{"id":36472,"date":"2022-02-18T08:42:47","date_gmt":"2022-02-18T11:42:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=36472"},"modified":"2022-02-18T08:42:48","modified_gmt":"2022-02-18T11:42:48","slug":"tristeza-e-a-saudade-no-olhar-diz-tio-sobre-menina-de-4-anos-que-viu-mae-ser-morta-pelo-pai-no-parana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2022\/02\/18\/tristeza-e-a-saudade-no-olhar-diz-tio-sobre-menina-de-4-anos-que-viu-mae-ser-morta-pelo-pai-no-parana\/","title":{"rendered":"&#8216;tristeza e a saudade no olhar&#8217;, diz tio sobre menina de 4 anos que viu m\u00e3e ser morta pelo pai no Paran\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<p><em>*Para preservar a identidade da crian\u00e7a, apenas as iniciais de seu nome foram citadas na reportagem<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da pequena M. S.*, de quatro anos, foi completamente alterada no ano passado quando viu a m\u00e3e ser morta a tiros pelo pr\u00f3prio pai. Ela estava no local quando o crime aconteceu, em Reserva, nos Campos Gerais do Paran\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o tio da crian\u00e7a, Carlos Speke, desde que presenciou o assassinato da m\u00e3e, M. tem tido as comportamentos mais &#8220;revoltados&#8221;, se assusta durante a noite e relembra com frequ\u00eancia do que viu.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Quando ela viu a m\u00e3e dela morta, ela deitava em cima, abra\u00e7ava, chamava pela m\u00e3e. Ela era uma menina muito calma, depois que aconteceu isso ela come\u00e7a a bater o p\u00e9 para a gente, come\u00e7a a chorar. Sem contar que ela relembra o caso. Se tiver algum adulto conversando e tocar no assunto do que aconteceu, ela conta, pega a pessoa e leva para cada lugar da casa mostrando onde e como foi&#8221;, contou.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e,\u00a0Adriana Speke, foi morta em 6 de dezembro do ano passado, aos 28 anos. De acordo com a Pol\u00edcia Militar, o ex-marido dela invadiu a casa e atirou contra a jovem e contra o pai dela, de 68 anos, que tamb\u00e9m morreu.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"984\" height=\"570\" src=\"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/1638803231971822.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-36475\" srcset=\"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/1638803231971822.jpg 984w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/1638803231971822-300x174.jpg 300w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/1638803231971822-768x445.jpg 768w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/1638803231971822-696x403.jpg 696w, https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/1638803231971822-725x420.jpg 725w\" sizes=\"(max-width: 984px) 100vw, 984px\" \/><figcaption>Pai e filha n\u00e3o resistiram aos ferimentos e morreram  \u2014 Foto: Foto Autorizada\/Arquivo Pessoal<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o crime, o autor dos disparos tamb\u00e9m tirou a pr\u00f3pria vida. O irm\u00e3o de Adriana conta que, desde o assassinato da m\u00e3e, a sobrinha parou de se referir ao homem como pai.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEla o chama ou de tio ou de monstro, fala que aquele monstro matou a m\u00e3e dela. Antes ela chamava ele de pai, depois que aconteceu isso, n\u00e3o chama mais\u201d, explicou.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>De acordo com a psic\u00f3loga e professora da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Paran\u00e1 (PUC-PR) Maria Cristina Neiva de Carvalho, rea\u00e7\u00f5es como a de M.S. s\u00e3o normais ap\u00f3s um trauma e os danos da viol\u00eancia presenciada &#8220;ficam para a vida toda&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Presenciar um assassinato \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o emocionalmente forte, se voc\u00ea imaginar isso dentro do \u00e2mbito familiar, que teoricamente seria lugar de amor e resolu\u00e7\u00e3o de conflitos. O impacto \u00e9 muito grande na vida da crian\u00e7a. Ela perde uma pessoa de refer\u00eancia, fundamental para a vida dela. A crian\u00e7a est\u00e1, sim, tendo seus direitos violados, ela \u00e9 atingida tamb\u00e9m&#8221;, afirmou.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ainda conforme a psic\u00f3loga, as manifesta\u00e7\u00f5es da dor podem aparecer de diferentes formas em cada crian\u00e7a e variar de acordo com a idade.<\/p>\n\n\n\n<p>Elas podem desenvolver problemas f\u00edsicos, em especial na primeira inf\u00e2ncia, al\u00e9m de mudan\u00e7as comportamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas podem desenvolver imediatamente todos os sintomas do estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico. A crian\u00e7a pode generalizar a falta de confian\u00e7a para todas as pessoas e ter dificuldade de fazer amizade. Pode ficar introspectiva, t\u00edmida, ou fazer o oposto tamb\u00e9m. Pode acabar desenvolvendo uma rea\u00e7\u00e3o ao mundo com toda aquela viol\u00eancia que ela recebeu. Como se fosse devolver&#8221;, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de M.S., as sess\u00f5es com a psic\u00f3loga come\u00e7aram no come\u00e7o deste m\u00eas. Uma vez por semana, a crian\u00e7a vai \u00e0 terapia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela retornou para a escola e, segundo o tio, tem uma boa rela\u00e7\u00e3o com outras crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mudan\u00e7a na rotina<\/h2>\n\n\n\n<p>Carlos tamb\u00e9m estava no dia do crime e chegou a levar um tiro. Recuperado, ele hoje ajuda a m\u00e3e a cuidar das crian\u00e7as da irm\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ele, a rotina de toda a fam\u00edlia mudou depois do crime. Ele deixou o emprego e a casa que tinha em Ponta Grossa, na mesma regi\u00e3o, e voltou para Reserva para ficar com a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de M.S., Michele tamb\u00e9m tinha uma filha ainda beb\u00ea, de sete meses.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia tenta encontrar formas de dar apoio, amor e acolhimento \u00e0s sobrinhas, que ficaram \u00f3rf\u00e3s. Carlos contou que a saudade e as lembran\u00e7as aparecem no dia a dia, em atitudes.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Quando ela pergunta se a m\u00e3e vai voltar, a gente diz que a m\u00e3e virou uma estrelinha. \u00c0 noite, ela olha para o c\u00e9u e diz que est\u00e1 olhando para a m\u00e3e, que \u00e9 a estrelinha. Ela n\u00e3o \u00e9 de chorar. Pergunta se a m\u00e3e vai voltar, fala que sente falta. A gente percebe pelo olhar a tristeza e a saudade, nas atitudes. \u00c0 noite ela at\u00e9 dorme bem, mas \u00e0s vezes acorda perguntando sobre qualquer barulho, tem medo\u201d, disse.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sobre a beb\u00ea, Carlos contou que o primeiro m\u00eas foi o mais dif\u00edcil. Segundo ele, ela chorava constantemente mesmo quando acolhida por outras pessoas da fam\u00edlia, mas que , agora, est\u00e1 bem e &#8220;tranquila&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Impactos para a crian\u00e7a<\/h2>\n\n\n\n<p>A psic\u00f3loga Maria Cristina Neiva de Carvalho explica que o feminic\u00eddio, especialmente quando praticado dentro de casa, fere um dos principais pontos para o desenvolvimento de uma crian\u00e7a: a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A fam\u00edlia para qualquer crian\u00e7a \u00e9 a matriz de identidade, onde a gente desenvolve a no\u00e7\u00e3o de quem somos, de socializa\u00e7\u00e3o, onde a gente aprende o que pode e o que n\u00e3o pode, de v\u00ednculo, onde a gente aprende como eles se estabelecem e de pertencimento, de prote\u00e7\u00e3o. Todas essas matrizes ficam muito abaladas. A crian\u00e7a pode se sentir sem valor, que ningu\u00e9m pensou nela&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria Cristina tamb\u00e9m citou a quest\u00e3o da viol\u00eancia transgeracional, isto \u00e9, a replica\u00e7\u00e3o do comportamento de uma gera\u00e7\u00e3o para a outra. Segundo ela, ao ver o comportamento violento, a crian\u00e7a pode assimilar o padr\u00e3o como o correto e, no futuro, repetir dentro de uma rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Toda crian\u00e7a no ambiente familiar tem nas rela\u00e7\u00f5es pessoais, dentro de casa, os modelos de como a gente enfrenta as situa\u00e7\u00f5es, como a gente resolve conflitos, como a gente supera dificuldades. Quando ela v\u00ea um feminic\u00eddio, ela pode aprender e internalizar que essa \u00e9 a uma forma de resolver as coisas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a viol\u00eancia transgeracional tamb\u00e9m pode se evidenciar na normaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, em especial por parte de mulheres. Ao verem isso acontecer dentro de casa, elas podem vir a se submeter ao mesmo ciclo no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, segundo a psic\u00f3loga,&nbsp;\u00e9 fundamental que qualquer pessoa envolvida em um processo de viol\u00eancia contra a mulher, em especial a crian\u00e7a, tenha acompanhamento psicol\u00f3gico para que possa seguir a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela nunca vai deixar de lembrar, provavelmente, a menos que fa\u00e7a bloqueio &#8211; o que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 bom-, mas ela vai ter formas de conviver com o que aconteceu de um jeito mais saud\u00e1vel para ela pr\u00f3pria, para a vida&#8221;, enfatizou.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Feminic\u00eddio no Paran\u00e1<\/h2>\n\n\n\n<p>Desde 2015 o C\u00f3digo Penal prev\u00ea o feminic\u00eddio como qualificador do crime de homic\u00eddio. A lei considera que o crime se deu por raz\u00f5es ligadas \u00e0 &#8220;condi\u00e7\u00e3o do sexo feminino&#8221; quando, por exemplo, envolve viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar; menosprezo ou discrimina\u00e7\u00e3o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>No Paran\u00e1, entre janeiro e setembro de 2021, 49 mulheres morreram v\u00edtimas de feminic\u00eddio, de acordo com dados da Secretaria de Estado de Seguran\u00e7a P\u00fablica (Sesp). Durante todo o ano de 2020, 73 mulheres foram mortas pelo fato de serem mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem, a Sesp n\u00e3o tinha um balan\u00e7o final de 2021, nem os n\u00fameros registrados neste ano.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com as autoridades, mensurar o n\u00famero de crian\u00e7as que perdem a m\u00e3e para o feminic\u00eddio \u00e9 um controle &#8220;dif\u00edcil&#8221; pois, pela lei, esses \u00f3rf\u00e3os n\u00e3o precisam ser necessariamente encaminhados para a Justi\u00e7a.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Prote\u00e7\u00e3o judicial \u00e0s crian\u00e7as<\/h2>\n\n\n\n<p>De acordo com o procurador Francisco Zanicotti, da Vara da Inf\u00e2ncia do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Paran\u00e1 (MP-PR), qualquer tipo de viol\u00eancia contra a m\u00e3e de uma crian\u00e7a \u00e9 uma viol\u00eancia contra a pr\u00f3pria crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Em alguns casos, quando notificados pela Pol\u00edcia Militar ou pelo Conselho Tutelar, o MP-PR entra no caso e passa a acompanhar a situa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, como em casos de feminic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem a m\u00e3e &#8211; e geralmente com o pai preso -, os \u00f3rf\u00e3os costumam ser encaminhados para a chamada fam\u00edlia extensa, como av\u00f3s e tios, sem necessidade de judicializa\u00e7\u00e3o do processo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Come\u00e7a pela fam\u00edlia extensa, que precisa ter o compromisso e garantir que vai manter a cria\u00e7\u00e3o afastada do agressor. Depois, se n\u00e3o houver, procuramos uma fam\u00edlia substituta por meio da ado\u00e7\u00e3o ou apadrinhamento afetivo. Em \u00faltimo caso, longe de ser o ideal mas necess\u00e1rio, \u00e9 feito o acolhimento institucional&#8221;, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, o promotor tamb\u00e9m disse que as fam\u00edlias extensas precisam em algum momento fazer um pedido do termo de guarda para que possam ter direitos como viajar com essas crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>No Paran\u00e1, o \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o possui um n\u00facleo espec\u00edfico voltado para crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s pelo feminic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Francisco, a demanda n\u00e3o justifica o engessamento de uma \u00e1rea, mas nenhuma crian\u00e7a ou adolescente \u00e9 afetado pois recebem atendimento de &#8220;uma equipe multidisciplinar preparada para lidar com pessoas do grupo em risco.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda conforme o promotor, o foco deve ser o combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher desde o princ\u00edpio, colocando fim ao ciclo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Todas essas viol\u00eancias impactam seriamente no desenvolvimento das crian\u00e7as e adolescentes. Ainda h\u00e1 muito a ser feito, por isso a gente fala da interven\u00e7\u00e3o precoce. N\u00e3o pode deixar chegar em uma les\u00e3o corporal grave, feminic\u00eddio. Voc\u00ea v\u00ea um pai xingando uma m\u00e3e, ent\u00e3o passou da hora de intervir&#8221;, frisou.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: G1PR<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Para preservar a identidade da crian\u00e7a, apenas as iniciais de seu nome foram citadas na reportagem A hist\u00f3ria da pequena M. S.*, de quatro anos, foi completamente alterada no ano passado quando viu a m\u00e3e ser morta a tiros pelo pr\u00f3prio pai. 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