{"id":4735,"date":"2019-04-05T09:10:48","date_gmt":"2019-04-05T12:10:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=4735"},"modified":"2019-04-05T09:10:48","modified_gmt":"2019-04-05T12:10:48","slug":"superbacterias-resistentes-poderao-matar-ate-10-milhoes-em-2050","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/04\/05\/superbacterias-resistentes-poderao-matar-ate-10-milhoes-em-2050\/","title":{"rendered":"\u201cSuperbact\u00e9rias\u201d resistentes poder\u00e3o matar at\u00e9 10 milh\u00f5es em 2050"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Instituto Lula divulgou que a causa da morte do neto do ex-presidente foi a bact\u00e9ria Staphylococcus aureus, uma das que podem ser resistentes a antibi\u00f3ticos<\/h4>\n\n\n\n<p>A descoberta da penicilina, primeiro componente a fazer parte dos antibi\u00f3ticos, \u00e9 at\u00e9 hoje considerada um dos marcos da hist\u00f3ria da<strong><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/noticias-sobre\/medicina\/\">&nbsp;medicina<\/a><\/strong>. Descoberta em 1928 pelo escoc\u00eas Alexander Fleming, a subst\u00e2ncia j\u00e1 salvou milh\u00f5es de vidas e transformou infec\u00e7\u00f5es potencialmente mortais em doen\u00e7as n\u00e3o t\u00e3o graves assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, quase um s\u00e9culo depois, novas subst\u00e2ncias al\u00e9m da penicilina passaram a ser usadas nos medicamentos, justamente pelo fato de que as bact\u00e9rias, quando expostas muitas vezes a uma subst\u00e2ncia, v\u00e3o tornando-se resistentes a ela. Ainda assim, vem surgindo novas bact\u00e9rias que evolu\u00edram a ponto de serem imunes aos antibi\u00f3ticos, chamadas de forma leiga de \u201csuperbact\u00e9rias\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Descobriu-se nesta semana que foi justamente uma dessas bact\u00e9rias potencialmente resistentes&nbsp;a respons\u00e1vel por tirar a vida de Arthur Ara\u00fajo Lula da Silva, neto do ex-presidente Luiz In\u00e1cio<strong><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/noticias-sobre\/luiz-inacio-lula-da-silva\/\">&nbsp;Lula<\/a><\/strong>&nbsp;da Silva, que morreu h\u00e1 um m\u00eas com apenas sete anos. O Instituto Lula divulgou nesta ter\u00e7a-feira que a causa da morte foi a bact\u00e9ria&nbsp;<em>Staphylococcus aureus<\/em>, micro-organismo que, no geral,&nbsp;est\u00e1 presente na pele.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, imaginava-se que a causa da morte de Arthur fora um tipo de meningite (chamada meningoc\u00f3cica), com base em informa\u00e7\u00e3o vazada pelo hospital Bartira, da rede D\u2019Or, em que o menino deu entrada antes de falecer. A descoberta da real causa do falecimento veio somente ap\u00f3s exames realizados pela prefeitura de Santo Andr\u00e9 (SP), seguindo protocolos do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o inicial de que a causa havia sido meningite causou um frenesi em busca por vacinas contra a doen\u00e7a, al\u00e9m de cr\u00edticas ao Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) por n\u00e3o oferecer na rede p\u00fablica vacinas contra todos os tipos de meningite.<\/p>\n\n\n\n<p>O deputado federal e ex-ministro da Sa\u00fade, Alexandre Padilha (PT-SP), chegou a publicar em seu perfil no Twitter nesta ter\u00e7a-feira cr\u00edticas ao hospital, dizendo esperar que a institui\u00e7\u00e3o \u201cesclare\u00e7a quais procedimentos de apura\u00e7\u00e3o j\u00e1 realizou para o vazamento de diagn\u00f3stico que se revelou anti\u00e9tico para com a fam\u00edlia e irrespons\u00e1vel com a sa\u00fade p\u00fablica da regi\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A bact\u00e9ria espec\u00edfica que matou Arthur, a&nbsp;<em>Staphylococcus aureus<\/em>, costuma infectar a pele, e n\u00e3o s\u00f3 de pessoas doentes: o micro-organismo pode estar presente nos narizes e na pele de at\u00e9 um ter\u00e7o dos seres humanos, sobretudo os que trabalham em hospitais ou j\u00e1 est\u00e3o doentes. A diferen\u00e7a \u00e9 que, para virar um problema de fato, \u00e9 preciso que a bact\u00e9ria adentre o corpo, o que no geral, acontece por meio de um corte ou da inala\u00e7\u00e3o de got\u00edculas contaminadas. A partir da\u00ed, a bact\u00e9ria pode viajar pela corrente sangu\u00ednea e infectar&nbsp;partes do do corpo, se espalhando pelos \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>As infec\u00e7\u00f5es por&nbsp;<em>Staphylococcus aureus<\/em>&nbsp;v\u00e3o de leves a quase mortais, como infelizmente foi o caso de&nbsp;Arthur \u2014 que, por ser uma crian\u00e7a, tamb\u00e9m tinha o corpo mais fr\u00e1gil. Ainda assim, m\u00e9dicos afirmam que \u00e9 raro que uma pessoa saud\u00e1vel perca a vida por causa dessa bact\u00e9ria.&nbsp;Est\u00e3o mais expostos a infec\u00e7\u00f5es graves pessoas que j\u00e1 est\u00e3o doentes, cujo sistema imunol\u00f3gico n\u00e3o anda bem, ou pessoas que frequentam hospitais (sobretudo as que fazem furos no nariz, como para coloca\u00e7\u00e3o de cateter).<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios tipos de&nbsp;<em>Staphylococcus aureus<\/em>, algumas mais resistentes que outras. A maior parte, se detectada rapidamente, pode ser tratada com antibi\u00f3ticos. Para o m\u00e9dico Nelson Douglas Ejzenbaum, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Academia Americana de Pediatria, este n\u00e3o \u00e9 o tipo mais perigoso de bact\u00e9ria que temos, e nem mesmo poderia ser classificado como uma \u201csuperbact\u00e9ria\u201d (termo que n\u00e3o existe oficialmente na medicina). \u201cEm termos de bact\u00e9rias, h\u00e1 problemas maiores\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como nasce uma \u201csuperbact\u00e9ria\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que bact\u00e9rias&nbsp;de diversos tipos v\u00eam se tornando cada vez mais resistentes a antibi\u00f3ticos \u2014 e parte da culpa \u00e9 nossa. O alto uso de antibi\u00f3ticos para doen\u00e7as n\u00e3o t\u00e3o graves, al\u00e9m do uso irregular (como pessoas que param de tomar o medicamento antes do prazo indicado), vem fazendo as bact\u00e9rias&nbsp;se modificarem, de modo que os medicamentos n\u00e3o as combatem mais da mesma forma.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma chamada \u201csuperbact\u00e9ria\u201d se desenvolve da seguinte forma: quando h\u00e1 uma infec\u00e7\u00e3o por bact\u00e9rias e o paciente toma um antibi\u00f3tico, um pequeno grupo delas pode sobreviver \u2014 por serem um pouco diferentes das demais. Quando isso acontece, essas bact\u00e9rias \u201cmais fortes\u201d n\u00e3o morrem, e, de quebra, aprendem a resistir \u00e0quele antibi\u00f3tico. Depois, elas podem se reproduzir e at\u00e9 mesmo transmitir esse conhecimento a outras bact\u00e9rias.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, surge um novo tipo de bact\u00e9ria que n\u00e3o responde mais \u00e0quele antibi\u00f3tico. \u00c9 por isso que a pr\u00f3pria penicilina, a \u201cm\u00e3e\u201d dos antibi\u00f3ticos, \u00e9 pouco usada atualmente. As bact\u00e9rias j\u00e1 aprenderam a resistir \u00e0s subst\u00e2ncias dessa fam\u00edlia, e tiveram de entrar em cena novos medicamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>As infec\u00e7\u00f5es bacterianas matam 700.000 pessoas em todo o mundo anualmente, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade&nbsp;<strong><a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/noticias-sobre\/oms\/\">(OMS)<\/a><\/strong>. Um estudo tamb\u00e9m da OMS mostrou que o Brasil \u00e9 o 17\u00ba pa\u00eds que mais utiliza antibi\u00f3ticos, em um ranking de 65 na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Se medidas n\u00e3o forem tomadas, estima-se que, em 2050, mais de 10 milh\u00f5es de pessoas morreriam por problemas relacionadas \u00e0s bact\u00e9rias resistentes, segundo um estudo do governo brit\u00e2nico coordenado por especialistas da \u00e1rea e divulgado em 2014. As \u201csuperbact\u00e9rias\u201d tamb\u00e9m custariam at\u00e9 3,8% do PIB global, segundo o Banco Mundial. Os principais afetados seriam regi\u00f5es mais pobres e com menos acesso a hospitais de qualidade e saneamento b\u00e1sico, sobretudo na \u00c1frica e na \u00c1sia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem toda bact\u00e9ria resistente a antibi\u00f3tico \u00e9 nociva. Algumas podem ser muito resistentes mas n\u00e3o fazer mal ao corpo; outras podem ser facilmente mortas com medicamentos, mas fazer um grande estrago se n\u00e3o tratadas. O maior problema \u00e9 quando uma bact\u00e9ria \u00e9 resistente e tamb\u00e9m nociva.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que a velocidade com que essas bact\u00e9rias surgem \u00e9 maior do que a nossa capacidade de criar novos antibi\u00f3ticos, explica o Dr. Ralcyon Teixeira, infectologista do hospital Em\u00edlio Ribas, uma das maiores refer\u00eancias no tratamento e pesquisa de bact\u00e9rias. \u201cAssim como n\u00f3s, as bact\u00e9rias tamb\u00e9m t\u00eam mecanismos de defesa: se antes um antibi\u00f3tico em formato de tri\u00e2ngulo encaixava em um tipo de bact\u00e9ria, agora as novas podem transformar-se em um quadrado, e esse antibi\u00f3tico espec\u00edfico n\u00e3o funciona mais\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja: quanto mais exposi\u00e7\u00e3o a antibi\u00f3ticos, mais fortes as bact\u00e9rias ficam. Ambientes hospitalares, onde h\u00e1 muitos antibi\u00f3ticos em circula\u00e7\u00e3o, s\u00e3o um lugar prop\u00edcio para o desenvolvimento dessas bact\u00e9rias super fortes. Pias, recept\u00e1culos de urinas e at\u00e9 ambientes secos de hospitais podem ser lugar para desenvolvimento desses organismos. Assim, para evitar que essas bact\u00e9rias adentrem nosso corpo e causem estragos, os m\u00e9dicos recomendam a constante higieniza\u00e7\u00e3o das m\u00e3os e limpeza de machucados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Agroneg\u00f3cio \u00e9 um dos principais vil\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do uso indiscriminado de antibi\u00f3ticos em humanos, o agroneg\u00f3cio \u00e9 tamb\u00e9m um dos principais usu\u00e1rios desses medicamentos. Segundo a OMS, cerca de 80% do consumo de antibi\u00f3ticos no mundo acontece no setor animal, sobretudo na pecu\u00e1ria. E nem sempre \u00e9 para tratar animais doentes: a professora de infectologia Juliana Lapa, da Faculdade de Medicina da Universidade de Bras\u00edlia, lembra que muitos criadores de animais usam antibi\u00f3ticos simplesmente para que o animal cres\u00e7a mais e possa ser vendido a pre\u00e7os maiores. \u201cSe fosse para tratar os animais doentes, tudo bem. O problema \u00e9 que \u00e9 um uso irrespons\u00e1vel, e sem necessidade m\u00e9dica\u201d, explica a especialista.<\/p>\n\n\n\n<p>O alto uso de antibi\u00f3ticos no agroneg\u00f3cio acaba indo parar no solo e nos len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos. Assim, em \u00faltima inst\u00e2ncia, pode tamb\u00e9m chegar aos humanos que sequer tomaram antibi\u00f3ticos, fazendo com que as bact\u00e9rias de nosso corpo \u201creconhe\u00e7am\u201d mais subst\u00e2ncias do que o que ocorreria naturalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, os infectologistas afirmam que s\u00e3o necess\u00e1rias pol\u00edticas p\u00fablicas para reduzir o uso indiscriminado de antibi\u00f3ticos, tanto em humanos quanto no agroneg\u00f3cio. O Brasil lan\u00e7ou no fim do ano passado o seu Plano de Resist\u00eancia aos Antibi\u00f3ticos, que inclui o financiamento de pesquisas inovadoras sobre o tema. Outra mudan\u00e7a recente foi a exig\u00eancia de receitas m\u00e9dicas mais rigorosas antes de comprar antibi\u00f3ticos em farm\u00e1cias.<\/p>\n\n\n\n<p>A OMS tamb\u00e9m recomenda que os pa\u00edses trabalhem para evitar o tr\u00e1fico de antibi\u00f3ticos falsificados, que acentuam o problema do fortalecimento das bact\u00e9rias. Segundo a organiza\u00e7\u00e3o, em pa\u00edses de renda m\u00e9dia e baixa, como o Brasil, um em cada dez produtos \u00e9 falsificado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO mundo pertence a bact\u00e9rias e v\u00edrus, somos apenas visitantes\u201d, diz o Dr. Ejzenbaum. \u00c9 um problema mundial, e \u00e9 preciso que legisladores, comunidade m\u00e9dica, agroneg\u00f3cio e pacientes fa\u00e7am sua parte.<\/p>\n\n\n\n<p>Exame<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Instituto Lula divulgou que a causa da morte do neto do ex-presidente foi a bact\u00e9ria Staphylococcus aureus, uma das que podem ser resistentes a antibi\u00f3ticos A descoberta da penicilina, primeiro componente a fazer parte dos antibi\u00f3ticos, \u00e9 at\u00e9 hoje considerada um dos marcos da hist\u00f3ria da&nbsp;medicina. 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