{"id":49848,"date":"2023-06-09T08:35:06","date_gmt":"2023-06-09T11:35:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=49848"},"modified":"2023-06-09T08:35:07","modified_gmt":"2023-06-09T11:35:07","slug":"o-peso-sobre-a-geracao-sanduiche-que-cuida-ao-mesmo-tempo-de-pais-idosos-filhos-e-netos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2023\/06\/09\/o-peso-sobre-a-geracao-sanduiche-que-cuida-ao-mesmo-tempo-de-pais-idosos-filhos-e-netos\/","title":{"rendered":"O peso sobre a &#8216;gera\u00e7\u00e3o sandu\u00edche&#8217;, que cuida ao mesmo tempo de pais idosos, filhos e netos"},"content":{"rendered":"\n<p>Faz dez anos que a paranaense Lady Daiane de Vargas Flores cuida em tempo integral da m\u00e3e, que sofre de dem\u00eancia. Dona Maria Joana tem 68 anos e j\u00e1 n\u00e3o fala, n\u00e3o anda nem se alimenta sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEla virou um beb\u00ea total\u201d, explica Daiane, 39 anos, \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>A pior fase da doen\u00e7a de dona Maria Joana aconteceu justamente quando Daiane estava, ela pr\u00f3pria, prestes a virar m\u00e3e \u2014 gr\u00e1vida de um menino que hoje tem 7 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando voc\u00ea vai ganhar um beb\u00ea, quer que a sua m\u00e3e esteja ao seu lado. Mas, comigo, o que aconteceu \u00e9 que virei \u00f3rf\u00e3 de m\u00e3e e passei a ter uma filha a mais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Daiane n\u00e3o est\u00e1 sozinha no desafio de cuidar simultaneamente de duas gera\u00e7\u00f5es: mudan\u00e7as demogr\u00e1ficas e sociais em curso no mundo inteiro tornam cada vez mais comum que fam\u00edlias, em especial mulheres, sejam \u201cprensadas\u201d, ao mesmo tempo, pelas demandas tanto de pais idosos que necessitam de cuidado quanto de filhos \u2014 ou mesmo netos \u2014 que tamb\u00e9m requerem aten\u00e7\u00e3o constante e sustento financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O nome dado a isso, internacionalmente, \u00e9 o de \u201cgera\u00e7\u00e3o sandu\u00edche\u201d \u2014 que ganha contornos ainda mais complexos no Brasil (veja mais detalhes abaixo na reportagem).<\/p>\n\n\n\n<p>Nos Estados Unidos, por exemplo, uma pesquisa do centro Pew estimou que quase um em cada quatro adultos americanos potencialmente se encaixa nessa defini\u00e7\u00e3o \u2014 ou seja, tem responsabilidades tanto com pais idosos com mais de 65 anos quanto com filhos menores de idade (ou maiores de 18 anos, mas ainda financeiramente dependentes).<\/p>\n\n\n\n<p>A faixa et\u00e1ria mais propensa a ser \u201censanduichada\u201d \u00e9 a dos 40 anos: mais da metade (54%) dos americanos nessa idade tem pais e filhos que possivelmente demandam cuidados ou ajuda financeira.N\u00e3o h\u00e1 estat\u00edsticas precisas sobre o fen\u00f4meno no Brasil, segundo especialistas consultados pela reportagem. <\/p>\n\n\n\n<p>Dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domic\u00edlio Cont\u00ednua (Pnad Cont\u00ednua) do IBGE em 2019 apontam que 54,1 milh\u00f5es de brasileiros com 14 anos ou mais cuidavam de outros moradores da sua casa ou de outros parentes \u2014 mas n\u00e3o se sabe ao certo quantos cuidam de duas gera\u00e7\u00f5es ao mesmo tempo.A despeito disso, a expectativa \u00e9 de que o fen\u00f4meno da \u201cgera\u00e7\u00e3o sandu\u00edche\u201d se torne mais comum em um futuro pr\u00f3ximo, como explicam as pesquisadoras brasileiras Simone Wajnman e Jordana Cristina Jesus em um estudo sobre o tema no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o de motivos por tr\u00e1s desse fen\u00f4meno global: como as pessoas est\u00e3o tendo filhos mais tarde, e seus pais est\u00e3o vivendo mais, muitas se veem lidando com os cuidados das duas gera\u00e7\u00f5es.Ao mesmo tempo, as fam\u00edlias ficaram menores \u2014 e h\u00e1 menos pessoas com as quais dividir essas tarefas.Outro fator importante, segundo as pesquisadoras brasileiras, \u00e9 que uma parcela significativa dos jovens t\u00eam demorado mais para obter sua independ\u00eancia financeira, adiando a sa\u00edda da casa dos pais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAcredita-se que eles tenham passado cada vez mais tempo na condi\u00e7\u00e3o de dependentes, principalmente quando comparados \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de seus pr\u00f3prios pais\u201d, apontam Wajnman e Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO cen\u00e1rio gerado por essas mudan\u00e7as \u00e9 de uma parcela cada vez maior de adultos comprimidos simultaneamente por demandas de seus filhos e de seus pais, (&#8230;) sendo que as mulheres s\u00e3o as mais propensas a ocupar esse papel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201dAs estat\u00edsticas comprovam essa propens\u00e3o: segundo o IBGE, as mulheres dedicam, em m\u00e9dia, 10,4 horas por semana a mais do que os homens \u00e0s tarefas dom\u00e9sticas e aos cuidados n\u00e3o remunerados com pessoas.\u00c9 o caso de Daiane, que desde a morte do pai cuida sozinha de dona Maria Joana. Nem o marido, nem os irm\u00e3os dela participam da rotina de cuidados, diz ela.\u201cAprendi a dar banho nela e fa\u00e7o tudo o que est\u00e1 ao meu alcance. Quando ela ainda falava, at\u00e9 me chamava de m\u00e3e. (&#8230;) Eu acho que Deus me deu isso para eu aprender o que \u00e9 o amor verdadeiro por algu\u00e9m \u2014 porque \u00e9 uma experi\u00eancia de amor.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o ac\u00famulo de fun\u00e7\u00f5es com o filho, com a m\u00e3e e com os afazeres dom\u00e9sticos tem cobrado um pre\u00e7o alto da sa\u00fade mental de Daiane. Ela conta que j\u00e1 enfrentou per\u00edodos de depress\u00e3o profunda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDedico minha vida toda \u00e0 minha m\u00e3e \u2014 n\u00e3o viajo, n\u00e3o saio. (&#8230;) E as pessoas me cobram que eu seja mais presente para o meu filho. N\u00e3o tenho tempo para mim, mas tenho que ter tempo para a casa, para as roupas, para eles.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se hist\u00f3rias como a de Daiane s\u00e3o exemplos cl\u00e1ssicos da gera\u00e7\u00e3o sandu\u00edche no mundo, elas provavelmente ainda n\u00e3o representam um exemplo tipicamente brasileiro, diz Simone Wajnman, que \u00e9 professora da UFMG.<\/p>\n\n\n\n<p>No pa\u00eds, assim como no restante da Am\u00e9rica Latina, o fen\u00f4meno tem uma camada adicional de complexidade: segundo os dados levantados pela pesquisadora, a maior parte das mulheres \u201censanduichadas\u201d atualmente no Brasil n\u00e3o s\u00e3o apenas m\u00e3es, mas tamb\u00e9m av\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>A raz\u00e3o principal por tr\u00e1s disso \u00e9 que, embora cada vez mais brasileiras estejam esperando mais para ter filhos, a idade m\u00e9dia em que elas se tornam m\u00e3es \u2014 27,8 anos \u2014 ainda \u00e9 uma das menores do mundo.Analisando os dados do Censo de 2010, Wajnman identificou que, quando essa mulher chega aos 55 anos, ela ter\u00e1 em m\u00e9dia dois netos, nascidos de filhos que t\u00eam por volta de 20 a 30 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE ela tamb\u00e9m tem alta probabilidade de ter m\u00e3e e pai vivos e em idade demandante\u201d, explica Wajnman \u00e0 BBC News Brasil.Na pr\u00e1tica, portanto, muitas dessas av\u00f3s acabam comprimidas pelas demandas de tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es diferentes de dependentes \u2014 e muitas vezes participam intensamente da vida e dos cuidados de todas elas.\u201c\u00c9 com certeza algo que afeta muito mais as mulheres\u201d, prossegue Wajnman. \u201cEstou falando de av\u00f3s que t\u00eam muito trabalho com seus netos e ao mesmo tempo t\u00eam uma m\u00e3e ou pai demandante.\u201dE conciliam isso tamb\u00e9m com o sustento da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>A paulista Raquel Soares Alexandre, 58 anos, diz que est\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas anos sem \u201cvida pr\u00f3pria\u201d \u2014 desde que seu pai teve um AVC (acidente vascular cerebral) e perdeu os movimentos do lado direito do corpo.\u201cEle n\u00e3o anda e n\u00e3o fala, ent\u00e3o depende de mim para tomar rem\u00e9dio, ir nas consultas m\u00e9dicas, tudo\u201d, diz ela \u00e0 reportagem.Raquel tamb\u00e9m cria as duas netas adolescentes (de 13 e 17 anos) e trabalha em tempo integral como agente de apoio na Funda\u00e7\u00e3o Casa, na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMeu pai fica com uma das minhas netas pela manh\u00e3 e com a outra \u00e0 tarde. Quando eu chego do trabalho, ainda tenho que cuidar da alimenta\u00e7\u00e3o. Vou dormir \u00e0s 23h. E no meus dias de folga, tenho que cuidar da casa, lavar as roupas\u201d, ela desabafa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEnt\u00e3o &#8216;puxado&#8217; \u00e9 pouco. Eu choro muito, me desespero, mas da\u00ed voc\u00ea olha para o lado e v\u00ea pessoas em situa\u00e7\u00e3o ainda pior e segue em frente. (&#8230;) Antes de o meu pai ficar doente, eu conseguia tirar f\u00e9rias na praia. Hoje, se saio por poucos dias j\u00e1 \u00e9 um transtorno, porque preciso pagar algu\u00e9m para cuidar dele e n\u00e3o consigo me desligar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante destacar que a conviv\u00eancia multigeracional tamb\u00e9m pode trazer ganhos, desde aproximar a fam\u00edlia e at\u00e9 permitir que m\u00e3es consigam se manter no mercado enquanto as av\u00f3s ajudam com as crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a press\u00e3o emocional e econ\u00f4mica sobre esse grupo demogr\u00e1fico \u00e9 grande, e tende a continuar crescendo.Uma pesquisa recente da Universidade de Michigan, nos EUA, publicada no Journal of the American Geriatrics Society aponta que, entre mais de mil entrevistados da \u201cgera\u00e7\u00e3o sandu\u00edche\u201d nos EUA, 36% deles passavam por dificuldades financeiras \u2014 o dobro do \u00edndice reportado entre pessoas que cuidavam apenas de um pai idoso, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m chamou a aten\u00e7\u00e3o o alto \u00edndice (44%) de dificuldades emocionais entre os ensanduichados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFormuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas e empregadores dever\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o especial aos indiv\u00edduos nesse \u2018trilema\u2019 de cuidar de duas gera\u00e7\u00f5es e, ao mesmo tempo, continuar sendo parte da for\u00e7a de trabalho\u201d, escreveu Donovan Maust, um dos autores do estudo.<\/p>\n\n\n\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psicologia (APA) afirma que \u201cser cuidador multigeracional tem demonstrado impacto negativo na sa\u00fade e no comportamento, ao reduzir os n\u00edveis de exerc\u00edcio (dos cuidadores), aumentar sua frequ\u00eancia de consumo de cigarros e elevar seu risco de depress\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCuidar dos netos \u00e9 um trabalho extra para av\u00f3s que muitas vezes tamb\u00e9m s\u00e3o cuidadoras dos seus maridos. Estamos falando de mulheres que muitas vezes n\u00e3o puderam escolher\u201d, diz \u00e0 BBC News Brasil a assistente social Marilia Berzins, do Observat\u00f3rio da Longevidade Humana e Envelhecimento (Olhe) no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Berzins diz que chegou a promover cursos e rodas de conversa para ajudar as cuidadoras multigeracionais, mas elas simplesmente n\u00e3o tinham tempo livre para comparecer. Sem apoio, acabam aprendendo a cuidar de idosos na pr\u00e1tica, por conta pr\u00f3pria.\u201c\u00c9 um trabalho precarizado e pesado. Hoje, a principal provedora de cuidados \u00e9 a pr\u00f3pria fam\u00edlia\u201d, prossegue Berzins.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela defende que pol\u00edticas p\u00fablicas, como centros de cuidados diurnos ou noturnos para idosos e a formaliza\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o de cuidador, poderiam ajudar a aliviar a carga emocional, social e financeira sobre esses grupos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA pergunta \u00e9: quem cuida de quem cuida? Por isso, precisamos que o cuidado passe a ser uma pol\u00edtica do Estado, e n\u00e3o s\u00f3 da fam\u00edlia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz dez anos que a paranaense Lady Daiane de Vargas Flores cuida em tempo integral da m\u00e3e, que sofre de dem\u00eancia. Dona Maria Joana tem 68 anos e j\u00e1 n\u00e3o fala, n\u00e3o anda nem se alimenta sozinha. \u201cEla virou um beb\u00ea total\u201d, explica Daiane, 39 anos, \u00e0 BBC News Brasil. 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