{"id":38466,"date":"2022-06-29T10:36:00","date_gmt":"2022-06-29T13:36:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=38466"},"modified":"2022-07-04T10:39:11","modified_gmt":"2022-07-04T13:39:11","slug":"bombeiro-que-evitou-57-suicidios-cria-tecnica-agora-usada-em-20-estados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2022\/06\/29\/bombeiro-que-evitou-57-suicidios-cria-tecnica-agora-usada-em-20-estados\/","title":{"rendered":"Bombeiro que evitou 57 suic\u00eddios cria t\u00e9cnica agora usada em 20 Estados"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Em 2005, na avenida Campanella, na zona leste de S\u00e3o Paulo, o major Di\u00f3genes Munhoz, que faz parte do Corpo de Bombeiros de S\u00e3o Paulo, atendia a uma ocorr\u00eancia relativamente comum para sua equipe \u2014 uma pessoa havia subido em uma torre de transmiss\u00e3o de sinal de celular com a inten\u00e7\u00e3o de cometer suic\u00eddio.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Poderia ser o fim de uma vida, mas n\u00e3o foi. O &#8220;tentante&#8221;, como o major explica que \u00e9 correto chamar quem antes era designado como &#8220;suicida&#8221;, desistiu, e o epis\u00f3dio acabou dando a Munhoz uma ideia que salvaria, a partir dali, muitas outras vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Percebi que ainda que a pessoa desistisse do ato, n\u00e3o tinha um desfecho necessariamente positivo. N\u00f3s \u2014 e digo n\u00e3o s\u00f3 minha equipe, mas tamb\u00e9m policiais militares e profissionais do SAMU, que tamb\u00e9m atendem esses casos \u2014 n\u00e3o t\u00ednhamos instru\u00e7\u00f5es para nos importarmos com aquela pessoa a fundo. Era tratado simplesmente como um chamado: voc\u00ea distra\u00eda a pessoa e a agarrava, para acabar com a ocorr\u00eancia. N\u00e3o se importava com o que aconteceria depois&#8221;, conta Munhoz.<\/p>\n\n\n\n<p>Outras op\u00e7\u00f5es usadas pelas equipes de emerg\u00eancia eram mangueiras de \u00e1gua com pot\u00eancia forte e tiros de taser (que causa choques), que tinham como objetivo afastar o tentante do perigo, mas na avalia\u00e7\u00e3o do major, s\u00f3 agravavam a situa\u00e7\u00e3o, sem oferecer qualquer acolhimento \u00e0 pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela torre do bairro Vila Campanela, o profissional ficou com a pessoa em risco por seis horas. Nos primeiros trinta minutos, era o major do corpo de bombeiros de S\u00e3o Paulo e um tentante.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Depois, eu passei a conhecer aquele homem. Ingressei em seu mundo e na sua hist\u00f3ria, e eu come\u00e7o a compreender que ele tem uma vida repleta de sofrimentos, ang\u00fastias, e tamb\u00e9m de vit\u00f3rias. Depois de uma hora ali em cima, a \u00faltima coisa que eu gostaria \u00e9 que o Alcides (nome fict\u00edcio) morresse.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Munhoz procurou o CVV (Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida), ferramenta p\u00fablica que realiza apoio emocional e preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio. L\u00e1, teve as primeiras li\u00e7\u00f5es sobre acolhimento, escuta compassiva, e come\u00e7ou a ler e a escrever sobre o tema, e a participar de simp\u00f3sios e palestras.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram dez anos de estudo at\u00e9 que o major criasse uma t\u00e9cnica humanizada para assist\u00eancia a pessoas que tentassem tirar a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base em pesquisa e experi\u00eancia, montou, como seu projeto de mestrado, um curso que hoje j\u00e1 \u00e9 aplicado em servi\u00e7os de emerg\u00eancia p\u00fablico de 20 Estados brasileiros e \u00e9 aberto a profissionais de outras \u00e1reas, como m\u00e9dicos, psic\u00f3logos, e outras profiss\u00f5es que lidem com o tema diretamente ou indiretamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Di\u00f3genes Munhoz evitou, diretamente, o suic\u00eddio de 57 pessoas \u2014 e estima que esse n\u00famero tenha sido significativamente maior por meio de outros profissionais que utilizam a t\u00e9cnica de humaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vi a face da morte 57 vezes e garanto que ela n\u00e3o \u00e9 bonita. Ela \u00e9 triste, cinza, opaca e a gente precisa estar l\u00e1 para acolher e abra\u00e7ar essa pessoa. Ajudar a fazer com que esta pessoa entenda que existem fatores de prote\u00e7\u00e3o que podem ajud\u00e1-la a dar prosseguimento \u00e0 vida, e que ela n\u00e3o consegue enxergar a luz do final do t\u00fanel simplesmente porque n\u00e3o passou do meio do t\u00fanel.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Apesar de eu ter dado o pontap\u00e9 inicial, o curso s\u00f3 se tornou poss\u00edvel porque contei com a ajuda de muitos profissionais. Sempre digo que o p\u00f3dio \u00e9 solid\u00e1rio, n\u00e3o solit\u00e1rio.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>No 2\u00ba semestre, a t\u00e9cnica vai ser exportada para fora de Brasil. Uma equipe do Corpo de Bombeiros de Portugal receber\u00e1 o treinamento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"O-que-\u00e9-oferecido-no-curso-\">O que \u00e9 oferecido no curso<\/h2>\n\n\n\n<p>S\u00e3o 40 horas de aula divididas em um per\u00edodo de uma semana, e que passam por sete t\u00f3picos, incluindo o hist\u00f3rico da abordagem t\u00e9cnica, estat\u00edsticas do pa\u00eds, aspectos t\u00e9cnicos e fases da abordagem de dissuas\u00e3o, diferen\u00e7as entre grupos de tentantes, preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio e um m\u00f3dulo mais amplo, sobre sa\u00fade mental.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quem passa pelo treinamento aprende, entre outras coisas, a distinguir os tipos de tentantes, que s\u00e3o classificados entre agressivos, psic\u00f3ticos ou depressivos. Existem sete ferramentas de linguagem e sinais corporais que o abordador pode utilizar. A grande &#8216;sacada&#8217; da t\u00e9cnica \u00e9 que n\u00e3o vou falar com depressivo da mesma forma, com os mesmos gestos, que faria ao abordar uma pessoa psic\u00f3tica&#8221;, aponta Munhoz.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra mudan\u00e7a que ocorreu ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o do curso \u00e9 o encaminhamento do tentante. Antes, a pessoa era levada ao pronto-socorro mais pr\u00f3ximo. Na maioria das vezes, n\u00e3o era atendida por um psiquiatra, mas por um cl\u00ednico geral.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, prev\u00ea-se o encaminhamento para o CAPS (Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial) e a possibilidade de interna\u00e7\u00e3o. &#8220;Quando essa pessoa era s\u00f3 medicada e liberada, s\u00e3o grandes as chances de ela tentar suic\u00eddio de novo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O major \u00e9 doutorando em sa\u00fade mental no Centro de Altos Estudos de Seguran\u00e7a da PMESP (Pol\u00edcia Militar do Estado de S\u00e3o Paulo), e atualmente e sua pesquisa \u00e9 focada nos resultados que a t\u00e9cnica j\u00e1 alcan\u00e7ou no Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os levantamentos apontam um ganho de ao menos 23%. Se salvarmos uma vida, toda uma carreira j\u00e1 estaria paga. \u00c9 s\u00f3 perguntar para a m\u00e3e daquela pessoa. Mas 20% de ganho, em um estado que registra 2.500 ocorr\u00eancias por ano, de acordo com o Corpo de Bombeiros (sem levar em conta as ocorr\u00eancias anotadas pela pol\u00edcia militar e SAMU), \u00e9 algo muito significativo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Em duas ocasi\u00f5es, Munhoz foi procurado posteriormente por pessoas que salvou. &#8220;J\u00e1 teve um rapaz que era cientista, que me escreveu nas redes sociais. E em uma palestra, quando eu acabei a palestra, um rapaz se levantou, fez um discurso e findou dizendo que estava ali s\u00f3 porque eu o tirei do lugar onde ele tentou o ato. Foi bem emocionante.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Depress\u00e3o-\u00e9-a-principal-causa-de-tentativa-de-suic\u00eddio-\">Depress\u00e3o \u00e9 a principal causa de tentativa de suic\u00eddio<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo a ABP (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psiquiatria), cerca de 97% dos suic\u00eddios t\u00eam liga\u00e7\u00e3o com transtornos mentais, especialmente a depress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a doen\u00e7a \u00e9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica. O pa\u00eds \u00e9 o quinto com maior incid\u00eancia, apresentando um n\u00famero de casos superior ao de diabetes, segundo Pesquisa Vigitel 2021, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, dados da ANS (Ag\u00eancia Nacional de Sa\u00fade Suplementar) apontam um aumento de 167% da utiliza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os relacionados \u00e0 sa\u00fade mental de 2011 a 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Em casos de depress\u00e3o resistente ao tratamento \u2014 quando h\u00e1 falha de dois tratamentos anteriores administrados em dose e tempo adequados \u2014 estima-se eleva\u00e7\u00e3o do risco de morte por suic\u00eddio em sete vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo estudo recente\u00a0publicado\u00a0na revista The Lancet, at\u00e9 80% das pessoas afetadas pela doen\u00e7a no mundo sequer t\u00eam um diagn\u00f3stico.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o levantamento realizado pelo Instituto Ipsos a pedido da Janssen, empresa farmac\u00eautica da Johnson &amp; Johnson, que ouviu 800 pessoas com ou sem rela\u00e7\u00e3o com a depress\u00e3o de 11 Estados brasileiros, revela que entre os diagnosticados entrevistados, o tempo m\u00e9dio para procurar ajuda foi de 39 meses (tr\u00eas anos e tr\u00eas meses).<\/p>\n\n\n\n<p>A demora ocorreu, principalmente, por falta de consci\u00eancia de se tratar de uma doen\u00e7a (18%), resist\u00eancia (13%) e medo do julgamento, rea\u00e7\u00e3o dos outros ou vergonha (13%).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Essa demora no tratamento para a depress\u00e3o pode trazer consequ\u00eancias devastadoras, como a cronifica\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, agravamento dos sintomas, diminui\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia dos tratamentos, perda de anos produtivos, impacto econ\u00f4mico e severa diminui\u00e7\u00e3o da produtividade, e todo um preju\u00edzo em seu conv\u00edvio familiar e social. A depress\u00e3o precisa ser levada \u00e0 s\u00e9rio&#8221;, afirma Cintia de Azevedo Marques P\u00e9rico, professora de psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC e integrante da Comiss\u00e3o de Emergenciais Psiqui\u00e1tricas da ABP (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psiquiatria).<\/p>\n\n\n\n<p>Dados da pesquisa da Janssen demonstram que ainda h\u00e1 falta de entendimento sobre sua gravidade e seu impacto na vida do paciente e de todos ao seu redor: apenas 10% acreditam que a depress\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a com base biol\u00f3gica (e repercuss\u00f5es f\u00edsicas no corpo). Outros 35% n\u00e3o acham que pode ser tratada com medicamento e 36% acreditam que para superar a doen\u00e7a \u00e9 preciso for\u00e7a de vontade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No senso comum, existe uma banaliza\u00e7\u00e3o daquilo que se entende por ser psicol\u00f3gico, com uma falsa ideia que n\u00e3o precisa de tratamento. No entanto, atualmente sabemos o quanto ter uma fun\u00e7\u00e3o ps\u00edquica alterada impacta no indiv\u00edduo como um todo. N\u00e3o tratar a depress\u00e3o como uma doen\u00e7a grave e que pode resultar em uma emerg\u00eancia psiqui\u00e1trica pode trazer s\u00e9rias consequ\u00eancias para os pacientes e para a pr\u00f3pria sociedade&#8221;, afirma P\u00e9rico.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2005, na avenida Campanella, na zona leste de S\u00e3o Paulo, o major Di\u00f3genes Munhoz, que faz parte do Corpo de Bombeiros de S\u00e3o Paulo, atendia a uma ocorr\u00eancia relativamente comum para sua equipe \u2014 uma pessoa havia subido em uma torre de transmiss\u00e3o de sinal de celular com a inten\u00e7\u00e3o de cometer suic\u00eddio. 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