{"id":70249,"date":"2025-07-11T11:48:40","date_gmt":"2025-07-11T14:48:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=70249"},"modified":"2025-07-11T11:48:42","modified_gmt":"2025-07-11T14:48:42","slug":"voce-confiaria-em-uma-inteligencia-artificial-ia-para-tomar-decisoes-por-voce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2025\/07\/11\/voce-confiaria-em-uma-inteligencia-artificial-ia-para-tomar-decisoes-por-voce\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea confiaria em uma Intelig\u00eancia Artificial (IA) para tomar decis\u00f5es por voc\u00ea?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Paulo Almeida, professor da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) e pesquisador do Centro de Computa\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e Software Livre (C3SL)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Cada vez mais pessoas fazem isso \u2013 mesmo que essas IAs n\u00e3o saibam pensar de verdade. As IAs atuais, como o ChatGPT ou o Google Gemini, n\u00e3o t\u00eam racioc\u00ednio. Grosso modo, elas reproduzem padr\u00f5es aprendidos durante seu treinamento com textos e outros conte\u00fados. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar exemplos de erros l\u00f3gicos cometidos por essas ferramentas.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que, no futuro, as IAs ser\u00e3o capazes de raciocinar. Quando isso acontecer, seja hoje, seja daqui a mil anos, elas poder\u00e3o superar a intelig\u00eancia humana. Mas n\u00e3o \u00e9 isso que quero discutir.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o avan\u00e7o das IAs, muitas pessoas passaram a confiar nelas como fonte principal de informa\u00e7\u00e3o. Isso, como aconteceu com a internet, tem seu lado positivo: acesso r\u00e1pido ao conhecimento e pouco esfor\u00e7o para pesquisa. No entanto, o excesso de confian\u00e7a pode levar as pessoas a sempre acreditarem nas respostas das IAs, mesmo que a resposta seja absurda. Essa confian\u00e7a cega pode nos levar \u00e0 perda do senso cr\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais grave ainda \u00e9 a tend\u00eancia de delegar nosso racioc\u00ednio \u00e0 IA. Delegar nossas capacidades para m\u00e1quinas \u00e9 comum, e j\u00e1 fizemos isso diversas vezes no passado. Diferente de meus pais, por exemplo, o \u00fanico n\u00famero de telefone que sei de cabe\u00e7a \u00e9 o meu, e n\u00e3o sou nem de longe capaz de navegar por Curitiba, onde vivo h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, sem o aux\u00edlio de um GPS. Automatizar tarefas e liberar nossa mem\u00f3ria de itens triviais como n\u00fameros de telefone nos permitiu focar em atividades mais humanas, como sermos criativos e resolver problemas. Mas e quando come\u00e7amos a entregar justamente essas tarefas humanas \u00e0s m\u00e1quinas?<\/p>\n\n\n\n<p>Sou professor de Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o, e vejo isso com frequ\u00eancia crescente. Alunos usam IA para resolver exerc\u00edcios de programa\u00e7\u00e3o que deveriam resolver sozinhos. Quando chegam \u00e0s provas, sem a IA para ajudar, o resultado \u00e9 desastroso. Tamb\u00e9m \u00e9 comum ver os chamados \u201cengenheiros de prompt\u201d, que muitas vezes gastam mais tempo tentando engenhar a pergunta correta para a IA do que realmente tentando resolver o problema. Muitas vezes, resolveriam mais r\u00e1pido, e aprenderiam mais, se apenas tentassem resolver os problemas por si mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p>Gosto de pensar que nosso c\u00e9rebro \u00e9 como um m\u00fasculo, que precisa de esfor\u00e7o para se manter forte. Se n\u00e3o o utilizarmos e o desafiarmos diariamente, ele definha. A IA pode ser uma ferramenta poderosa para aumentar nossa produtividade e criatividade. Mas, se depender dela significar abrir m\u00e3o daquilo que nos torna humanos, corremos o risco de nos tornarmos dependentes e intelectualmente atrofiados.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso pode ainda ampliar desigualdades. Imagine um mundo dist\u00f3pico em que a maioria depende da IA at\u00e9 para tarefas simples, enquanto uma minoria domina a tecnologia e concentra poder. Em um cen\u00e1rio assim, muitos podem ser considerados substitu\u00edveis no mercado de trabalho, ou podem sequer ter espa\u00e7o nesse mercado. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que se discute cada vez mais a ideia de uma renda b\u00e1sica universal.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o futuro pode ser brilhante. Imagine pedirmos para uma super IA que ela nos ensine como Carl Sagan, Richard Dawkinsou, ou como qualquer outro cientista de nossa prefer\u00eancia nos ensinaria. Ter\u00edamos um super professor particular, que, al\u00e9m de ter muito conhecimento, pode se adaptar \u00e0s nossas dificuldades. Poder\u00edamos aprender como nunca antes. A quest\u00e3o \u00e9 se n\u00f3s vamos utilizar a IA para nos aprimorar ou se teremos um super professor sem alunos para lecionar, porque estaremos muito ocupados gastando horas e horas vendo feeds de v\u00eddeos de cinco segundos gerados por IA.<\/p>\n\n\n\n<p>A li\u00e7\u00e3o que fica \u00e9 que pensar, criar e aprender exigem esfor\u00e7o. Mas abandonar esse esfor\u00e7o, delegando essas tarefas para m\u00e1quinas, \u00e9 abandonar nossa humanidade e abra\u00e7ar um futuro de mediocridade, onde n\u00e3o seremos mais o motor do nosso pr\u00f3prio progresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Assessoria<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Almeida, professor da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) e pesquisador do Centro de Computa\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e Software Livre (C3SL) Cada vez mais pessoas fazem isso \u2013 mesmo que essas IAs n\u00e3o saibam pensar de verdade. 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