{"id":8866,"date":"2019-05-02T09:34:36","date_gmt":"2019-05-02T12:34:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=8866"},"modified":"2019-05-02T09:34:37","modified_gmt":"2019-05-02T12:34:37","slug":"dizer-que-nos-mulheres-indigenas-nao-enfrentamos-violencia-de-genero-e-mentira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/05\/02\/dizer-que-nos-mulheres-indigenas-nao-enfrentamos-violencia-de-genero-e-mentira\/","title":{"rendered":"\u201cDizer que n\u00f3s mulheres ind\u00edgenas n\u00e3o enfrentamos viol\u00eancia de g\u00eanero \u00e9 mentira\u201d"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Porta-voz do movimento das mulheres ind\u00edgenas, Ro\u2019Otsitsina Xavante conta como elas est\u00e3o se organizando para combater o machismo nas aldeias<\/h4>\n\n\n\n<p>Mulheres ind\u00edgenas de todo o pa\u00eds sair\u00e3o em marcha pela primeira vez para chamar a aten\u00e7\u00e3o para quest\u00f5es de g\u00eanero de seus povos. A decis\u00e3o foi tomada durante o\u00a0Acampamento Terra Livre, que terminou na \u00faltima sexta-feira na capital federal. Elas se juntar\u00e3o \u00e0\u00a0Marcha das Margaridas, manifesta\u00e7\u00e3o anual que ocorre todo o m\u00eas de agosto em Bras\u00edlia, liderada por trabalhadoras rurais. \u201cQueremos compor com as Margaridas para mostrar alian\u00e7a\u201d, contou Ro\u2019Otsitsina Xavante, que, na diversidade do movimento de mulheres ind\u00edgenas, \u00e9 uma de suas porta vozes.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o acampamento, as &#8220;parentas&#8221;, como elas chamam umas \u00e0s outras, realizaram uma plen\u00e1ria para debater suas principais demandas. Organizaram-se separadamente por regi\u00e3o do pa\u00eds e levaram, ao final, as pautas que pretendem defender. Temas pertinentes ao movimento ind\u00edgena em geral, como a\u00a0luta pela prote\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios\u00a0e do meio ambiente, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o foram consenso entre as regi\u00f5es e etnias. J\u00e1 a quest\u00e3o da\u00a0viol\u00eancia de g\u00eanero\u00a0\u00e9 uma bandeira que come\u00e7ou a ser fincada, ainda que de maneira mais t\u00edmida. \u201cN\u00f3s mulheres n\u00e3o somos parte do povo, n\u00f3s somos o povo\u201d, afirmou Ro\u2019Otsitsina<strong>.<\/strong>\u00a0\u201cEnt\u00e3o, violando uma menina, violando uma mulher, voc\u00ea est\u00e1 violando o povo\u201d. Confira os principais trechos da entrevista feita durante o acampamento:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta.<\/strong>&nbsp;Essa ser\u00e1 a primeira marcha das mulheres ind\u00edgenas?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resposta.<\/strong>&nbsp;Aqui no Brasil, que eu saiba, nunca teve uma marcha. Mas existem v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es de mulheres ind\u00edgenas. Aqui tem a Associa\u00e7\u00e3o das Guerreiras Ind\u00edgenas de Rond\u00f4nia, tem a Uni\u00e3o das Mulheres Ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia Brasileira, tem o Movimento de Mulheres do Xingu&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;E quais s\u00e3o as quest\u00f5es pertinentes \u00e0s mulheres ind\u00edgenas? O que diferencia o movimento das mulheres do movimento ind\u00edgena de maneira geral?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Algumas organiza\u00e7\u00f5es de mulheres ind\u00edgenas, como a Associa\u00e7\u00e3o das Guerreiras Ind\u00edgenas de Rond\u00f4nia, que eu tenho acompanhado, t\u00eam como pauta n\u00e3o somente o que j\u00e1 tem no movimento misto, entre homens e mulheres, que \u00e9 a\u00a0defesa do territ\u00f3rio,\u00a0o direito \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m as especificidades. Por exemplo, a sa\u00fade da mulher tem muitas particularidades. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mulher na quest\u00e3o do g\u00eanero, mas da mulher desde quando ela \u00e9 menina, passando pela puberdade. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o em comum com o movimento misto, mas dependendo do povo, pode trazer quest\u00f5es espec\u00edficas tamb\u00e9m. Por exemplo, tem povos onde as mulheres casam cedo, com 15, 16 anos. E nem todas permanecem na escola depois que casam. N\u00e3o que seja proibido estudar, mas porque elas n\u00e3o conseguem conciliar o estudo com a casa e a fam\u00edlia. Ent\u00e3o como fazer com que essa jovem mulher ind\u00edgena perceba que ela tem capacidade para fazer tudo? \u00c9 dif\u00edcil, mas \u00e9 o melhor para ela e para a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;Falando sobre casamento de meninas e adolescentes, como conciliar as pautas feministas respeitando os costumes de cada povo?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Para n\u00f3s xavante, por exemplo, o que delimita a idade n\u00e3o \u00e9 a fase de adolesc\u00eancia como est\u00e1 no Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente. Se voc\u00ea chegar na minha comunidade e vir uma menina de 14 anos, voc\u00ea pode achar que ela \u00e9 uma menina, uma adolescente, mas para n\u00f3s ela j\u00e1 \u00e9 uma jovem. A gente se divide por grupos et\u00e1rios, que mudam a cada cinco anos. Ningu\u00e9m vai perguntar quantos anos voc\u00ea tem, mas sim qual o seu grupo et\u00e1rio. Os meninos, por exemplo, quando s\u00e3o crian\u00e7as eles n\u00e3o t\u00eam a orelha furada,\u00a0depois eles ficam em uma casa de reclus\u00e3o\u00a0e \u00e9 quando tem a perfura\u00e7\u00e3o da orelha. Depois disso, n\u00e3o s\u00e3o mais meninos, tampouco adolescentes. S\u00e3o homens. Ent\u00e3o ao menos no meu povo, n\u00e3o temos essa classifica\u00e7\u00e3o de adolescentes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2019\/04\/26\/politica\/1556294406_680039_1556295709_sumario_normal.jpg\" alt=\"Mulheres ind\u00edgenas de v\u00e1rias etnias na plen\u00e1ria do Acampamento Terra Livre.\"\/><figcaption>Mulheres ind\u00edgenas de v\u00e1rias etnias na plen\u00e1ria do Acampamento Terra Livre.&nbsp;L. LANDAU<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;A viol\u00eancia de g\u00eanero \u00e9 uma pauta para as mulheres ind\u00edgenas?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;Sim. Dizer que n\u00f3s mulheres ind\u00edgenas n\u00e3o enfrentamos viol\u00eancia \u00e9 mentira. Sim, existe, s\u00f3 que \u00e0s vezes \u00e9 uma viol\u00eancia velada. \u00c0s vezes camuflada pela pr\u00f3pria mulher, \u00e0s vezes pela fam\u00edlia, ou pela lideran\u00e7a. Alguns povos ou algumas organiza\u00e7\u00f5es de mulheres ind\u00edgenas conseguem debater com mais consci\u00eancia. Mas tem povos onde esse assunto \u00e9 visto como tabu. Uma vez eu escutei uma fala de Elisa Pankararu, uma parente de Pernambuco, e ela falou \u201cviol\u00eancia n\u00e3o foi deixada pelos meus ancestrais. Viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma heran\u00e7a. Isso n\u00e3o pode ser visto como algo normal\u201d. Se isso acontece, a mulher precisa reagir, a fam\u00edlia precisa reagir e aquela comunidade tamb\u00e9m precisa reagir. Elisa, com essa fala, traz \u00e0 tona a quest\u00e3o da responsabilidade. N\u00f3s mulheres n\u00e3o somos parte do povo, n\u00f3s somos o povo. Ent\u00e3o, violando uma menina, violando uma mulher, voc\u00ea est\u00e1 violando o povo. Ou seja, qualquer pessoa que fa\u00e7a mal a mim, que machuque fisicamente ou verbalmente a mim, ou a qualquer mulher, ele est\u00e1 fazendo algo contra o meu povo e a minha cultura.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;Como \u00e9 a discuss\u00e3o sobre o papel da mulher na sociedade ind\u00edgena?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;Eu acredito que \u00e9 preciso falar sobre isso. Mas vejo como um processo. A cultura \u00e9 din\u00e2mica, n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica. Talvez h\u00e1 100, 500 anos, quando n\u00e3o existia o trabalho assalariado, o estudo fora da aldeia, falar sobre isso seria estranho at\u00e9. Mas hoje, n\u00f3s mulheres precisamos ter oportunidades iguais no processo educacional, no conhecimento. Precisamos ter o direito de escolha. Eu tenho 34 anos, n\u00e3o sou casada e n\u00e3o tenho filhos, mas eu tive escolha. Tem meninas que n\u00e3o tem. Mas eu tive escolha n\u00e3o porque eu tive uma personalidade feminina que me inspirasse ou que falasse sobre os meus direitos. Foi por uma personalidade masculina, meu pai. Quando eu tinha 14 anos eu queria namorar, mas meu pai n\u00e3o deixou. Ele disse que eu deveria estudar, trabalhar, ser independente. Ele disse \u201cn\u00e3o quero que voc\u00ea dependa de um homem ou de qualquer pessoa para se vestir, se alimentar. Eu quero a sua independ\u00eancia, pessoal e profissional\u201d. Na \u00e9poca eu achava um absurdo porque todas as minhas irm\u00e3s casaram, namoraram e eu nem podia namorar. Hoje eu percebo que meu pai estava com uma mente muito avan\u00e7ada para a \u00e9poca dele.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;Por isso voc\u00eas convocaram os homens para que participem tamb\u00e9m da marcha? \u00c9 preciso trazer os homens para dentro da discuss\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;Com certeza. Precisa ter o apoio dos homens. N\u00e3o adianta falar de Lei Maria da Penha s\u00f3 entre mulheres se o homem n\u00e3o est\u00e1 escutando. Porque a mulher vai estar empoderada, mas o homem vai dizer a ela que ela quer confront\u00e1-lo. Acredito sim que h\u00e1 momentos em que a uni\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria, mas h\u00e1 momentos em que a gente precisa ficar em um espa\u00e7o de confian\u00e7a s\u00f3 entre mulheres. At\u00e9 para poder se abrir sobre determinados assuntos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;Voc\u00ea disse que n\u00e3o h\u00e1 um movimento de mulheres entre os xavante. Ao mesmo tempo, voc\u00ea est\u00e1 aqui, em cima desse palco, liderando a plen\u00e1ria hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00f3s mulheres n\u00e3o somos parte do povo, n\u00f3s somos o povo. Ent\u00e3o, violando uma menina, violando uma mulher, voc\u00ea est\u00e1 violando o povo&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;H\u00e1 mulheres que se destacam. Eu n\u00e3o me vejo como uma lideran\u00e7a. Me vejo como uma porta-voz. Porque h\u00e1 contextos culturais internos onde para ser l\u00edder \u00e9 preciso passar por alguns processos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;E tem uma quest\u00e3o de hierarquia tamb\u00e9m?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;Sim. E querendo ou n\u00e3o, tem a ver com uma quest\u00e3o familiar, de casar e ter filhos. E eu n\u00e3o quero ir para o confronto cultural por conta disso. Pelo contr\u00e1rio, cada um tem seu tempo. Eu vivo em dois mundos, o branco e o tradicional. E a gente que vive esse mundo mais para fora, acaba percebendo algumas coisas mais r\u00e1pido do que quem est\u00e1 o ano todo diretamente na aldeia. Eu preciso ent\u00e3o respeitar o tempo do outro, n\u00e3o posso chegar impondo. Por isso n\u00e3o me vejo como uma lideran\u00e7a de fato. Para mim, uma lideran\u00e7a feminina do meu povo \u00e9 aquela que det\u00e9m todo o conhecimento familiar de maneira geral, al\u00e9m do conhecimento pol\u00edtico e estrat\u00e9gico. Eu tenho esse lado mais pol\u00edtico, mas n\u00e3o tenho esse lado mais interno e familiar. Por isso me considero uma porta-voz para aquelas que n\u00e3o falam portugu\u00eas. Quando eu chego na aldeia, elas perguntam o que est\u00e1 acontecendo na cidade. A\u00ed eu digo: vamos comigo na pr\u00f3xima reuni\u00e3o. E elas dizem \u201cah, eu n\u00e3o quero. Mas quando voc\u00ea chegar, me conta?\u201d. Ent\u00e3o eu n\u00e3o posso chegar e obrigar, dizer que tem que ir, tem que participar. Ela quer ter informa\u00e7\u00e3o, quer saber o que est\u00e1 acontecendo, mas n\u00e3o quer estar participando direto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Uma das principais bandeiras do movimento feminista em todo o mundo \u00e9 pela descriminaliza\u00e7\u00e3o do\u00a0aborto. A realidade das mulheres ind\u00edgenas sobre esse tema \u00e9 diferente, claro, mas voc\u00eas chegam a discutir isso?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;Pelo que eu tenho acompanhado, n\u00e3o chega a ser uma pauta priorit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;Mas chega a ser debatido?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>&nbsp;Pelo que eu tenho vivido, deve acontecer, mas n\u00e3o \u00e9 exposto. N\u00e3o chega nem a ser uma pauta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.<\/strong>&nbsp;Al\u00e9m de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia de g\u00eanero, o que mais \u00e9 pauta do movimento feminista ind\u00edgena?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Acredito que a quest\u00e3o territorial. A gente s\u00f3 vai conseguir ter educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade se a gente tiver o nosso territ\u00f3rio e se tiver a sustentabilidade desse territ\u00f3rio. N\u00e3o adianta ter o territ\u00f3rio demarcado se a gente n\u00e3o tiver seguran\u00e7a para viver nele.<\/p>\n\n\n\n<p>El Pais<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porta-voz do movimento das mulheres ind\u00edgenas, Ro\u2019Otsitsina Xavante conta como elas est\u00e3o se organizando para combater o machismo nas aldeias Mulheres ind\u00edgenas de todo o pa\u00eds sair\u00e3o em marcha pela primeira vez para chamar a aten\u00e7\u00e3o para quest\u00f5es de g\u00eanero de seus povos. 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