{"id":36988,"date":"2022-04-05T10:24:17","date_gmt":"2022-04-05T13:24:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=36988"},"modified":"2022-04-05T10:24:21","modified_gmt":"2022-04-05T13:24:21","slug":"unioeste-forma-a-primeira-estudante-de-medicina-com-tetraparesia-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2022\/04\/05\/unioeste-forma-a-primeira-estudante-de-medicina-com-tetraparesia-do-brasil\/","title":{"rendered":"Unioeste forma a primeira estudante de Medicina com tetraparesia do Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>O olhar ganhou significados in\u00e9ditos para Elaine Luzia dos Santos, 33 anos, estudante de Medicina da&nbsp;Universidade Estadual do Oeste do Paran\u00e1 (Unioeste), ap\u00f3s&nbsp;um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que acarretou na perda dos movimentos e da fala, uma condi\u00e7\u00e3o de tetraparesia. Agora, Elaine se comunica com professores, colegas da turma, pacientes, familiares e amigos praticamente com o olhar. \u00c9 a primeira pessoa com tetraparesia a cursar Medicina no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2012, quando ingressou no curso de Medicina no campus de Cascavel, Elaine j\u00e1 era formada em Farm\u00e1cia pela mesma institui\u00e7\u00e3o estadual. Segundo ela, depois da conclus\u00e3o do primeiro curso, em 2010, a Medicina parecia uma continua\u00e7\u00e3o natural.&nbsp;Para realizar o sonho, fez um ano de cursinho, que contribuiu para a aprova\u00e7\u00e3o no vestibular.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a gradua\u00e7\u00e3o, al\u00e9m das aulas curriculares, a estudante fazia parte de um grupo de pesquisa coordenado pelo professor e doutor Allan Araujo, coordenador do curso de Medicina. Al\u00e9m disso, pleiteava uma vaga no programa de Mestrado em Bioci\u00eancia da Unioeste. No entanto, no terceiro ano, em novembro de 2014, a estudante sofreu esse AVC, que levou a&nbsp;tetraparesia. Mesmo com todas as dificuldades, ela n\u00e3o perdeu a disposi\u00e7\u00e3o para ir atr\u00e1s dos seus sonhos, enfrentou e se adaptou \u00e0 nova realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto ainda estava na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), a estudante recebeu a visita de um colega de turma, que lhe apresentou uma ferramenta chamada \u201cprancha alfab\u00e9tica\u201d, que possibilitaria que ela falasse e se expresse, sem nem mesmo utilizar as cordas vocais. A ferramenta consiste em uma tabela, dividida em cinco linhas, cada uma contendo um grupo de letras. Para formar as palavras e frases, Elaine pisca quando a int\u00e9rprete diz a letra necess\u00e1ria para a constru\u00e7\u00e3o daquilo que quer comunicar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O modelo original da ferramenta sofreu algumas altera\u00e7\u00f5es para otimizar o seu uso e facilitar a comunica\u00e7\u00e3o do cotidiano. Com estas pequenas mudan\u00e7as no modelo, Elaine dominou e memorizou os grupos de letras em cerca de uma semana e dessa forma j\u00e1 podia se conectar de maneira mais eficaz com as pessoas ao seu redor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>APOIO PEDAG\u00d3GICO<\/strong>&nbsp;\u2013&nbsp;O retorno \u00e0s atividades acad\u00eamicas, em setembro de 2015, n\u00e3o foi uma tarefa f\u00e1cil. A Unioeste, por meio do Programa de Educa\u00e7\u00e3o Especial (PEE), acompanhou todo o processo. \u201cFizemos algumas reuni\u00f5es com o colegiado e mostramos que ela tinha condi\u00e7\u00f5es de concluir esse curso. A dedica\u00e7\u00e3o dela mostrou que era poss\u00edvel, inclusive convenceu a todos os docentes e os alunos do curso que \u00e9 poss\u00edvel\u201d, explica Iv\u00e3 Jos\u00e9 de Paula, do PEE.<\/p>\n\n\n\n<p>Elaine ser\u00e1 a primeira m\u00e9dica do Brasil a se formar com a condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica que apresenta. De acordo com o coordenador do curso de Medicina, o colegiado buscou experi\u00eancias de outras universidades em situa\u00e7\u00f5es semelhantes, mas que foi dif\u00edcil encontr\u00e1-las. \u201cN\u00f3s fomos atr\u00e1s de ver essas experi\u00eancias, mas elas praticamente inexistem, s\u00e3o poucas no mundo com alunos de Medicina. Ent\u00e3o, n\u00f3s mesmos ter\u00edamos que ir atr\u00e1s para resolver a situa\u00e7\u00e3o\u201d, comenta Araujo.<\/p>\n\n\n\n<p>A fim de se adaptar para as necessidades apresentadas por Elaine, o curso buscou a Assessoria Jur\u00eddica para entender os procedimentos legais e as legisla\u00e7\u00f5es que deveriam ser cumpridas a fim de formar a estudante, que sempre fez quest\u00e3o de participar de todas as atividades acad\u00eamicas, tanto as de cunho te\u00f3rico, como pr\u00e1tico. Al\u00e9m das estruturas adaptadas, como uma sala especial, os procedimentos de avalia\u00e7\u00e3o foram remodelados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cExiste uma legisla\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria para alunos em condi\u00e7\u00f5es especiais. A Elaine, por exemplo, n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de fazer um procedimento em um paciente, mas ela possui total capacidade de descrev\u00ea-lo. E as avalia\u00e7\u00f5es dela sempre foram muito boas, o aproveitamento dela foi muito satisfat\u00f3rio durante toda a gradua\u00e7\u00e3o\u201d, diz Araujo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para atender a estudante nas aulas online e presenciais, nos atendimentos dentro do Hospital Universit\u00e1rio do Oeste do Paran\u00e1 (HUOP) e nas visitas aos pacientes, a Unioeste disponibiliza docentes de atendimento educacional especializado. J\u00e1 estiveram com Elaine as pedagogas Vanderlize Simone Dalgalo, Aline Cristina Paro, Graciolinda Santana da Rosa, Silvia Elaine Bertuol, Let\u00edcia Nunes Goulart, Marciana Pelin Kliemann e quem acompanha ela hoje s\u00e3o Clarice Fabiano Costa Palavissini e Michele Lopes Legui\u00e7a,&nbsp;que est\u00e1 com Elaine h\u00e1 um m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Michele, que veio do Rio Grande do Sul especialmente para trabalhar com Elaine, destaca como a for\u00e7a de vontade e a dedica\u00e7\u00e3o da estudante fizeram ela ser inclu\u00edda no ambiente acad\u00eamico, participando de todas as atividades de maneira regular e tendo um bom relacionamento com professores e colegas. \u201cA persist\u00eancia, a for\u00e7a e a vontade dela fizeram com que ela se comunicasse muito bem. Ela se faz entender, n\u00e3o apenas com os olhos, mas tamb\u00e9m com o corpo\u201d, explica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E aos poucos a estudante foi sendo inserida em algumas mat\u00e9rias. &#8220;Ela n\u00e3o sabia em quanto tempo ia conseguir terminar o curso, mas ela foi realizando uma ap\u00f3s a outra e nunca desistiu\u201d, destaca a irm\u00e3 de Elaine, Elion\u00e9sia Marta dos Santos.&nbsp;\u201cHoje a gente olha para ela na reta final do curso e \u00e9 surreal, como se fosse uma hist\u00f3ria que est\u00e3o me contando, tantos altos e baixos, tantas d\u00favidas que realmente a gente fica mais do que feliz\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>INSPIRA\u00c7\u00c3O&nbsp;<\/strong>\u2013&nbsp;E todos que convivem com Elaine destacam a inspira\u00e7\u00e3o. \u201cEla n\u00e3o sente o tamanho da propor\u00e7\u00e3o, a gente ficou no p\u00e9 dela falando para mostrar a hist\u00f3ria dela porque \u00e9 incentivadora, mas para ela \u00e9 normal, ela escolheu ser normal\u201d, diz Isabella Alves Pereira, cuidadora da estudante.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo durante o per\u00edodo da pandemia ela optou por continuar as atividades no HUOP. O colegiado ficou muito preocupado com a situa\u00e7\u00e3o da estudante, que faz parte do grupo de risco e teria que desenvolver atividades dentro de um hospital cheio de pacientes. Entretanto, mais uma vez, a acad\u00eamica n\u00e3o se deixou vencer.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto exerceu o trabalho de supervis\u00e3o das atividades de Elaine no HUOP, a professora Rubia Bethania percebeu que a inclus\u00e3o da estudante no processo foi natural. \u201cNo internato de atendimento dos pacientes a gente trata tudo com muita naturalidade, a Elaine est\u00e1 inserida em um contexto de ensino com muita naturalidade, como as coisas devem acontecer. Ela tem a quest\u00e3o intelectual muito apurada e \u00e9 muito inteligente, as limita\u00e7\u00f5es s\u00e3o apenas de mobilidade, ent\u00e3o criamos uma din\u00e2mica para que pud\u00e9ssemos inseri-la com a maior naturalidade\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>A docente comenta que no in\u00edcio tinha receio de como seria constru\u00edda a rela\u00e7\u00e3o entre as duas. \u201cEu tinha um pouco de medo em saber como ela iria se abrir comigo. Eu precisava deix\u00e1-la \u00e0 vontade e desenvolver la\u00e7os, pois eu iria ficar muito tempo com ela, al\u00e9m de ajud\u00e1-la a se locomover e a se posicionar na cadeira. Eu precisava entender qual era o limite dela. E ela me ensina todos os dias a perceber o olhar de uma maneira diferente, a perceber como ele possui diferentes significados\u201d, complementa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ATUA\u00c7\u00c3O NA MEDICINA&nbsp;<\/strong>\u2013 Com a cola\u00e7\u00e3o de grau marcada para maio, a estudante j\u00e1 escolheu a \u00e1rea em que vai se especializar e que se v\u00ea atuando no futuro: radiologia, na produ\u00e7\u00e3o de laudos m\u00e9dicos. A escolha preza pela independ\u00eancia na hora da atua\u00e7\u00e3o profissional. \u201c\u00c9 uma \u00e1rea na qual eu posso atuar usando todo o meu conhecimento sem depender tanto das pessoas\u201d, diz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os anos de gradua\u00e7\u00e3o, o que mais marcou a estudante foi a rela\u00e7\u00e3o que ela teve com os pacientes durante as aulas pr\u00e1ticas e est\u00e1gios. \u201cO que mais recordo \u00e9 o carinho com que os pacientes me tratam. Eles me incentivam todos os dias a continuar\u201d, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Elaine \u00e9 uma grande inspira\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m para o irm\u00e3o, M\u00e1rio Lucas do Santos, que \u00e9 m\u00e9dico. \u201c\u00c9 at\u00e9 dif\u00edcil descrever. Ela \u00e9 uma pessoa fora de s\u00e9rie, desde antes do AVC ela sempre foi uma pessoa alegre e que busca excel\u00eancia em tudo que faz. Eu confio cem por cento no diagn\u00f3stico que ela faz, inclusive quando eu estou em d\u00favida em algum caso a gente conversa junto e at\u00e9 discutimos\u201d, aponta.<\/p>\n\n\n\n<p>AEN<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O olhar ganhou significados in\u00e9ditos para Elaine Luzia dos Santos, 33 anos, estudante de Medicina da&nbsp;Universidade Estadual do Oeste do Paran\u00e1 (Unioeste), ap\u00f3s&nbsp;um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que acarretou na perda dos movimentos e da fala, uma condi\u00e7\u00e3o de tetraparesia. 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