\u00e3o chamados \u201cos outros\u201d \u2014essa inven\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de hoje, que \u00e9 quase preparat\u00f3ria do fascismo\u2014 n\u00e3o s\u00e3o meus inimigos. A literatura lembra a import\u00e2ncia do di\u00e1logo. N\u00f3s chegamos a essa conclus\u00e3o em Mo\u00e7ambique depois de uma guerra civil que come\u00e7ou com a diaboliza\u00e7\u00e3o do outro, at\u00e9 o ponto em que eu n\u00e3o falava com determinada pessoa s\u00f3 porque ela era de outro partido. Dezesseis anos e um milh\u00e3o de mortos depois, a gente viu que ter\u00edamos que conversar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;\u00c9 poss\u00edvel escrever sobre o passado sem apontar culpas mesmo revisitando epis\u00f3dios como, por exemplo, uma ditadura militar?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;O que a literatura pode fazer \u00e9 mostrar que aquele que estava do outro lado, apesar de tudo, mesmo que fosse um torturador, por exemplo, tinha conflitos internos. Que ele n\u00e3o era assim porque tinha um dem\u00f4nio dentro de si. Mas isso n\u00e3o tem a ver com o que podemos ajuizar como justific\u00e1vel. A literatura n\u00e3o pode atenuar o peso que as v\u00edtimas t\u00eam. O sangue que essa gente derramou n\u00e3o pode ser lavado por meio da literatura.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;Aos 17 anos, voc\u00ea abandonou a faculdade de Medicina para alistar-se \u00e0 luta clandestina pela independ\u00eancia de Mo\u00e7ambique. De que maneira a milit\u00e2ncia pol\u00edtica influenciou seu trabalho? Quando escreve, voc\u00ea ainda \u00e9 aquele rapaz de 17 anos?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp; Eu acho que sou sempre, mesmo quando n\u00e3o estou escrevendo. Aquela entrega a uma causa me marcou muito, porque eu tinha a cren\u00e7a absoluta de que estava fazendo uma coisa que n\u00e3o era por mim, mas pelos outros, para mudar o mundo, mesmo que uma parte desse mundo tombasse em cima de mim, porque eu fazia parte de uma minoria privilegiada e eu queria derrubar o sistema que sustentava esse privil\u00e9gio. Era uma coisa que, para mim, n\u00e3o sendo eu religioso e tendo uma forma\u00e7\u00e3o como ateu, n\u00e3o tenha escapado a essa ideia crist\u00e3 de me redimir com qualquer coisa que traga como pecado original, n\u00e3o sei. Eu me alistei porque havia tamb\u00e9m uma raz\u00e3o moral. Nosso lema era \u201csomos os primeiros nos sacrif\u00edcios e os \u00faltimos nos benef\u00edcios\u201d. Isso foi verdade nos primeiros anos. Quando chegou a guerra civil, n\u00e3o havia o que comer. Eu estava na fila, esperando horas para uma pequena loja abrir e, muitas vezes, n\u00e3o havia nada dentro. N\u00e3o quero nunca mais passar por essa experi\u00eancia. Eu sa\u00eda de casa todos os dias sem saber o que ia trazer de comer para os meus filhos, e isso durou n\u00e3o um dia ou um m\u00eas, mas anos. S\u00f3 suportamos isso porque sab\u00edamos que est\u00e1vamos juntos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Por falar em privil\u00e9gios, quando se fala hoje em literatura africana, temos autoras como\u00a0Chimamanda Ngozi Adichie, mas os nomes mais venerados ainda s\u00e3o aqueles como Mia Couto,\u00a0Jos\u00e9 Eduardo Agualusa\u00a0ou\u00a0J. M. Coetzee. \u00c9 preciso ser um homem branco para ser considerado escritor na \u00c1frica?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.&nbsp;<\/strong>&nbsp;Isso vai acabar rapidamente. \u00c9 uma heran\u00e7a hist\u00f3rica que a atual gera\u00e7\u00e3o de escritores africanos vai enterrar. Eu e Agualusa somos resultados desse mundo em que n\u00f3s [homens brancos] \u00e9ramos os educados, os que receb\u00edamos forma\u00e7\u00e3o, mas isso j\u00e1 est\u00e1 mudando. Todos os escritores mo\u00e7ambicanos que eu conhe\u00e7o s\u00e3o negros. Alguns deles t\u00eam, realmente, grande m\u00e9rito. Est\u00e1 a surgir em Mo\u00e7ambique e Angola uma educa\u00e7\u00e3o para que as pessoas dominem a literatura e os instrumentos para escrever, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tanto uma quest\u00e3o pol\u00edtica, nesse sentido.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que talvez haja, sim, a percep\u00e7\u00e3o de que eu e Agualusa, por exemplo, tenhamos sido injustamente promovidos porque somos brancos ou porque somos homens. Se isso aconteceu, tenho que tirar partido no sentido oposto. Por exemplo, eu e minha fam\u00edlia criamos uma Funda\u00e7\u00e3o para promover a literatura entre jovens mo\u00e7ambicanos \u2014e quando digo mo\u00e7ambicanos, automaticamente estou a dizer negros\u2014 e ajud\u00e1-los a publicar seus livros e construir espa\u00e7os de debate liter\u00e1rio.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao\u00a0sexismo, a\u00ed sim a luta \u00e9 mais complicada. Est\u00e3o vivos ainda preceitos e preconceitos que realmente afastam a mulher desse reconhecimento. Temos a Paulina Chiziane, que, felizmente, j\u00e1 est\u00e1 lan\u00e7ada no mundo e \u00e9 bem aceita. Mas, no in\u00edcio, por ser mulher e por acreditar que uma mulher possa contar hist\u00f3rias e que possa falar de coisas da intimidade, da sexualidade, ela sofreu muito e quase fez um auto-ex\u00edlio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Seu nome \u00e9 um dos mais celebrados quando se fala em literatura lus\u00f3fona. Em 2013, voc\u00ea ganhou o Pr\u00eamio Cam\u00f5es, assim como\u00a0Jos\u00e9 Saramago. Voc\u00ea sonha com honrarias maiores? O\u00a0Nobel, talvez?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o penso nisso, n\u00e3o. E, quando penso, penso que \u00e9 imposs\u00edvel.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>ElPa\u00eds<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor mo\u00e7ambicano conversa com o EL PA\u00cdS sobre escrita, pol\u00edtica e o ciclone Idai, que quase destruiu sua cidade natal e demorou a ser notado pelos brasileiros Antes de aprender a ler livros,\u00a0Mia Couto\u00a0(Beira, Mo\u00e7ambique, 1955) aprendeu a ler a terra. 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