{"id":49119,"date":"2023-05-30T18:57:55","date_gmt":"2023-05-30T21:57:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=49119"},"modified":"2023-05-30T18:57:55","modified_gmt":"2023-05-30T21:57:55","slug":"pior-que-alcoolismo-o-impacto-do-autoplay-na-saude-mental-de-criancas-e-adultos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2023\/05\/30\/pior-que-alcoolismo-o-impacto-do-autoplay-na-saude-mental-de-criancas-e-adultos\/","title":{"rendered":"\u2018Pior que alcoolismo\u2019: o impacto do autoplay na sa\u00fade mental de crian\u00e7as e adultos"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Recursos de rolagem infinita do feed e reprodu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de v\u00eddeos encorajam e aprofundam comportamentos viciantes nas redes sociais<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Atire a primeira pedra quem nunca ficou rolando o feed do Instagram por horas antes de dormir ou perdeu a no\u00e7\u00e3o do tempo nos intermin\u00e1veis v\u00eddeos do Reels ou do TikTok. A verdade \u00e9 que o objetivo dessas ferramentas \u00e9 justamente esse: fazer com que os usu\u00e1rios fiquem cada vez mais tempo conectados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA Big Tech adotou o v\u00edcio como modelo de neg\u00f3cios. Sua \u2018inova\u00e7\u00e3o\u2019 n\u00e3o \u00e9 projetada para criar produtos melhores, mas para chamar a aten\u00e7\u00e3o usando truques psicol\u00f3gicos que tornam imposs\u00edvel desviar o olhar. \u00c9 hora de esperar mais e melhor do Vale do Sil\u00edcio\u201d, disse o senador republicano Josh Hawley, em uma publica\u00e7\u00e3o no Twitter em 2019, quando introduziu a proposta de lei Social Media Addiction Reduction Technology (Smart) Act que mira em t\u00e9cnicas e recursos criados para encorajar e aprofundar comportamentos viciantes nas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o eles: rolagem infinita ou recarga autom\u00e1tica dos feeds das redes sociais; o autoplay ou reprodu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de v\u00eddeos; distintivos e outros pr\u00eamios vinculados ao engajamento com a plataforma, como os emblemas do Snapstreak, que marcam quanto tempo amigos trocam mensagens di\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses recursos est\u00e3o t\u00e3o intr\u00ednsecos no nosso dia a dia que nem nos damos conta do quanto s\u00e3o prejudiciais. Mas a verdade \u00e9 que vemos uma sociedade completamente viciada em v\u00eddeos que rodam automaticamente e timelines infinitas, quase imposs\u00edveis de fechar.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitas d\u00e9cadas pesquisadores investigam o v\u00edcio comportamental, aquele que n\u00e3o envolve o consumo de algum tipo de subst\u00e2ncia, e sua rela\u00e7\u00e3o com a internet. Est\u00e1 cada vez mais claro que o uso de dispositivos digitais causa esse tipo de v\u00edcio e isso pode ser fortemente impulsionado pelas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Um estudo do Instituto Delete \u2013 Detox Digital e Uso Consciente de Tecnologias, do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), indicou que 7 em cada 10 pessoas apresentam uso abusivo de telas e 3 em cada 10 pessoas apresenta um uso abusivo patol\u00f3gico dependente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 J\u00e1 \u00e9 algo maior que alcoolismo, por exemplo \u2014 ressalta Eduardo Guedes, pesquisador do Instituto Delete.<\/p>\n\n\n\n<p>A dopamina \u00e9 o principal qu\u00edmico envolvido na forma\u00e7\u00e3o de v\u00edcios. Estudos mostram que as m\u00eddias sociais agem no c\u00e9rebro de maneira semelhante ao \u00e1lcool e \u00e0s drogas, gerando uma descarga de horm\u00f4nios do prazer, dopamina e endorfina, que n\u00e3o pode ser sustentado no m\u00e9dio prazo, o que estimula a pessoa a ficar conectada para obter essa sensa\u00e7\u00e3o prazerosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Em particular, as m\u00eddias sociais t\u00eam um mecanismo de recompensa e engajamento que levam a essa sensa\u00e7\u00e3o de autossatisfa\u00e7\u00e3o associada ao horm\u00f4nio do prazer \u2014 avalia Guedes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas redes sociais, quem decide qual publica\u00e7\u00e3o ou v\u00eddeo aparece na timeline de um usu\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 o indiv\u00edduo, mas um algoritmo de intelig\u00eancia artificial que seleciona os conte\u00fados que podem ser mais interessantes e apelativos para o usu\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor de neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Li Li Min, pesquisador do Instituto Brasileiro de Neuroci\u00eancias e Neurotecnologia (Cepid \u2013 Brainn), explica que, na maioria das vezes, s\u00e3o conte\u00fados com alto apelo emocional pois \u00e9 isso o que prende o usu\u00e1rio na rede.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Muitas vezes, a pessoa nem termina de ver o v\u00eddeo, por mais curto que ele seja. Ela j\u00e1 pula para o pr\u00f3ximo porque ela n\u00e3o est\u00e1 atr\u00e1s do conte\u00fado, mas de uma experi\u00eancia prazerosa porque o conte\u00fado da imagem e do v\u00eddeo tem in\u00fameras informa\u00e7\u00f5es que estimulam o usu\u00e1rio de alguma maneira para dar essa sensa\u00e7\u00e3o de prazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora muitas vezes essa seja uma atividade \u201cautom\u00e1tica\u201d, que fazemos de forma inconsciente, segundo especialistas, ela est\u00e1 longe de ser passiva.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mesmo que a pessoa esteja usando as redes sociais de maneira automatizada, esse conte\u00fado representa um bombardeio de informa\u00e7\u00f5es ao c\u00e9rebro, que reage a isso de forma cont\u00ednua \u2014 explica Min.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso pode trazer consequ\u00eancias negativas para a sa\u00fade f\u00edsica, mental e cognitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vemos uma correla\u00e7\u00e3o muito grande \u00e0 hiperexposi\u00e7\u00e3o de tela com transtornos prim\u00e1rios de ansiedade e o autoplay \u00e9 um recurso das redes sociais que gera essa hiperestimula\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o porque a pessoa fica conectada o tempo inteiro. Isso gera uma percep\u00e7\u00e3o alterada de tempo e, em especial se ocorrer a noite, pode gerar priva\u00e7\u00e3o de sono. \u00c9 o que chamamos de sonambulismo digital \u2014 alerta Guedes.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se n\u00e3o bastasse o est\u00edmulo gerado, o uso de telas antes de dormir atrapalha o sono devido \u00e0 luminosidade emitida pelo dispositivo, que desregula o ritmo biol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Evid\u00eancias mostram que uma hora de tela no per\u00edodo noturno chega a reduzir em cerca de 20% a melatonina. Isso se traduz em um sono entrecortado, que n\u00e3o atinge os n\u00edveis necess\u00e1rios para produzir a higiene entre as c\u00e9lulas. Tamb\u00e9m atrapalha a consolida\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias e de fun\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas que ocorrem durante o sono, como a libera\u00e7\u00e3o do horm\u00f4nio de crescimento \u2014 diz Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do Grupo de Depend\u00eancias Tecnol\u00f3gicas do IPq \u2013 Instituto de Psiquiatria do HC.<\/p>\n\n\n\n<p>A hiperexposi\u00e7\u00e3o \u00e0 tela tamb\u00e9m pode causar preju\u00edzos \u00e0s rela\u00e7\u00f5es familiares, isolamento, perda de rendimento no trabalho e nos estudos, depress\u00e3o, ansiedade, al\u00e9m de altera\u00e7\u00f5es no processamento cognitivo, a forma como o c\u00e9rebro realiza opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A sa\u00fade mental \u00e9 uma das mais afetadas pelas redes sociais e suas ferramentas abusivas. A alta exposi\u00e7\u00e3o e compara\u00e7\u00e3o com um retrato perfeito das vidas alheias pode criar quadros de transtornos psicol\u00f3gicos, especialmente entre aqueles que j\u00e1 s\u00e3o mais propensos, o que tamb\u00e9m afeta o funcionamento do c\u00e9rebro. Al\u00e9m dos transtornos ligados \u00e0 autoestima, as redes podem exacerbar quadros de ansiedade por acostumarem o c\u00e9rebro a um ritmo diferente daquele do mundo real.<\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, isso tamb\u00e9m est\u00e1 muito associado ao fato de n\u00e3o sermos respons\u00e1veis pelo conte\u00fado que consumimos. Quem escolhe \u00e9 o algoritmo e nada impede que ele bombardeie os usu\u00e1rios com conte\u00fado violento, perturbador e extremista.<\/p>\n\n\n\n<p>Nabuco tamb\u00e9m alerta para mudan\u00e7as na forma do processamento cognitivo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Temos algumas opera\u00e7\u00f5es mentais importantes, como o pensamento criativo e o associativo. Com a tela, apenas uma opera\u00e7\u00e3o mental est\u00e1 sendo estimulada. Conforme o tempo passa, essa fun\u00e7\u00e3o se torna muito habilidosa, mas as outras que seriam vitais para a do indiv\u00edduo vida come\u00e7am a ser perdidas devido ao processo de poda neuronal que \u201cdesliga\u201d os circuitos que n\u00e3o s\u00e3o interessantes para lidar com o entorno.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de nos viciar e tirar nosso poder de escolha, o mecanismo de funcionamento das redes sociais, com v\u00eddeos e informa\u00e7\u00f5es curtas e din\u00e2micas est\u00e1 alterando nossa capacidade de aten\u00e7\u00e3o. Um filme ou o epis\u00f3dio de uma s\u00e9rie s\u00e3o longos demais. Livros s\u00e3o sem gra\u00e7a. Text\u00e3o? Nem pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns estudos mostram que isso n\u00e3o \u00e9 apenas uma impress\u00e3o. Nosso n\u00edvel atencional diminuiu. Conseguimos ficar menos tempo retido em uma informa\u00e7\u00e3o e as redes sociais podem desempenhar um fator crucial nessa tend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vivemos uma epidemia da distra\u00e7\u00e3o. As pessoas n\u00e3o conseguem mais focar a aten\u00e7\u00e3o porque isso exige uma quietude da mente e a partir do momento que a pessoa tem um celular sempre ao lado, o est\u00edmulo \u00e9 cont\u00ednuo.<\/p>\n\n\n\n<p>Estudo publicado no peri\u00f3dico Journal of the Association for Consumer Research mostrou que a mera presen\u00e7a do celular reduz a capacidade cognitiva dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Como avaliar se seu uso \u00e9 abusivo?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A depend\u00eancia de telas \u00e9 silenciosa e praticamente invis\u00edvel. Mas existem algumas pistas que podem indicar que o uso consciente est\u00e1 se tornando abusivo ou patol\u00f3gico. S\u00e3o elas: quando o tempo nas telas passa a ser a \u00fanica fonte de prazer em detrimento das rela\u00e7\u00f5es na vida real e a pessoa substitui o online pelo real; quando voc\u00ea passa a fazer tudo com o celular: \u00e9 a primeira coisa que olha ao acordar, leva o celular para o banheiro ou usa no carro enquanto est\u00e1 dirigindo; n\u00e3o suporta a ideia de ficar em um lugar sem conex\u00e3o com a internet; tem sintomas de abstin\u00eancia ao ficar afastada do celular e das redes, como irritabilidade, mal humor e ansiedade e conflito nas rela\u00e7\u00f5es pessoais entre familiares e amigos devido ao uso exagerado do celular.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Como controlar o uso das redes sociais<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>As redes sociais vieram para ficar. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso aprender a us\u00e1-las de forma saud\u00e1vel e consciente. Para come\u00e7ar, a recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 ser mais seletivo em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de conte\u00fado consumido em vez de apenas se deixar levar pelo algoritmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ter h\u00e1bitos saud\u00e1veis, incluindo a pr\u00e1tica de atividade f\u00edsica e colocar o sono como prioridade, ajuda a limitar o acesso ao celular e \u00e0s redes sociais, em especial antes de dormir. Para o psiquiatra americano Daniel Lieberman, professor e vice-presidente para assuntos cl\u00ednicos no departamento de Psiquiatria e Ci\u00eancias Comportamentais da Universidade George Washington, coautor do livro \u201cDopamina: a mol\u00e9cula do desejo\u201d, um detox r\u00edgido pode ter efeito no curto prazo, mas n\u00e3o durar\u00e1. Em vez disso, para fazer mudan\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 libera\u00e7\u00e3o de dopamina durante o uso de redes sociais, ele recomenda definir um limite de tempo di\u00e1rio para o TikTok ou para o Instagram.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Acho que fazer mudan\u00e7as menores e de longo prazo \u00e9 melhor do que desintoxica\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas por apenas alguns dias \u2014 afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Com informa\u00e7\u00f5es do Jornal O GLOBO.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recursos de rolagem infinita do feed e reprodu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de v\u00eddeos encorajam e aprofundam comportamentos viciantes nas redes sociais Atire a primeira pedra quem nunca ficou rolando o feed do Instagram por horas antes de dormir ou perdeu a no\u00e7\u00e3o do tempo nos intermin\u00e1veis v\u00eddeos do Reels ou do TikTok. 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