{"id":4969,"date":"2019-04-06T11:19:14","date_gmt":"2019-04-06T14:19:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=4969"},"modified":"2019-04-06T11:19:15","modified_gmt":"2019-04-06T14:19:15","slug":"crise-leva-27-milhoes-a-pobreza-em-seis-meses-na-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/04\/06\/crise-leva-27-milhoes-a-pobreza-em-seis-meses-na-argentina\/","title":{"rendered":"Crise leva 2,7 milh\u00f5es \u00e0 pobreza em seis meses na Argentina"},"content":{"rendered":"\n<p>BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) &#8211; No fim de mar\u00e7o, esta rep\u00f3rter foi levar um saco de lixo a um &#8220;basurero&#8221;, lix\u00e3o de pl\u00e1stico que h\u00e1 nas ruas de Buenos Aires. Esses grandes recipientes t\u00eam seu conte\u00fado removido pela prefeitura no meio da noite. Ao abrir a tampa, no entanto, para a minha surpresa, havia uma pessoa ali dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Desculpe, senhora, j\u00e1 saio&#8221;, ouvi a voz que sa\u00eda do meio das sombras e do mau cheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Constrangida, dei uns passos para tr\u00e1s. O sujeito ent\u00e3o saiu, carregando sacolas de pl\u00e1stico. Enquanto eu jogava meu lixo fora, Mat\u00edas, 26, desempregado, rasgava as bolsas e separava alguns itens.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Aqui sempre tem alguma comida&#8221;, disse, apontando para os dois caf\u00e9s e uma popular loja de empanadas na esquina. Separou restos de pizza, um cobertor de beb\u00ea rasgado e outros itens. Meteu tudo em uma mochila e saiu desajeitado, mas com cara de satisfeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Cenas como essa t\u00eam sido comuns na Argentina. Al\u00e9m da corrida aos &#8220;basureros&#8221; antes de os caminh\u00f5es de lixo passarem, h\u00e1 a movimenta\u00e7\u00e3o dos que dormem nas ruas em colch\u00f5es e se aproximam dos supermercados para buscar algo que alimente a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o atinge s\u00f3 as classes menos favorecidas. O Unicef lan\u00e7ou recentemente um alerta de que as crian\u00e7as argentinas est\u00e3o mostrando n\u00edvel inferior de ingest\u00e3o de prote\u00ednas, num pa\u00eds em que antes se consumia carne diariamente, das favelas \u00e0s mans\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas est\u00e3o tendo de trocar a antiga dieta por outra, cheia de carboidratos. &#8220;At\u00e9 uns anos atr\u00e1s eu fazia bife \u00e0 milanesa para meus filhos quase todo dia, e ao menos uma vez por m\u00eas reun\u00edamos a fam\u00edlia para um &#8216;asado&#8217; [churrasco)&#8221;, diz Dolores \u00darzua, 38, moradora de Quilmes, na periferia de Buenos Aires. &#8220;Agora, comprar carne est\u00e1 muito dif\u00edcil. O jeito \u00e9 substituir por macarr\u00e3o e, de vez em quando, frango.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Cinemas e restaurantes est\u00e3o mais vazios e, nos \u00faltimos meses, dois shows internacionais que ocorreriam no Luna Park, principal local de espet\u00e1culos da capital, foram cancelados pois n\u00e3o foram vendidos ingressos suficientes para pagar a vinda do artista.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise econ\u00f4mica come\u00e7ou a se agravar no fim do primeiro semestre de 2018, quando o d\u00f3lar arrancou em disparada &#8211;em um ano, quase duplicou seu valor frente ao peso.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo, j\u00e1 endividado, teve de acudir a uma linha de cr\u00e9dito do Fundo Monet\u00e1rio Internacional, que pediu uma pol\u00edtica de austeridade mais dura em contrapartida.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica de ajustes de pre\u00e7os, cortando subs\u00eddios da era kirchnerista (2003-2015), que j\u00e1 vinha ocorrendo de modo gradual, come\u00e7ou a se acelerar e a impactar ainda mais o bolso dos argentinos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;De repente, tudo o que um assalariado de classe m\u00e9dia baixa ganha, chega, com sorte, a cobrir gastos de transporte, comida, g\u00e1s e despesas da casa&#8221;, afirma o motorista de Uber Alexis Moreno, 32, que h\u00e1 dois meses perdeu seu emprego numa f\u00e1brica de tecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>O desemprego est\u00e1 em 9,1%, com a taxa de emprego informal beirando os 40% &#8211;eram 34% no in\u00edcio da gest\u00e3o Macri.<\/p>\n\n\n\n<p>Na semana passada, o Indec, o IBGE argentino, divulgou os n\u00fameros oficiais da pobreza, que cresceu quase 6 pontos percentuais em um ano. Hoje, 32% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 abaixo da linha de pobreza, e 6,7% s\u00e3o considerados indigentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o kirchnerismo, o Indec esteve sob interven\u00e7\u00e3o. Desde 2015 n\u00e3o maquia mais os dados, e a realidade n\u00e3o \u00e9 animadora. S\u00e3o 12,9 milh\u00f5es de pobres e indigentes. Destes, 2,7 milh\u00f5es entraram na categoria nos \u00faltimos seis meses.<\/p>\n\n\n\n<p>A infla\u00e7\u00e3o acumulada de 2018 foi de 47,6% &#8211;e continua aumentando neste ano. Foi de 2,9% em janeiro a 3,5% em fevereiro. Os economistas preveem que o \u00edndice de mar\u00e7o se apresente em torno de 4%.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a pobreza, aumentou tamb\u00e9m a desigualdade &#8211;10% dos lares mais ricos ganham 20 vezes mais que os 10% mais pobres. Uma brecha que aumentou em 3 pontos percentuais em rela\u00e7\u00e3o a 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>A obsess\u00e3o de boa parte da popula\u00e7\u00e3o afetada \u00e9 o que vir\u00e1 nos pr\u00f3ximos meses. Com o inverno, as casas costumam aumentar o uso de g\u00e1s e eletricidade para a calefa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O g\u00e1s, antes subsidiado e que nem sequer era percebido como gasto pela classe m\u00e9dia, agora, de t\u00e3o caro, se paga em parcelas. Um aumento de 29% nas tarifas est\u00e1 previsto para o come\u00e7o do inverno.<\/p>\n\n\n\n<p>Os chamados &#8220;tarifa\u00e7os&#8221;, em que se aumentam os pre\u00e7os dos servi\u00e7os ap\u00f3s a retirada de subs\u00eddios, desgastam a popularidade do presidente, hoje em 30%. S\u00f3 os &#8220;tarifa\u00e7os&#8221; de g\u00e1s j\u00e1 acumulam mais de 1.000% desde o in\u00edcio da gest\u00e3o Macri, em 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, o desconforto social vem sendo visto nas ruas, com greves e piquetes. Na \u00faltima quinta (4), houve uma manifesta\u00e7\u00e3o dos sindicatos no centro de Buenos Aires. Outras categorias tamb\u00e9m t\u00eam se mobilizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os aposentados pedem a revis\u00e3o do corte de seus benef\u00edcios, feitos na \u00faltima reforma da Previd\u00eancia. Hoje a aposentadoria m\u00ednima, com a qual vivem 8 milh\u00f5es de idosos no pa\u00eds, \u00e9 de 10.400 pesos (R$ 918).<\/p>\n\n\n\n<p>Para o governo argentino, que buscar\u00e1 se reeleger em outubro, &#8220;o pior j\u00e1 passou&#8221;, frase usada desde o come\u00e7o do ano pelo presidente Macri e pelo ministro da Economia, Nicol\u00e1s Dujovne, apesar de os \u00edndices macroecon\u00f4micos n\u00e3o confirmarem isso.<\/p>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o de seu mandato, Macri disse: &#8220;Se no final de minha gest\u00e3o eu n\u00e3o tiver reduzido a pobreza, terei falhado&#8221;. A frase tem sido lembrada por seus advers\u00e1rios pol\u00edticos com frequ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua defesa, Macri tem dito que os ajustes de hoje dar\u00e3o frutos amanh\u00e3. &#8220;Sei o que estamos sofrendo. Temos de aguentar, estou convencido do que estamos fazendo, de que este \u00e9 o caminho certo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Indagado na semana passada sobre a infla\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 contida, Macri foi at\u00e9 po\u00e9tico: &#8220;Em nenhum momento h\u00e1 mais escurid\u00e3o do que no segundo antes do amanhecer&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>BemParana<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) &#8211; No fim de mar\u00e7o, esta rep\u00f3rter foi levar um saco de lixo a um &#8220;basurero&#8221;, lix\u00e3o de pl\u00e1stico que h\u00e1 nas ruas de Buenos Aires. Esses grandes recipientes t\u00eam seu conte\u00fado removido pela prefeitura no meio da noite. 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