{"id":47321,"date":"2023-05-12T14:21:09","date_gmt":"2023-05-12T17:21:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=47321"},"modified":"2023-05-12T14:21:10","modified_gmt":"2023-05-12T17:21:10","slug":"narcopentecostalismo-traficantes-evangelicos-usam-religiao-na-briga-por-territorios-no-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2023\/05\/12\/narcopentecostalismo-traficantes-evangelicos-usam-religiao-na-briga-por-territorios-no-rio\/","title":{"rendered":"&#8216;Narcopentecostalismo&#8217;: traficantes evang\u00e9licos usam religi\u00e3o na briga por territ\u00f3rios no Rio"},"content":{"rendered":"\n<p>Os traficantes que dominam as favelas de Parada de Lucas, Vig\u00e1rio Geral e outras tr\u00eas comunidades na Zona Norte do Rio de Janeiro elegeram refer\u00eancias b\u00edblicas como seus principais s\u00edmbolos.<\/p>\n\n\n\n<p>A fac\u00e7\u00e3o se autodenomina \u201cTropa de Ar\u00e3o\u201d \u2014 uma figura crist\u00e3, irm\u00e3o de Mois\u00e9s. A estrela de David foi espalhada em muros e bandeiras nas entradas das favelas, e est\u00e1 at\u00e9 em um neon no alto de uma caixa d\u2019\u00e1gua na comunidade de Cidade Alta.<\/p>\n\n\n\n<p>O territ\u00f3rio foi batizado, segundo a pol\u00edcia, de \u201cComplexo de Israel\u201d pelo chefe da Tropa \u2014 uma refer\u00eancia \u00e0 \u201cterra prometida\u201d para o \u201cpovo de Deus\u201d na B\u00edblia.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo criminoso comandava inicialmente o tr\u00e1fico em Parada de Lucas e estendeu seu dom\u00ednio para as comunidades vizinhas. Hoje, a Tropa controla o tr\u00e1fico nas favelas de Cidade Alta, Pica-pau, Cinco Bocas e Vig\u00e1rio Geral, de acordo com a pol\u00edcia e centros de pesquisa em seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>O Complexo de Israel \u00e9 emblem\u00e1tico de um fen\u00f4meno que alguns pesquisadores t\u00eam chamado de \u201cnarcopentecostalismo\u201d \u2014 n\u00e3o apenas o surgimento de traficantes que se declaram evang\u00e9licos, mas a forma como isso influencia a atua\u00e7\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es na disputa por territ\u00f3rios no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO termo neopentecostalismo tem sido empregado por diversos pesquisadores que analisam o fen\u00f4meno de narcotraficantes que assumem, de forma expl\u00edcita e aberta, religi\u00f5es neopentecostais, inclusive em suas atividades criminosas\u201d, explica a cientista pol\u00edtica Kristina Hinz, pesquisadora do Laborat\u00f3rio de An\u00e1lise da Viol\u00eancia da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e doutoranda na Free University, de Berlim.Ou seja, al\u00e9m da convers\u00e3o pessoal, a religi\u00e3o tamb\u00e9m tem um papel estrat\u00e9gico para manuten\u00e7\u00e3o do poder e na disputa por territ\u00f3rios, segundo os pesquisadores.<\/p>\n\n\n\n<p>A comunidade evang\u00e9lica tradicional rejeita fortemente a ideia de que um traficante possa ser evang\u00e9lico.\u201cUm pastor s\u00e9rio n\u00e3o vai aceitar que uma coisa que \u00e9 ilegal na lei humana e imoral seja associada a cristo\u201d, diz o pastor Carlos Alberto, que atua h\u00e1 17 anos como pastor na favela da Cidade de Deus e antes era, ele pr\u00f3prio, traficante. \u201cO pastor tem que mostrar para a pessoa que ela pode se arrepender, mas para ser aceito como evang\u00e9lico ela tem que largar tudo que \u00e9 contr\u00e1rio aos princ\u00edpios b\u00edblicos, morais e \u00e9ticos.\u201dNo entanto, os traficantes considerados parte do neopentecostalismo n\u00e3o s\u00f3 se declaram membros na religi\u00e3o, mas de fato t\u00eam uma vida religiosa, apontam pesquisadores.<\/p>\n\n\n\n<p>O l\u00edder do tr\u00e1fico no Complexo de Israel \u00e9 alvo, por exemplo, de 20 mandados de pris\u00e3o por homic\u00eddio, tortura, tr\u00e1fico, roubos e oculta\u00e7\u00e3o de cad\u00e1ver. Ao mesmo tempo, ele se declara evang\u00e9lico, espalhou refer\u00eancias religiosas pela regi\u00e3o e tem amigos pastores, aponta a pol\u00edcia.\u201cS\u00e3o traficantes que ao mesmo tempo participam da \u2018vida do crime\u2019 e da vida religiosa evang\u00e9lica, indo a cultos, pagando o d\u00edzimo e at\u00e9 mesmo pagando por apresenta\u00e7\u00f5es de artistas gospel na comunidade\u201d, afirma Kristina Hinz.Essa influ\u00eancia de religi\u00f5es sobre as din\u00e2micas de poder do tr\u00e1fico sempre existiu, dizem pesquisadores, e n\u00e3o \u00e9 algo particular ao protestantismo. Mas a convers\u00e3o de traficantes ao pentecostalismo \u00e9 um fen\u00f4meno que tem caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, em um pa\u00eds que caminha para ter maioria evang\u00e9lica na pr\u00f3xima d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais evang\u00e9licos \u2014 como o BrasilNos \u00faltimos 30 anos, a sociedade brasileira tem se tornado mais evang\u00e9lica como um todo \u2014 segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), o n\u00famero de evang\u00e9licos subiu 61% entre 2000 e 2010.Dados de 2020 de pesquisa feita pelo instituto Datafolha apontam que 31% da popula\u00e7\u00e3o era evang\u00e9lica nesta data, com cat\u00f3licos compondo 50%.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o crescimento continuar no ritmo atual, em 2030 os evang\u00e9licos chegar\u00e3o a 40% da popula\u00e7\u00e3o, segundo uma proje\u00e7\u00e3o do pesquisador Jos\u00e9 Eust\u00e1quio Diniz Alves, doutor em Demografia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).<\/p>\n\n\n\n<p>Para a popula\u00e7\u00e3o das favelas, as igrejas pentecostais passaram a ter uma import\u00e2ncia significativa. As redes evang\u00e9licas oferecem seguran\u00e7a e apoio material, espiritual e psicol\u00f3gico para os moradores, aponta a pesquisadora Christina Vital Cunha em Ora\u00e7\u00e3o de Traficante: uma etnografia.Foi neste contexto que se deu a aproxima\u00e7\u00e3o dos traficantes desta religi\u00e3o, diz o soci\u00f3logo Doriam Borges, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).\u201cEssa convers\u00e3o ocorreu tanto pelo fato de parte dos traficantes terem nascido em lares evang\u00e9licos ou por terem familiares religiosos, bem como por estarem internados no socioeducativo ou em pris\u00f5es e terem sido alvo dos projetos mission\u00e1rios evang\u00e9licos nessas institui\u00e7\u00f5es\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Manuten\u00e7\u00e3o do poderNesta uni\u00e3o do tr\u00e1fico com a religi\u00e3o, doutrinas neopentecostais se misturam \u00e0s estruturas de poder das fac\u00e7\u00f5es.Em muitos locais, como no Complexo de Israel, por exemplo, ela \u00e9 \u201cdecisiva para a governan\u00e7a e a manuten\u00e7\u00e3o do poder de grupos criminosos\u201d, diz Kristina Hinz.\u201cA apropria\u00e7\u00e3o pelo tr\u00e1fico da gram\u00e1tica de guerra reconhecida nas favelas e empregada por algumas igrejas neopentecostais proporciona uma narrativa de legitimidade religiosa para a expans\u00e3o violenta do territ\u00f3rio\u201d, afirma a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora afirma que, na competi\u00e7\u00e3o pelo mercado de venda de drogas, a adapta\u00e7\u00e3o de uma linguagem e de s\u00edmbolos familiares para a popula\u00e7\u00e3o permite que os traficantes apresentem \u201cconfrontos armados com grupos concorrentes de tr\u00e1fico de drogas como \u2018guerra espiritual\u2019 ou mesmo como uma \u2018guerra santa\u2019 contra dem\u00f4nios e inimigos religiosos\u201d.O chefe do tr\u00e1fico no Complexo de Israel \u00e9 tamb\u00e9m um dos l\u00edderes do Terceiro Comando Puro (TCP), segundo a pol\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>O TCP \u00e9 hoje o terceiro maior grupo armado do Rio, atr\u00e1s das mil\u00edcias e do Comando Vermelho (CV), de acordo com o estudo Mapa dos Grupos Armados do Instituto Fogo Cruzado e do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, da Universidade Federal Fluminense (UFF).O complexo faz parte do territ\u00f3rio do TCP, que \u00e9 um rival hist\u00f3rico do CV. Na disputa por territ\u00f3rios, o TCP fez alian\u00e7as com mil\u00edcias, apontam as pesquisas de Hinz e Borges.Os especialistas afirmam ainda que as estrelas de David no Complexo de Israel ou a picha\u00e7\u00e3o \u201cJesus \u00e9 o dono do lugar\u201d em um terreiro de umbanda destru\u00eddo por traficantes s\u00e3o mais do que s\u00edmbolos religiosos.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o uma \u201cforma de delimitar espa\u00e7os de poder e de dom\u00ednio do tr\u00e1fico nos territ\u00f3rios\u201d, como aponta Hinz.\u201cQuando esses traficantes evang\u00e9licos ordenam o fechamento de terreiros, al\u00e9m do racismo e intoler\u00e2ncia religiosa, est\u00e3o demonstrando seu poder, for\u00e7a e dom\u00ednio no territ\u00f3rio. Ou seja, esse grupo de traficantes utiliza a gram\u00e1tica evang\u00e9lica como instrumento de domina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o residente nas favelas.\u201dNo entanto, Vital Cunha pontua que nem sempre o fato de um traficante ser evang\u00e9lico resulta na retirada de santos cat\u00f3licos ou na persegui\u00e7\u00e3o de religi\u00f5es de matriz africana.Ela descreve em sua pesquisa casos em que os pr\u00f3prios moradores fazem esse tipo de constrangimento e intoler\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>e como pesquisadora eu estou descrevendo um fen\u00f4meno, n\u00e3o fazendo uma an\u00e1lise teol\u00f3gica se a pessoa realmente \u00e9 convertida.\u201dO TCP \u00e9 conhecido pelos desaparecimentos de pessoas que se op\u00f5em \u00e0 fac\u00e7\u00e3o, de acordo com a pol\u00edcia.Desde antes da cria\u00e7\u00e3o do Complexo de Israel, moradores relatam \u00e0 imprensa desaparecimentos de familiares e amigos em favelas dominadas pela fac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas n\u00e3o procuram a pol\u00edcia nem relatam oficialmente os desaparecimentos por medo, segundo observadores de centros de pesquisa sobre viol\u00eancia.Em alguns lugares, no entanto, alguns traficantes evang\u00e9licos t\u00eam um grande respeito por pastores de igrejas nas favelas que dizem n\u00e3o aos grupos armados, diz Costa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cS\u00e3o considerados verdadeiros homens santos, porque realmente aderiram ao caminho correto\u201d, afirma.Vital Cunha, uma das primeiras pesquisadoras a estudar o tema, descreve em seu trabalho como notou a aproxima\u00e7\u00e3o de traficantes e pastores em busca de prote\u00e7\u00e3o espiritual.<\/p>\n\n\n\n<p>Na favela do Acari e de Santa Marta, descreve ela em seu trabalho, o r\u00e1dio de comunica\u00e7\u00e3o dos traficantes apitava todos os dias \u00e0s 5h30 com uma ora\u00e7\u00e3o do chefe do tr\u00e1fico.Ele falava ao mesmo tempo com Deus, pedindo prote\u00e7\u00e3o, e dava orienta\u00e7\u00e3o, pedindo para os subordinados matarem menos e dizendo para os l\u00edderes comunit\u00e1rios cuidarem das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8216;Narcoreligi\u00e3o&#8217;A pesquisadora Viviane Costa, no entanto, \u00e9 contra falar em \u201cnarcopentecostalismo\u201d. Ela diz que isso passaria a ideia de que a religi\u00e3o s\u00f3 passou a ser um fator importante na din\u00e2mica de poder do tr\u00e1fico com o surgimento dos traficantes evang\u00e9licos.Na realidade, diz ela, \u201ca religi\u00e3o est\u00e1 presente na din\u00e2mica do tr\u00e1fico desde a sua g\u00eanese&#8221;. Ela defende que o mais correto seria falar em &#8220;narcoreligi\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, as fac\u00e7\u00f5es do narcotr\u00e1fico eram amplamente associadas a religi\u00f5es afro-brasileiras como o candombl\u00e9 e a umbanda, diz Doriam Borges.Isso foi, inclusive, retratado no cinema: a passagem no filme Cidade de Deus em que o traficante muda de nome ap\u00f3s ter o corpo fechado em um ritual religioso \u00e9 uma das mais conhecidas.\u201cDadinho \u00e9 o c*, meu nome \u00e9 Z\u00e9 Pequeno!\u201d, diz o personagem, antes de atirar em outra pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Os traficantes constru\u00edam murais e altares em seus territ\u00f3rios, destaca Costa.\u201cEm alguns casos, quando um traficante derrubava um chefe do tr\u00e1fico ou quando ia conquistar um outro territ\u00f3rio, a divindade do traficante que tinha sido derrotada tamb\u00e9m abria lugar para a divindade do que assumia. Ou seja, o elemento religioso j\u00e1 fazia parte da din\u00e2mica de poder.\u201dReportagens do jornal O Globo na d\u00e9cada de 1990 descrevem casos de imagens de entidades e de santos decapitadas durante disputadas armadas \u2014 algo que acontecia pela m\u00e3o dos traficantes rivais e tamb\u00e9m da pol\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>O preconceito contra as religi\u00f5es afro-brasileiras j\u00e1 era presente desde ent\u00e3o, explica Borges.\u201cAs religi\u00f5es afro brasileiras, desde suas origens, t\u00eam sido estigmatizadas. E os traficantes vinculados a essas religi\u00f5es eram os personagens perfeitos usados pela sociedade e pelo Estado, em especial as pol\u00edcias, para a vincula\u00e7\u00e3o desse grupo com o Diabo, com o mal.\u201dSegundo o pesquisador, esses s\u00edmbolos religiosos eram frequentemente destru\u00eddos durante as opera\u00e7\u00f5es policiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Ora\u00e7\u00e3o de Traficante, Vital Cunha descreve como as pinturas de santos e entidades do candombl\u00e9 passaram lentamente a ser substitu\u00eddas por trechos b\u00edblicos na favela de Acari, no Rio de Janeiro, onde ela passou mais de uma d\u00e9cada fazendo pesquisa.Ou seja, a din\u00e2mica religiosa, que j\u00e1 existia, passou a ser modificada para incorporar a cultura neopentecostal que surgia.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a cria\u00e7\u00e3o do Complexo de Israel \u00e9 exemplo dos contornos que essa rela\u00e7\u00e3o entre tr\u00e1fico e religi\u00e3o assumiu, diz Kristina Hinz.Exemplo, ali\u00e1s, que \u00e9 copiado por outros traficantes: segundo a Pol\u00edcia Civil, o chefe do tr\u00e1fico de uma favela em Madureira, na Zona Norte do Rio, pretende tomar os territ\u00f3rios de rivais para criar uma grande \u00e1rea sob seu dom\u00ednio que chamaria \u201cComplexo de Jerusal\u00e9m\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os traficantes que dominam as favelas de Parada de Lucas, Vig\u00e1rio Geral e outras tr\u00eas comunidades na Zona Norte do Rio de Janeiro elegeram refer\u00eancias b\u00edblicas como seus principais s\u00edmbolos. 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