{"id":82193,"date":"2026-09-22T09:36:35","date_gmt":"2026-09-22T12:36:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=82193"},"modified":"2026-09-22T09:36:37","modified_gmt":"2026-09-22T12:36:37","slug":"porto-de-cima-cultural-encerra-seis-meses-de-formacao-e-valorizacao-da-memoria-de-morretes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2026\/09\/22\/porto-de-cima-cultural-encerra-seis-meses-de-formacao-e-valorizacao-da-memoria-de-morretes\/","title":{"rendered":"Porto de Cima Cultural encerra seis meses de forma\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria de Morretes"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Projeto gratuito impactou cerca de 330 pessoas com oficinas para diferentes gera\u00e7\u00f5es, a\u00e7\u00f5es educativas e registros da presen\u00e7a negra e ind\u00edgena no territ\u00f3rio<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Durante seis meses, moradores de diferentes gera\u00e7\u00f5es de Porto de Cima, em Morretes, compartilharam conhecimentos, aprenderam novas linguagens e voltaram o olhar para as hist\u00f3rias do pr\u00f3prio territ\u00f3rio. Realizado entre fevereiro e agosto de 2026, o projeto Porto de Cima Cultural impactou cerca de 330 pessoas por meio de dez oficinas culturais semanais gratuitas destinadas a crian\u00e7as, adolescentes, jovens e adultos, al\u00e9m de a\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 mem\u00f3ria, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o antirracista e \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o das culturas negra e ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira edi\u00e7\u00e3o foi encerrada durante o Festival Marumbi, realizado nos dias 22 e 23 de agosto, na pra\u00e7a de Porto de Cima. A programa\u00e7\u00e3o reuniu apresenta\u00e7\u00f5es, exposi\u00e7\u00f5es, roda de conversa e uma mostra dos resultados constru\u00eddos pelos participantes ao longo dos seis meses.<\/p>\n\n\n\n<p>As atividades regulares envolveram teatro, breaking, desenho, m\u00fasica, constru\u00e7\u00e3o de instrumentos percussivos com materiais alternativos, educa\u00e7\u00e3o ambiental, turismo de base comunit\u00e1ria, produ\u00e7\u00e3o de eventos e L\u00edngua Brasileira de Sinais (Libras). Cada oficina contou com 24 encontros, realizados no Barrac\u00e3o S\u00e3o Sebasti\u00e3o, espa\u00e7o com acessibilidade arquitet\u00f4nica e comunica\u00e7\u00e3o inclusiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Produtora executiva e professora de teatro do projeto, Kamylla Paola dos Santos destaca que a proposta foi pensada para ir al\u00e9m do acesso \u00e0s atividades culturais. \u201cAs atividades foram pensadas n\u00e3o apenas para o desenvolvimento cultural, mas tamb\u00e9m como ferramentas que podem contribuir para a gera\u00e7\u00e3o de renda dentro da pr\u00f3pria comunidade\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ela, outro eixo fundamental foi reconhecer e dar visibilidade \u00e0s ra\u00edzes do territ\u00f3rio. \u201cOutro foco muito importante do projeto foi trazer luz \u00e0 presen\u00e7a negra e ind\u00edgena no Porto de Cima. Este \u00e9 um territ\u00f3rio marcadamente negro e ind\u00edgena, mas ainda se fala e se escreve muito pouco sobre essa hist\u00f3ria. Ent\u00e3o, buscamos tamb\u00e9m afirmar essa presen\u00e7a e lev\u00e1-la para dentro das escolas\u201d, afirma Kamylla.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mem\u00f3ria que permanece no territ\u00f3rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A valoriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria local esteve presente tanto nas oficinas quanto nos registros produzidos pelo projeto. Moradores foram convidados a compartilhar hist\u00f3rias familiares, saberes tradicionais e suas rela\u00e7\u00f5es com Porto de Cima e com a regi\u00e3o de Morretes.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre eles est\u00e1 Alvina dos Santos Souza, cuja trajet\u00f3ria familiar est\u00e1 ligada \u00e0 agricultura e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o artesanal de farinha de mandioca. A pr\u00e1tica atravessa gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEssa hist\u00f3ria vem do tempo da minha av\u00f3. Ela fazia farinha e n\u00f3s particip\u00e1vamos com ela, porque a fam\u00edlia toda trabalhava na ro\u00e7a. Depois que a minha av\u00f3 faleceu, eu continuei trabalhando na ro\u00e7a e fazendo farinha. Desde que eu nasci, aquela f\u00e1brica j\u00e1 existia, ent\u00e3o isso faz parte da hist\u00f3ria da minha fam\u00edlia e da minha vida\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Alvina, ver essa mem\u00f3ria registrada e compartilhada com outras pessoas deu uma nova dimens\u00e3o a uma hist\u00f3ria que, at\u00e9 ent\u00e3o, permanecia principalmente dentro da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO projeto Porto de Cima Cultural resgatou essa hist\u00f3ria. Eles foram at\u00e9 l\u00e1, fizeram as grava\u00e7\u00f5es e agora est\u00e3o mostrando para todo mundo, para que mais pessoas possam conhecer\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>O conhecimento sobre o territ\u00f3rio tamb\u00e9m ganhou novas possibilidades a partir das atividades de turismo de base comunit\u00e1ria. Gilberto dos Santos Gon\u00e7alves, o Giba, morador da regi\u00e3o e conhecedor das trilhas e montanhas de Morretes, conta que o curso acrescentou informa\u00e7\u00f5es que pretende compartilhar com outras pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAprendi bastante coisa que eu n\u00e3o sabia, principalmente hist\u00f3rias antigas, do tempo da minha av\u00f3 e do meu av\u00f4. Foi muito conhecimento sobre a nossa regi\u00e3o, a nossa cultura e o nosso territ\u00f3rio. Tudo isso que eu aprendi aqui, vou passar para frente, para as outras pessoas que vierem conhecer esses lugares\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um \u201ctesouro\u201d descoberto pela comunidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para Cristiane da Silva, moradora de Porto de Cima, a dimens\u00e3o do projeto tamb\u00e9m foi sendo descoberta ao longo dos seis meses. Ela participou das oficinas de Libras, educa\u00e7\u00e3o ambiental, desenho e turismo de base comunit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi justamente esta \u00faltima, sobre a qual inicialmente sabia pouco, que acabou se tornando uma de suas experi\u00eancias mais marcantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo come\u00e7o, eu nem sabia direito o que seria o turismo de base comunit\u00e1ria. Acabei me inscrevendo e foi justamente a oficina que eu mais amei. Foi quando come\u00e7amos a trabalhar com as mem\u00f3rias, a resgatar hist\u00f3rias de Porto de Cima, fotos antigas e coisas que j\u00e1 n\u00e3o estavam sendo contadas. Isso era algo que eu sempre quis fazer\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Cristiane relata que se emocionou em diferentes momentos ao entrar em contato com hist\u00f3rias e fotografias antigas da comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPorto de Cima \u00e9 o meu para\u00edso, \u00e9 o meu mundo. Ent\u00e3o, tudo o que chega aqui para melhorar o lugar, incentivar as pessoas e movimentar a comunidade, eu quero participar. A gente precisa de mais projetos assim\u201d, afirma. \u201cPara mim, o projeto foi como um tesouro escondido que foi sendo descoberto aos poucos\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Forma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m chegou \u00e0s escolas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das oficinas regulares, o Porto de Cima Cultural promoveu a\u00e7\u00f5es direcionadas \u00e0 rede p\u00fablica de ensino de Morretes. A programa\u00e7\u00e3o incluiu encontros de Letramento Racial para Educadores, com discuss\u00f5es sobre pr\u00e1ticas antirracistas no cotidiano pedag\u00f3gico e a aplica\u00e7\u00e3o das Leis n\u00ba 10.639\/2003 e n\u00ba 11.645\/2008, que estabelecem a obrigatoriedade do ensino da hist\u00f3ria e cultura afro-brasileira e ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>Como contrapartida social, o projeto tamb\u00e9m promoveu sess\u00f5es gratuitas de conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias afro-ind\u00edgenas nas escolas do bairro, com acessibilidade em Libras.<\/p>\n\n\n\n<p>O artista, historiador e pesquisador Marcel Mal\u00ea trabalhou hist\u00f3rias relacionadas a personalidades de Porto de Cima. A cacique Mby\u00e1-Guarani Juliana Kerexu tamb\u00e9m participou das a\u00e7\u00f5es, refor\u00e7ando a presen\u00e7a e a mem\u00f3ria ind\u00edgena em um territ\u00f3rio historicamente relacionado aos povos Guarani.<\/p>\n\n\n\n<p>As atividades dialogaram com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e buscaram aproximar cultura, mem\u00f3ria, identidade e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Libras a partir das viv\u00eancias da comunidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma das forma\u00e7\u00f5es realizadas ao longo dos seis meses foi a oficina de Libras, conduzida pelo professor Nathan Sales. As aulas partiram dos interesses e das experi\u00eancias dos pr\u00f3prios participantes para aproximar o aprendizado da l\u00edngua do cotidiano da comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCada turma nova tamb\u00e9m representa uma oportunidade de aprendizado. S\u00e3o pessoas diferentes, outras perspectivas e perguntas que muitas vezes nos levam a pesquisar e aprender coisas novas. Ent\u00e3o, estar aqui foi uma troca muito rica\u201d, conta Nathan.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final da forma\u00e7\u00e3o, segundo o professor, os participantes j\u00e1 conseguiam estabelecer formas b\u00e1sicas de comunica\u00e7\u00e3o em Libras e demonstravam interesse em continuar aprendendo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFico muito feliz e orgulhoso em ver o resultado. Ao final do curso, os alunos j\u00e1 conseguiam se comunicar em Libras, construir di\u00e1logos b\u00e1sicos e, principalmente, demonstraram muito interesse pela l\u00edngua\u201d, destaca.<\/p>\n\n\n\n<p>A conclus\u00e3o da oficina resultou em um v\u00eddeo constru\u00eddo pelos pr\u00f3prios alunos. Primeiro, a hist\u00f3ria foi roteirizada em Libras e, posteriormente, traduzida para o portugu\u00eas. O conte\u00fado partiu das viv\u00eancias, mem\u00f3rias e rela\u00e7\u00f5es dos participantes com Porto de Cima.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO resultado foi uma hist\u00f3ria muito bonita, criada e apresentada em Libras pelos pr\u00f3prios alunos. Fico muito emocionado e feliz por ter participado desse projeto e por acompanhar tudo o que eles conseguiram construir ao longo desse per\u00edodo\u201d, afirma Nathan.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Novos ritmos e novas experi\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre as atividades voltadas \u00e0s crian\u00e7as esteve a forma\u00e7\u00e3o musical que resultou no Lata Afro Groove, bloco criado a partir da oficina de constru\u00e7\u00e3o de instrumentos percussivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ayele Por\u00e3 Poty participou das atividades e da apresenta\u00e7\u00e3o realizada no encerramento. Para ela, os meses de aprendizado significaram tamb\u00e9m o contato com novos ritmos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu gostei muito de participar das oficinas e do bloco afro. Foi bem legal e divertido. Eu aprendi muitos ritmos diferentes. O que eu mais gostei foi de aprender a m\u00fasica junto com o ritmo\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o do Lata Afro Groove foi uma das atra\u00e7\u00f5es da mostra de encerramento do Porto de Cima Cultural. A programa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m apresentou o v\u00eddeo produzido pela turma de Libras e trabalhos desenvolvidos nas oficinas de desenho e turismo de base comunit\u00e1ria, al\u00e9m de promover uma roda de conversa com moradores e participantes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Registros para al\u00e9m dos seis meses<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Parte do trabalho desenvolvido permanece como registro da hist\u00f3ria e das experi\u00eancias reunidas ao longo da primeira edi\u00e7\u00e3o. A equipe produziu v\u00eddeos documentais sobre o processo e um cat\u00e1logo digital dedicado a espa\u00e7os e personalidades negras e ind\u00edgenas de Porto de Cima e de outras regi\u00f5es de Morretes.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Kamylla, o encerramento representa tanto a conclus\u00e3o de uma etapa quanto a expectativa de continuidade das a\u00e7\u00f5es culturais constru\u00eddas junto \u00e0 comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQueremos voltar com novas a\u00e7\u00f5es e novos projetos, cada vez mais constru\u00eddos com a participa\u00e7\u00e3o das pessoas que vivem no Porto de Cima, inclusive na escolha das oficinas e das atividades que fa\u00e7am sentido para a comunidade\u201d, conclui.<\/p>\n\n\n\n<p>O Porto de Cima Cultural foi aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura do Paran\u00e1, com recursos da Pol\u00edtica Nacional Aldir Blanc de Fomento \u00e0 Cultura, do Minist\u00e9rio da Cultura \u2013 Governo Federal, por meio do Edital Viva Cultura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Projeto gratuito impactou cerca de 330 pessoas com oficinas para diferentes gera\u00e7\u00f5es, a\u00e7\u00f5es educativas e registros da presen\u00e7a negra e ind\u00edgena no territ\u00f3rio Durante seis meses, moradores de diferentes gera\u00e7\u00f5es de Porto de Cima, em Morretes, compartilharam conhecimentos, aprenderam novas linguagens e voltaram o olhar para as hist\u00f3rias do pr\u00f3prio territ\u00f3rio. 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