{"id":35437,"date":"2021-11-16T12:53:35","date_gmt":"2021-11-16T15:53:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=35437"},"modified":"2021-11-16T12:53:37","modified_gmt":"2021-11-16T15:53:37","slug":"relacionamento-um-caminho-para-fora-da-infantilidade-por-carlos-colect","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/11\/16\/relacionamento-um-caminho-para-fora-da-infantilidade-por-carlos-colect\/","title":{"rendered":"Relacionamento \u2013 um caminho para fora da infantilidade por Carlos Colect"},"content":{"rendered":"\n<p>Quero, nesta proposta, observar o relacionamento afetivo do namoro e\/ou casamento como um processo de constru\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 maturidade, para fora da infantilidade. Neste aspecto, s\u00f3 cresce aquele se relaciona e se abre ao relacionamento, o qual n\u00e3o se inicia pronto ou fechado, pelo contr\u00e1rio, est\u00e1 sempre se movimentando e encontrando novas formas. \u00c9 no primeiro encontro, no primeiro olhar, no primeiro toque, no primeiro beijo ou na primeira conversa que o primeiro passo \u00e9 dado rumo a uma profunda jornada de conhecimento. Alguns, logo no in\u00edcio, desistem de trilhar esse caminho \u00e1rduo, outros, com coragem e persist\u00eancia, respiram e passam as rebenta\u00e7\u00f5es do mar revolto.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o entro no quesito amor e romantismo, e sim no pr\u00f3prio processo da rela\u00e7\u00e3o, cuja palavra carrega a ideia do relacionar, isto \u00e9, encontrar pontos em comum que vinculem um objeto ao outro, mesmo que sejam diferentes. Utilizando o termo da <em>internet<\/em>, tudo pode ser <em>linkado (relacionado),<\/em>&nbsp;inclusive pessoas. E o que \u00e9 o <em>link<\/em>? \u00c9 uma palavra em ingl\u00eas que significa liga\u00e7\u00e3o, v\u00ednculo ou elo. Nos textos virtuais, s\u00e3o palavras ou imagens que ligam a outras palavras ou imagens; na vida real, por sua vez, tamb\u00e9m s\u00e3o palavras e imagens que conectam um ser ao outro. Assim, relacionar \u00e9 criar v\u00ednculos e la\u00e7os que conectam, sobretudo, de forma saud\u00e1vel, em dire\u00e7\u00e3o ao crescimento. Afirmo, contudo, que todos os seres s\u00e3o diferentes, por isso, podem ser <em>linkados<\/em>, basta encontrar o <em>link<\/em>&nbsp;que conduzir\u00e1 \u00e0 liga\u00e7\u00e3o com o outro.<\/p>\n\n\n\n<p>O <em>link<\/em>&nbsp;aparece \u2014 em nossa primeira rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal \u2014 na forma de um cord\u00e3o umbilical. Seria esta a imagem essencial do <em>Link? <\/em>Est\u00e1vamos <em>linkados<\/em>&nbsp;em nossa m\u00e3e, para al\u00e9m da consci\u00eancia verbal. Portanto, como um modelo primordial, o <em>link<\/em>, antes de chegar \u00e0 luz do racional, realiza-se no campo irracional \u2013 inconsciente. Ou seja, eu estabele\u00e7o v\u00ednculos com o outro mesmo antes de saber disso, ou de ter conhecimento sobre o outro. Isto quer dizer que, a exemplo do beb\u00ea no \u00fatero, a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o come\u00e7a exatamente no contato externo da vis\u00e3o ou outros sentidos, mas na emo\u00e7\u00e3o experienciada, ainda que n\u00e3o se d\u00ea sentido ou denomine essa emo\u00e7\u00e3o. De outra forma, a rela\u00e7\u00e3o come\u00e7a antes de nomear o sentimento (tristeza, alegria, raiva, \u00f3dio, bem estar&#8230;), num campo abstrato, sem que se consiga gerar uma explica\u00e7\u00e3o. \u00c9 baseada na troca, ainda que impercept\u00edvel, do dar e receber. Enfim, a rela\u00e7\u00e3o produz o comum, entretanto, evidencia a diferen\u00e7a de dois seres diferentes. Dois corpos que partilham dos mesmos nutrientes vitais atrav\u00e9s do <em>Link<\/em>&nbsp;(v\u00ednculo, elo, cord\u00e3o). A m\u00e3e n\u00e3o sabe quem \u00e9 o beb\u00ea e o beb\u00ea n\u00e3o sabe quem \u00e9 a m\u00e3e, mas est\u00e3o <em>linkados<\/em>&nbsp;pelo compromisso da sobreviv\u00eancia; isto perdurar\u00e1 na ess\u00eancia inconsciente de nossas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuemos com a aten\u00e7\u00e3o voltada para a rela\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria entre m\u00e3e e beb\u00ea, cujo relacionamento acontece atrav\u00e9s de fases, conforme os pesquisadores da psique, como Freud, Winicott, Melanie Klain, Margaret Mahler, dentre muitos outros. Nestas pesquisas, podemos concluir que o prop\u00f3sito essencial da rela\u00e7\u00e3o \u00e9 a sa\u00edda do estado primitivo infantil, em busca da compreens\u00e3o do indiv\u00edduo que se socializa no coletivo, visando um sujeito com capacidades e habilidades emocional e cognitiva capaz de <em>sobreviver<\/em>&nbsp;num mundo hostil. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Penso que a vida, no plano do relacionamento do namoro ou casamento, reproduzir\u00e1 as fases da nossa rela\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria mais significativa. Para tal compara\u00e7\u00e3o, vejamos o que teoriza a psicanalista Margaret Mahler. Para ela, o primeiro momento da crian\u00e7a \u00e9 o autismo normal (a-1 m\u00eas), quando o beb\u00ea rec\u00e9m-nascido n\u00e3o observa nada al\u00e9m de si mesmo; n\u00e3o tem respostas e est\u00edmulos externos. Posteriormente, o beb\u00ea inicia a fase simbi\u00f3tica com a m\u00e3e (2-3 meses), onde h\u00e1 uma mistura de imagens, concep\u00e7\u00e3o de unidade e associa\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e. Por fim, a terceira fase \u00e9 a individua\u00e7\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o (4-24 meses), na qual h\u00e1 subfases: diferencia\u00e7\u00e3o (observa\u00e7\u00e3o dos objetos externos), pr\u00e1tica (explora\u00e7\u00e3o do mundo externo), aproxima\u00e7\u00e3o (conflito entre independ\u00eancia e depend\u00eancia, desejo de se aproximar da m\u00e3e, por\u00e9m h\u00e1 o medo de ser absorvida por ela), individualidade (o Eu passa a ter um sentido, para al\u00e9m dos demais que lhe cercam).<\/p>\n\n\n\n<p>Levando em considera\u00e7\u00e3o a teoria de Mahler e associando com a vida relacional adulta, \u00e9 poss\u00edvel conjecturar que vivenciaremos todas as fases. Na fase aut\u00edstica, sem est\u00edmulo externo, vivemos em nosso mundo particular, com a ideia de que n\u00e3o h\u00e1 qualquer tipo de necessidade objetal ou relacional com o outro. H\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de que tudo nos \u00e9 suprido por algum meio. n\u00e3o h\u00e1 o pensamento de car\u00eancia. Contudo, esta fase tende a passar, visto que as car\u00eancias (em suas v\u00e1rias inst\u00e2ncias \u2013 emocional, afetiva, financeira&#8230;) aparecem, surgindo a necessidade da exist\u00eancia de um outro. Nisto, a vis\u00e3o come\u00e7a a se abrir para uma observa\u00e7\u00e3o externa. D\u00e1-se in\u00edcio ao relacionamento (amizade, namoro, casamento), ao v\u00ednculo e a liga\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica com o outro. H\u00e1 uma confus\u00e3o de seres. N\u00e3o se sabe exatamente onde come\u00e7a e termina o Eu e o Outro. Isto permanece por um tempo, at\u00e9 que se inicia a fase da separa\u00e7\u00e3o e individua\u00e7\u00e3o, onde ocorre a diferencia\u00e7\u00e3o das identidades, locomo\u00e7\u00e3o para outros espa\u00e7os internos e externos, o desejo de se distanciar, juntamente com o medo de se aproximar demais e perder a individualidade que se est\u00e1 conquistando e, por fim, a consolida\u00e7\u00e3o da descoberta da individualidade, quando nos \u00e9 revelado que somos seres diferentes e separados. Nesta fase da separa\u00e7\u00e3o, associo com as posi\u00e7\u00f5es de Melanie Klain, a qual mostra que o beb\u00ea sofre com a <em>esquizo-paran\u00f3ide<\/em>, posi\u00e7\u00e3o que se manifesta quando o beb\u00ea tem que lidar com as suas imagina\u00e7\u00f5es, fantasias e dicotomias acerca do seio materno \u2014 objeto de amor, bem como tem que lidar com o estado depressivo em descobrir que aquele objeto (m\u00e3e) n\u00e3o existe s\u00f3 para lhe satisfazer. Inevitavelmente, o beb\u00ea, neste processo, tamb\u00e9m precisa lidar com a culpa por ter odiado a m\u00e3e que se afastou e se separou. Estas fantasias e estados depressivos, de igual modo, s\u00e3o sentidas no relacionamento, quando adultos. Ainda, nesta fase da Separa\u00e7\u00e3o \u2014 entendendo que a Separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 necessariamente o t\u00e9rmino de uma rela\u00e7\u00e3o, mas somente a descoberta da individualidade \u2014, acrescento a teoria do objeto transicional, de Winicott, em que a crian\u00e7a, ao sentir o afastamento da m\u00e3e e a forma\u00e7\u00e3o de seu Eu individual, substitui a presen\u00e7a da m\u00e3e por um objeto (cobertor, ursinho&#8230;). Da mesma forma, o casal, ao vivenciar este per\u00edodo, come\u00e7a a substituir a sensa\u00e7\u00e3o de completude que outrora havia somente no parceiro. A substitui\u00e7\u00e3o pode ser realizada pelo trabalho, por um hobby, por um projeto,&#8230; sem romper a rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, a n\u00e3o compreens\u00e3o desta fase pode gerar, sim, um rompimento do relacionamento. Por qu\u00ea? Porque a mente entra num estado de perturba\u00e7\u00e3o e fantasia (<em>esquizo-paran\u00f3ide<\/em>); pode surgir a d\u00favida sobre a veracidade do amor e compromisso do outro. Isto produz inseguran\u00e7a e ci\u00fames. Nos dias atuais, isto tem sido um efeito comum. Muitos relacionamentos n\u00e3o t\u00eam passado desta etapa. Por\u00e9m, \u00e9 no transpor essa fase que a rela\u00e7\u00e3o entra num n\u00edvel mais s\u00f3lido, menos l\u00edquido, pois nasce o entendimento de que s\u00e3o dois Seres individuais que se complementam, n\u00e3o que se completam. S\u00e3o dois que formam Um. H\u00e1 a lucidez acerca dos sentimentos, emo\u00e7\u00f5es e pensamentos que comp\u00f5em cada indiv\u00edduo, de forma separada e discriminada. Nesta alteridade e na consci\u00eancia do que \u00e9 \u201cmeu\u201d e \u201cteu\u201d, fica &nbsp;melhor lidar com as diferen\u00e7as, tendo a clareza do que pertence a cada um.<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente, n\u00e3o desejo trazer esta vis\u00e3o como absoluta, nem tampouco, afirmar que estas fases ocorrem numa ordem exata. No entanto, afirmo que cada fase \u00e9 uma ang\u00fastia a ser vencida, uma vis\u00e3o poss\u00edvel sobre as rela\u00e7\u00f5es e um caminho plaus\u00edvel para se pensar os relacionamentos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Por Carlos Colect<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quero, nesta proposta, observar o relacionamento afetivo do namoro e\/ou casamento como um processo de constru\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 maturidade, para fora da infantilidade. 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