{"id":40397,"date":"2022-10-11T10:55:15","date_gmt":"2022-10-11T13:55:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=40397"},"modified":"2022-10-11T10:55:15","modified_gmt":"2022-10-11T13:55:15","slug":"pesquisadoras-da-uel-investigam-macacos-prego-que-usam-pedras-como-ferramentas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2022\/10\/11\/pesquisadoras-da-uel-investigam-macacos-prego-que-usam-pedras-como-ferramentas\/","title":{"rendered":"Pesquisadoras da UEL investigam macacos-prego que usam pedras como ferramentas"},"content":{"rendered":"\n<p>Pesquisadoras do Laborat\u00f3rio de Ecologia e Comportamento Animal, do Centro de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas (CCB) da&nbsp;<strong><a href=\"https:\/\/portal.uel.br\/home\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Universidade Estadual de Londrina (UEL)<\/a><\/strong>, est\u00e3o estudando um grupo de macacos-prego (<em>Sapajus nigritus<\/em>) que utilizam ferramentas (rochas) para auxiliar na alimenta\u00e7\u00e3o, comportamento habitual em alguns grupos, por\u00e9m in\u00e9dito nesta esp\u00e9cie em quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo ocupa um resqu\u00edcio de Mata Atl\u00e2ntica existente no Parque Municipal Arthur Thomas, na Regi\u00e3o Leste de Londrina, onde foram identificados at\u00e9 agora 205 s\u00edtios de quebra, ou seja, locais onde os animais costumam levar frutos, sementes e rochas para as refei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagens feitas por pesquisadores demonstram que os animais utilizam cascalhos e rochedos de v\u00e1rios tamanhos para quebrar, por exemplo, sementes de palmeira, encontradas em quantidade nos mais de 80 hectares do parque. A dieta dos animais tamb\u00e9m inclui plantas, ra\u00edzes, folhas e pequenos vertebrados. Os pesquisadores conseguiram filmar os animais em a\u00e7\u00e3o, inclusive carregando pedras equivalentes ao peso corp\u00f3reo, o que evidencia a habilidade e a clara inten\u00e7\u00e3o de quebrar os frutos para chegar \u00e0 semente.<\/p>\n\n\n\n<p>O comportamento do grupo \u00e9 tema da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado da bi\u00f3loga Julia dos Santos Gutierrez, do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas (PPGCB), orientada pela professora Ana Paula Vidotto Magnoni, que coordena o Laborat\u00f3rio de Ecologia e Comportamento Animal. Segundo o estudo, o uso de ferramentas por macacos \u00e9 vastamente documentado em outras esp\u00e9cies de primatas, seja para escava\u00e7\u00e3o, sondagem ou quebra de frutos \u2013 o mais comum.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>HIST\u00d3RICO&nbsp;<\/strong>\u2013 A descoberta do comportamento deste grupo do Parque Arthur Thomas data de 1998, quando foram desenvolvidos os primeiros estudos com estes animais, no CCB. A pesquisa mais recente joga luz a evid\u00eancias levantadas anteriormente, com riqueza de detalhes e rigor cient\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora constatou o comportamento em observa\u00e7\u00f5es e filmagens, conseguindo identificar os s\u00edtios, que trazem marcas, ferramentas e fragmentos de sementes processadas. A pesquisa identificou a princ\u00edpio tr\u00eas esp\u00e9cies vegetais distintas \u2013 maca\u00faba (<em>Acrocomia aculeata<\/em>), jeriv\u00e1 (<em>Syagrus romanzoffiana<\/em>) e amendoeira ou sete-copas (<em>Terminalia catappa<\/em>). Para ela, o estudo nessa popula\u00e7\u00e3o \u00e9 importante por ser a \u00fanica da esp\u00e9cie em que h\u00e1 registro de uso espont\u00e2neo de ferramentas de quebra.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a professora Ana Paula, conhecer o comportamento de grupos de macacos ajuda a compreender melhor a pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana. Ela explica que o macaco-prego, em especial, tem uma propor\u00e7\u00e3o entre volume cerebral e tamanho corporal alta, atr\u00e1s apenas da esp\u00e9cie humana. \u201cDessa forma, n\u00e3o \u00e9 surpresa que os animais busquem alternativas para auxiliar ou facilitar a alimenta\u00e7\u00e3o\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro fato que evidencia a import\u00e2ncia do estudo desse grupo \u00e9 que os macacos-prego s\u00e3o encontrados na Am\u00e9rica do Sul. V\u00e1rios grupos de pesquisadores t\u00eam desenvolvido estudos para compreender melhor o comportamento desses animais, t\u00e3o curiosos quanto inteligentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a professora, outro estudo muito parecido feito por pesquisadores do Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), com macacos-prego que habitam o cerrado e a caatinga, demonstrou habilidade semelhante. Os animais tamb\u00e9m usam pedras para quebrar frutos e sementes. Acreditava-se que as ferramentas serviam para facilitar a alimenta\u00e7\u00e3o em locais onde n\u00e3o existia abund\u00e2ncia de frutas e sementes. O caso do grupo do Parque Arthur Thomas, de Londrina, derruba essa hip\u00f3tese.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cApesar da mata estar em um fragmento urbano e em um ambiente alterado, existe abund\u00e2ncia de alimentos\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Ana Paula, o estudo das habilidades das v\u00e1rias esp\u00e9cies de macacos demonstraram que estes animais t\u00eam intencionalidade nas atitudes. E que, em nome disso, desenvolvem habilidades como coordena\u00e7\u00e3o motora, equil\u00edbrio e for\u00e7a. Um exemplo \u00e9 o caso de um macaco-prego do grupo do Arthur Thomas, flagrado levantando uma pedra de mais de 3,5 quilos \u2013 praticamente o peso do seu corpo. \u201cAs imagens deixam claro que se trata de um animal com grande no\u00e7\u00e3o corporal, que sabe como empregar a for\u00e7a\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>INTERC\u00c2MBIO&nbsp;<\/strong>\u2013&nbsp;O caso dos animais de Londrina chamou a aten\u00e7\u00e3o de uma das maiores autoridades no estudo do comportamento de primatas. A pesquisadora Jessica Ward Lynch, do&nbsp;Institute for Society and Genetics and Departament of Anthropology, da Universidade da Calif\u00f3rnia em Los Angeles (UCLA), nos Estados Unidos, estar\u00e1 na cidade a partir de 28 de outubro para participar de uma observa\u00e7\u00e3o&nbsp;in loco&nbsp;dos animais.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de vir para ver de perto o grupo de macacos-prego, a professora norte-americana ser\u00e1 a convidada para uma palestra direcionada a estudantes e pesquisadores sobre o trabalho que desenvolve com primatas. A confer\u00eancia integra as comemora\u00e7\u00f5es do anivers\u00e1rio de 50 anos do Curso de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas da UEL. O evento ser\u00e1 no dia 31 de outubro, \u00e0s 17 horas, no Anfiteatro Cyro Grossi. Ainda no Paran\u00e1, ela participar\u00e1 do 39\u00ba Encontro Anual de Etologia, que ser\u00e1 realizado de 1\u00ba a 4 de novembro, em Curitiba.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CENSO&nbsp;<\/strong>\u2013 Em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, Julia aborda que o uso de ferramentas ocorre em diferentes grupos de primatas. Existem registros em chimpanz\u00e9s, gorilas, macacos de cauda longa e macacos-prego. Segundo o estudo, a massa corporal dos macacos \u00e9 um fator que influencia na efici\u00eancia do uso de ferramentas. Indiv\u00edduos com maior massa corporal, que na maioria s\u00e3o os machos, s\u00e3o capazes de utilizar ferramentas mais pesadas e produzir batidas mais eficazes. As rochas utilizadas para quebra de sementes e frutos podem variar em rela\u00e7\u00e3o ao tamanho e peso, podendo ter at\u00e9 mais de 1 kg, material pesado para um animal com menos de 4 kg.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de mapear e levantar em detalhes os h\u00e1bitos alimentares dos macacos que habitam o Parque Arthur Thomas, a mestranda pretende quantificar e identificar todos os exemplares do grupo. Trabalho semelhante foi feito no c\u00e2mpus da UEL, onde um grupo de 38 primatas ocupa atualmente a mata e resqu\u00edcios de fragmentos existentes nos mais de 150 hectares de \u00e1rea. A contagem prev\u00ea um censo para levantar exatamente quantos macacos existem no grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das hip\u00f3teses \u00e9 que nem todos os primatas utilizem pedras para quebrar frutos e sementes, uma t\u00e9cnica que, como est\u00e1 descrito no estudo, depende da habilidade que os indiv\u00edduos possuem em desenvolver novas tradi\u00e7\u00f5es aliada \u00e0 disponibilidade de recursos no meio.<\/p>\n\n\n\n<p>AEN<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadoras do Laborat\u00f3rio de Ecologia e Comportamento Animal, do Centro de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas (CCB) da&nbsp;Universidade Estadual de Londrina (UEL), est\u00e3o estudando um grupo de macacos-prego (Sapajus nigritus) que utilizam ferramentas (rochas) para auxiliar na alimenta\u00e7\u00e3o, comportamento habitual em alguns grupos, por\u00e9m in\u00e9dito nesta esp\u00e9cie em quest\u00e3o. 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