{"id":38524,"date":"2022-07-06T13:58:49","date_gmt":"2022-07-06T16:58:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=38524"},"modified":"2022-07-06T13:58:51","modified_gmt":"2022-07-06T16:58:51","slug":"como-freud-criou-um-dos-maiores-mitos-sobre-o-orgasmo-feminino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2022\/07\/06\/como-freud-criou-um-dos-maiores-mitos-sobre-o-orgasmo-feminino\/","title":{"rendered":"Como Freud criou um dos maiores mitos sobre o orgasmo feminino"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>No mesmo ano em que o alem\u00e3o Albert Einstein (1879-1955) publicou sua inovadora Teoria Especial da Relatividade (ou Teoria da Relatividade Restrita), o austr\u00edaco Sigmund Freud (1856-1939) lan\u00e7ou sua teoria do orgasmo feminino.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A do pai da f\u00edsica moderna revolucionou nossa compreens\u00e3o do cosmos; a do pai da psican\u00e1lise desencadeou uma tempestade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua obra &#8220;Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade&#8221; \u2014 publicada em 1905 e revisada v\u00e1rias vezes at\u00e9 sua edi\u00e7\u00e3o final em 1925 \u2014 ele decretou que o prazer e o orgasmo feminino de uma mulher madura e saud\u00e1vel estavam centrados na vagina.<\/p>\n\n\n\n<p>Freud sabia muitas mulheres gozavam atrav\u00e9s de um \u00f3rg\u00e3o pequeno, mas ultra-sens\u00edvel, conhecido como clit\u00f3ris.<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo 19, v\u00e1rios especialistas homens haviam debatido o papel que o clit\u00f3ris deveria desempenhar na sexualidade feminina, entre outros motivos, porque muitos estavam preocupados que sua manipula\u00e7\u00e3o pudesse levar as mulheres a excessos, como masturba\u00e7\u00e3o compulsiva ou ninfomania, ou \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Freud, esses orgasmos clitorianos eram imaturos, infantis e evid\u00eancia de um dist\u00farbio mental.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Por-qu\u00ea\">Por qu\u00ea?<\/h2>\n\n\n\n<p>O austr\u00edaco explicou que, ao contr\u00e1rio dos homens que desde a inf\u00e2ncia tinham a mesma zona er\u00f3gena orientadora \u2014 a glande, as mulheres come\u00e7aram a vida tendo o clit\u00f3ris como sua zona er\u00f3gena orientadora, mas &#8220;no processo pelo qual uma menina se torna mulher&#8221;, ela acaba sendo transferida para a vagina.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Muitas vezes leva algum tempo para que a transfer\u00eancia ocorra. Durante esse tempo, a jovem fica anestesiada (fr\u00edgida, entorpecida)&#8221;, disse ele.<\/p>\n\n\n\n<p>E acrescentou: &#8220;Nesta mudan\u00e7a da zona er\u00f3tica orientadora, (&#8230;) residem as principais condi\u00e7\u00f5es da propens\u00e3o das mulheres \u00e0s neuroses, em particular \u00e0 histeria&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/14F1D\/production\/_125698758_default-1.jpg\" alt=\"(Sistema reprodutor feminino com detalhe mostrando o clit\u00f3ris em 1827)\"\/><figcaption>Legenda da foto,Textos de anatomia do in\u00edcio do s\u00e9culo 19 notaram a exist\u00eancia do clit\u00f3ris, mas acreditavam que n\u00e3o era importante para a express\u00e3o sexual feminina (Sistema reprodutor feminino com detalhe mostrando o clit\u00f3ris em 1827)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Se uma mulher n\u00e3o movia seu centro de sensibilidade para a vagina, ela era rotulada de fr\u00edgida.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse diagn\u00f3stico de frigidez, definido como aus\u00eancia de orgasmo durante a rela\u00e7\u00e3o sexual, tornou-se o padr\u00e3o para definir a heterossexualidade feminina normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Marie Bonaparte, bisneta de Napole\u00e3o e disc\u00edpula freudiana que ajudou a introduzir a psican\u00e1lise na Fran\u00e7a, ficou t\u00e3o fascinada com a teoria de seu professor que passou por tr\u00eas cirurgias para aproximar o clit\u00f3ris da vagina na esperan\u00e7a de remediar sua incapacidade de ter um orgasmo vaginal &#8220;adequado&#8221;, embora Freud lhe implorado para n\u00e3o realizar os procedimentos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Revela\u00e7\u00f5es-\u00edntimas\">Revela\u00e7\u00f5es \u00edntimas<\/h2>\n\n\n\n<p>O ponto de vista freudiano dominou o pensamento m\u00e9dico e psicanal\u00edtico por d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado, in\u00fameras mulheres que tiveram dificuldade em atingir o orgasmo ao serem penetradas durante o sexo (apesar de n\u00e3o t\u00ea-lo ao se masturbar) foram levadas a acreditar que seus orgasmos n\u00e3o eram &#8220;reais&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/11101\/production\/_125698896_gettyimages-56466235-1.jpg\" alt=\"Detalhe da primeira edi\u00e7\u00e3o de 'Tr\u00eas Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade'\"\/><figcaption>Legenda da foto,Detalhe da primeira edi\u00e7\u00e3o de &#8216;Tr\u00eas Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade&#8217;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1950, os resultados da pesquisa do sex\u00f3logo americano Alfred Kinsey (1894-1956) sobre o orgasmo feminino desafiaram a ortodoxia freudiana.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado de entrevistas com mais de 18,6 mil homens e mulheres, nas quais eles revelaram seus segredos sexuais mais \u00edntimos, Kinsey descobriu que a grande maioria das mulheres que se masturbava usava estimula\u00e7\u00e3o do clit\u00f3ris.<\/p>\n\n\n\n<p>Menos de 20% inclu\u00edram alguma forma de penetra\u00e7\u00e3o vaginal e s\u00f3 porque sentiram terem que faz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Kinsey concluiu que a insist\u00eancia em um orgasmo vaginal era um reflexo da presun\u00e7\u00e3o dos homens &#8220;quanto \u00e0 import\u00e2ncia da genit\u00e1lia masculina&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a publica\u00e7\u00e3o de seu livro &#8220;Comportamento Sexual em Mulheres&#8221; em 1953 foi recebida com tamanha rejei\u00e7\u00e3o que o conte\u00fado do trabalho foi rapidamente suprimido.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, nem isso nem a confronta\u00e7\u00e3o direta dos americanos William Masters e Virginia Johnson (casal de ginecologistas que ajudou a detonar a revolu\u00e7\u00e3o sexual dos anos 60) \u00e0s opini\u00f5es de Freud sobre a frigidez em 1957 mudaram muito a situa\u00e7\u00e3o das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Seriam elas mesmas que se encarregariam de desafi\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>O freudismo foi um dos principais alvos das escritoras do movimento das mulheres; ele foi atacado como sexista pela francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) em &#8220;O Segundo Sexo&#8221; (1949), pela americana Betty Friedan (1921-2006) em &#8220;A M\u00edstica Feminina&#8221; (1963) e pela tamb\u00e9m americana Kate Millett (1934-2017) em &#8220;A Pol\u00edtica Sexual&#8221; (1970).<\/p>\n\n\n\n<p>Feministas como as francesas Monique Wittig (1935-2003) e Luce Irigaray denunciaram a obsess\u00e3o de Freud pelo prazer feminino atrav\u00e9s da vagina como um estratagema para subjugar as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>E a americana Anne Koedt, em seu artigo &#8220;O Mito do Orgasmo Vaginal&#8221; (1968), argumentou que os orgasmos clit\u00f3ricos eram, de fato, a \u00fanica maneira pela qual as mulheres podiam atingir o orgasmo verdadeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele postulou que a alta taxa de &#8220;frigidez feminina&#8221; era, na verdade, uma alta taxa de ignor\u00e2ncia dos homens sobre a anatomia do orgasmo feminino e o desejo de reduzir as mulheres a pap\u00e9is sociais e sexuais prescritos.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas outras expoentes dessa onda de feminismo exploraram a rela\u00e7\u00e3o entre sexualidade e domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se para Freud o sexo era a chave para compreender o homem, para aquela legi\u00e3o de mulheres era a chave para libert\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Continente-negro\">&#8216;Continente negro&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>O orgasmo vaginal voltou \u00e0 moda com a &#8220;descoberta&#8221; do ponto G, uma esp\u00e9cie de &#8220;bot\u00e3o de prazer&#8221; er\u00f3tico descrito pela primeira vez em 1953 por um m\u00e9dico alem\u00e3o chamado Ernst Gr\u00e4nfenberg (eis por que \u00e9 chamado ponto G) e popularizado em 1982 com o best-seller &#8220;Ponto G&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/4195\/production\/_125698761_gettyimages-465584700.jpg\" alt=\"&quot;Um orgasmo n\u00e3o \u00e9 um pr\u00eamio&quot;, diz o cartaz da Marcha Mundial das Mulheres em 2015\"\/><figcaption>Legenda da foto,&#8221;Um orgasmo n\u00e3o \u00e9 um pr\u00eamio&#8221;, diz o cartaz da Marcha Mundial das Mulheres em 2015<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A exist\u00eancia dessa \u00e1rea er\u00f3gena que supostamente estaria na parede vaginal anterior \u00e9 aceita entre a popula\u00e7\u00e3o, mas controversa na literatura m\u00e9dica.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pesquisa recente intitulada &#8220;Ponto G: Fato ou Fic\u00e7\u00e3o?: Uma Revis\u00e3o Sistem\u00e1tica&#8221; examinou 31 estudos e observou que alguns concordavam consistentemente com a exist\u00eancia do ponto G, mas n\u00e3o havia acordo sobre sua localiza\u00e7\u00e3o, tamanho ou natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A exist\u00eancia dessa estrutura continua sem comprova\u00e7\u00e3o&#8221;, concluiu.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 em 2014, o endocrinologista e sex\u00f3logo Emmanuel Janni, da Universidade Tor Vergata, em Roma, havia divulgado descobertas visando p\u00f4r fim \u00e0s discuss\u00f5es sobre o &#8220;assustador ponto G&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O prazer feminino, como sua pesquisa mostrou, n\u00e3o era exclusivamente vaginal ou clitoriano, mas estava englobado no que \u00e9 conhecido como complexo clitoruretrovaginal, o conceito de que a rela\u00e7\u00e3o din\u00e2mica dentro da vagina, clit\u00f3ris e uretra pode estimular a libera\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>A ci\u00eancia tamb\u00e9m descobriu que a capacidade de atingir o orgasmo depende da neurologia.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da luta pela liberta\u00e7\u00e3o feminina e pesquisas cient\u00edficas, estudos constataram que as mulheres heterossexuais s\u00e3o o grupo demogr\u00e1fico com menos orgasmos durante a rela\u00e7\u00e3o sexual, o que pode ser devido \u00e0 falta de compreens\u00e3o sobre a anatomia feminina.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e9cadas ap\u00f3s ser postulada, ainda permanecem resqu\u00edcios da desacreditada teoria de Freud, que por tanto tempo permeou a percep\u00e7\u00e3o da sexualidade feminina, embora ele pr\u00f3prio aparentemente aceite que n\u00e3o a compreendia de verdade, descrevendo-a de &#8220;continente negro&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No mesmo ano em que o alem\u00e3o Albert Einstein (1879-1955) publicou sua inovadora Teoria Especial da Relatividade (ou Teoria da Relatividade Restrita), o austr\u00edaco Sigmund Freud (1856-1939) lan\u00e7ou sua teoria do orgasmo feminino. 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