{"id":6772,"date":"2019-04-16T14:56:38","date_gmt":"2019-04-16T17:56:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=6772"},"modified":"2019-04-16T14:56:41","modified_gmt":"2019-04-16T17:56:41","slug":"o-que-e-candida-auris-o-perigoso-fungo-resistente-a-medicamentos-que-se-espalha-pelo-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/04\/16\/o-que-e-candida-auris-o-perigoso-fungo-resistente-a-medicamentos-que-se-espalha-pelo-mundo\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 Candida auris, o perigoso fungo resistente a medicamentos que se espalha pelo mundo"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 2015, a especialista em doen\u00e7as infecciosas Johanna Rhodes, do Imperial College London, recebeu uma chamada de emerg\u00eancia de um hospital nos arredores de Londres.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois pacientes tinham uma infec\u00e7\u00e3o que parecia resistente a rem\u00e9dios e estava se espalhando pelo hospital sem que ningu\u00e9m entendesse como.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;At\u00e9 aquele momento a comunidade cient\u00edfica praticamente n\u00e3o havia ouvido falar do&nbsp;<em>Candida auris<\/em>&#8220;, conta Rhodes \u00e0 BBC News Mundo, o servi\u00e7o em espanhol da BBC.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No hospital havia dois pacientes infectados com o micro-organismo, mas n\u00e3o parecia algo muito s\u00e9rio, at\u00e9 que perceberam que o fungo havia se espalhado pelas paredes, pelos m\u00f3veis e por toda superf\u00edcie do local&#8221;, diz ela.<\/p>\n\n\n\n<p>O fungo era muito dif\u00edcil de identificar porque ningu\u00e9m sabia direito o que estava procurando. &#8220;Me chamaram para que os ajudasse a entender como e por que ele estava se espalhando&#8221;, diz Rhodes.<\/p>\n\n\n\n<p>O fungo n\u00e3o estava se espalhando apenas pelo hospital de Londres, mas pelo mundo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15CEF\/production\/_106372398_fungus.jpg\" alt=\"Candida auris\"\/><figcaption>Image captionO Candida auris \u00e9 um fungo que cresce como levedura<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que \u00e9 o Candida auris<\/h2>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<em>Candida auris<\/em>&nbsp;\u00e9 uma esp\u00e9cie de fungo que cresce como levedura e foi identificado pela primeira vez h\u00e1 uma d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o sabemos qual a sua origem, mas ele foi descrito pela primeira vez em 2009, ao ser isolado ap\u00f3s ter sido encontrado no canal auditivo de um paciente na Coreia do Sul&#8221;, explica a especialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns anos mais tarde, ele apareceu no Jap\u00e3o e come\u00e7aram a surgir surtos na \u00cdndia, na \u00c1frica do Sul, na Venezuela, na Col\u00f4mbia, nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Espanha.<\/p>\n\n\n\n<p>O nome do micro-organismo \u00e9 parecido com o fungo&nbsp;<em>Candida albicans<\/em>, um dos principais causadores de candid\u00edase, pois ambos s\u00e3o do mesmo g\u00eanero (Candida) mas s\u00e3o esp\u00e9cies bem diferentes. A candid\u00edase por&nbsp;<em>C. albicans<\/em>&nbsp;\u00e9 uma doen\u00e7a comum que pode afetar a pele, as unhas e \u00f3rg\u00e3os genitais, e \u00e9 f\u00e1cil de tratar.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a infec\u00e7\u00e3o pelo<em>&nbsp;Candida auris<\/em>&nbsp;\u00e9 resistente a medicamentos e pode ser fatal, explica \u00e0 BBC Brasil o infecctologista Alberto Colombo, professor da Unifesp e especialista em contamina\u00e7\u00e3o com fungos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o infectologista, \u00e9 poss\u00edvel ser colonizado de forma passageira pelo&nbsp;<em>C. auris&nbsp;<\/em>na pele ou na mucosa sem ter problemas. O fungo apresenta risco real se contaminar a corrente sangu\u00ednea.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a pessoa ser infectada, \u00e9 preciso que tenha sofrido procedimentos invasivos (como cirurgias, uso de cat\u00e9ter venoso central) ou tenha o sistema imunol\u00f3gico comprometido. Pacientes internados em unidades de terapia intensiva por longos per\u00edodos e com uso pr\u00e9vio de antibi\u00f3ticos ou antif\u00fangicos tamb\u00e9m s\u00e3o considerados grupo de risco para a contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas pesquisas apontam um \u00edndice de mortalidade de 59% para infec\u00e7\u00f5es com&nbsp;<em>C. auris<\/em>, segundo o m\u00e9dico Andr\u00e9 M\u00e1rio Doi, patologista do setor de microbiologia do Hospital Albert Einstein e autor de estudos sobre a esp\u00e9cie.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E085\/production\/_106377475_hospital.jpg\" alt=\"Hospital\"\/><figcaption>Image captionAs infec\u00e7\u00f5es resistentes a medicamentos preocupam a comunidade m\u00e9dica<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um fungo resistente<\/h2>\n\n\n\n<p>Janiel Nett, professora assistente do Departamento de Medicina e Microbiologia M\u00e9dica e Imunol\u00f3gica da Universidade de Winsconsin, nos EUA, disse \u00e0 BBC Mundo que diferentes variantes do fungo come\u00e7aram a aparecer em quatro continentes ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Uma apari\u00e7\u00e3o assim simult\u00e2nea n\u00e3o tem precedente&#8221;, afirma Rhodes, do Imperial College, de Londres. &#8220;E o que mais nos preocupa \u00e9 que todas as variantes mostraram uma forte resist\u00eancia aos rem\u00e9dios.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Colombo explica que isso \u00e9 resultado do processo evolutivo do fungo. &#8220;O&nbsp;<em>Candida auris<\/em>&nbsp;sofreu um processo de especializa\u00e7\u00e3o. Nasceu em uma \u00e9poca em que h\u00e1 muito uso de subst\u00e2ncias antimicrobianas, muitos antif\u00fangicos, e nesse ambiente de press\u00e3o seletiva a esp\u00e9cie se torna resistente&#8221;, explica o infectologista da Unifesp.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo \u00e9 bem parecido com o de surgimento de bact\u00e9rias resistentes a antibi\u00f3ticos. Os antif\u00fangicos matam quase todos os fungos, mas alguns sobrevivem \u2013 justamente os que possuem muta\u00e7\u00f5es que os tornam resistentes ao veneno. Estes se reproduzem, e as gera\u00e7\u00f5es seguintes herdam os genes que tornaram os antepassados resistentes. A esp\u00e9cie vai, assim, se tornando cada vez mais resistente a medicamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nett explica que mais de 90% das infec\u00e7\u00f5es causadas pelo<em>&nbsp;C. auris&nbsp;<\/em>s\u00e3o resistentes ao menos a um medicamento, enquanto 30% s\u00e3o resistentes a dois ou mais rem\u00e9dios.<\/p>\n\n\n\n<p>O hospital em Londres onde Rhodes identificou o fungo em 2015 acabou conseguindo erradic\u00e1-lo, mas n\u00e3o foi f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das principais &#8220;habilidades&#8221; adquiridas pelo&nbsp;<em>C. auris<\/em>&nbsp;\u00e9 a de persistir no ambiente inanimado, ou seja, ficar vivo fora do corpo humano. &#8220;Ele contamina o ambiente hospitalar e fica vivo por semanas&#8221;, diz Colombo.<\/p>\n\n\n\n<p>O fungo tamb\u00e9m consegue sobreviver na boca e na pele de pessoas que j\u00e1 foram tratadas: a pessoa \u00e9 curada da infec\u00e7\u00e3o na corrente sangu\u00ednea, mas o fungo sobrevive superficialmente por dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Anvisa, o modo exato de transmiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 conhecido. &#8220;Evid\u00eancias iniciais sugerem que o organismo pode se disseminar em ambientes m\u00e9dicos por contato com superf\u00edcies ou equipamentos contaminados, ou de pessoa para pessoa&#8221;, afirma a ag\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a experi\u00eancia durante os surtos registrados aponta que o fungo pode &#8220;contaminar substancialmente o ambiente de quartos de doentes colonizados ou infectados.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A transmiss\u00e3o diretamente de artigos e equipamentos de assist\u00eancia ao paciente (tais como estetosc\u00f3pios, term\u00f4metros, esfigmoman\u00f4metros, entre outros) \u00e9 um risco particular, por\u00e9m isso n\u00e3o impede a transmiss\u00e3o atrav\u00e9s das m\u00e3os dos profissionais de sa\u00fade e as necessidades de higiene das m\u00e3os devem ser rigorosamente respeitadas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos tiveram um total de 537 casos de&nbsp;<em>Candida auris,<\/em>&nbsp;a maioria em hospitais. Segundo o CDC (Centro de Controle de Doen\u00e7as dos EUA), quase metade dos pacientes que contra\u00edram o fungo morreram em noventa dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o fungo seja um potencial problema de sa\u00fade p\u00fablica, Rhodes diz que as pessoas n\u00e3o devem se preocupar em excesso.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Chegando perto<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 2017, a Anvisa (Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria) emitiu um\u00a0comunicado de risco relatando surtos de C. auris\u00a0em servi\u00e7os de sa\u00fade da Am\u00e9rica Latina, descrevendo o fungo como uma amea\u00e7a \u00e0 sa\u00fade global.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Anvisa, o primeiro surto na Am\u00e9rica Latina foi detectado em Maracaibo, na Venezuela, em 2013, afetando 18 pacientes &#8211; 13 deles beb\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds teve outros casos, alguns que n\u00e3o chegaram a ser oficialmente registrados, segundo Jaime Torres, chefe da se\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as infecciosas do Instituto de Medicina Tropical da Universidade Central da Venezuela.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o creio que vamos ter uma epidemia de&nbsp;<em>C. auris&nbsp;<\/em>na Venezuela, mas cremos que ele pode causar infec\u00e7\u00e3o em pacientes que j\u00e1 est\u00e3o doentes&#8221;, disse Torres \u00e0 BBC Mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existe nenhum caso confirmado de infec\u00e7\u00e3o no Brasil at\u00e9 agora. Mas como o fungo \u00e9 dif\u00edcil de identificar, isso n\u00e3o quer dizer que ele n\u00e3o tenha entrado no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Com a globaliza\u00e7\u00e3o e o fato da doen\u00e7a sobreviver muito tempo em superf\u00edcies inanimadas, o risco da doen\u00e7a chegar ao Brasil \u00e9 grande&#8221;, alerta Alberto Colombo.<\/p>\n\n\n\n<p>E a maioria dos laborat\u00f3rios do pa\u00eds \u2013 e do continente \u2013 n\u00e3o est\u00e1 preparada para identific\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Temos um sistema de vigil\u00e2ncia muito preparado para detectar surtos de bact\u00e9rias e v\u00edrus, mas n\u00e3o temos o mesmo sistema para detec\u00e7\u00e3o de fungos&#8221;, afirma Colombo. &#8220;O sistema de sa\u00fade, tanto p\u00fablico quanto privado, com raras exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de identificar corretamente o fungo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pesquisa publicada em 2017 por Alessandro Pasqualotto, da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia de Porto Alegre, analisou 130 laborat\u00f3rios de centros m\u00e9dicos de refer\u00eancia na Am\u00e9rica Latina e descobriu que s\u00f3 10% deles t\u00eam capacidade de detec\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as invasivas de fungos de acordo com padr\u00f5es europeus.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Anvisa, o surto em 2016 em Cartagena, na Col\u00f4mbia, \u00e9 um exemplo de como o micro-organismo \u00e9 dif\u00edcil de identificar. Cinco casos de infec\u00e7\u00e3o foram identificados como tr\u00eas fungos diferentes at\u00e9 um m\u00e9todo mais moderno de an\u00e1lise diagnosticar o pat\u00f3geno corretamente como&nbsp;<em>C. auris<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 por isso que a Anvisa recomenda que, em caso de d\u00favida, as amostras sejam enviadas para os laborat\u00f3rios de refer\u00eancia&#8221;, diz o patologista Andr\u00e9 M\u00e1rio Doi.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente a maioria dos hospitais e laborat\u00f3rios aptos a fazer o diagn\u00f3stico est\u00e1 na regi\u00e3o sudeste, mas a Unifesp fez uma parceria com o Hospital Universit\u00e1rio de Roraima para fazer uma vigil\u00e2ncia da poss\u00edvel entrada do fungo no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 preciso discutir a norma t\u00e9cnica da Anvisa para que o sistema de sa\u00fade esteja preparado, e criar um sistema de vigil\u00e2ncia, pelo menos nos hospitais-sentinela \u2013 os que s\u00e3o refer\u00eancia em cada regi\u00e3o&#8221;, diz Colombo.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2015, a especialista em doen\u00e7as infecciosas Johanna Rhodes, do Imperial College London, recebeu uma chamada de emerg\u00eancia de um hospital nos arredores de Londres. 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