{"id":34107,"date":"2021-08-15T10:15:00","date_gmt":"2021-08-15T13:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=34107"},"modified":"2021-08-30T10:18:17","modified_gmt":"2021-08-30T13:18:17","slug":"com-restauracao-de-classico-em-4k-obra-de-glauber-rocha-ganha-novo-folego-apos-40-anos-de-sua-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/08\/15\/com-restauracao-de-classico-em-4k-obra-de-glauber-rocha-ganha-novo-folego-apos-40-anos-de-sua-morte\/","title":{"rendered":"Com restaura\u00e7\u00e3o de cl\u00e1ssico em 4K, obra de Glauber Rocha ganha novo f\u00f4lego ap\u00f3s 40 anos de sua morte"},"content":{"rendered":"\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 da cineasta e pesquisadora Paloma Rocha, que credita ao pai, o cineasta Glauber Rocha, uma curva do destino capaz de impressionar at\u00e9 os mais c\u00e9ticos. &#8220;No fim, o projeto est\u00e1 sendo finalizado em um ano importante para ele e para a cultura brasileira&#8221;, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto citado por Paloma \u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o em 4K de&nbsp;<em>Deus e o Diabo na Terra do Sol<\/em>, segundo longa-metragem de Glauber e lan\u00e7ado no Brasil em julho de 1964. A obra, um dos marcos do cinema brasileiro, \u00e9 referenciada como pe\u00e7a-chave no ide\u00e1rio do Cinema Novo, movimento cultural que deu r\u00e9gua e compasso \u00e0 produ\u00e7\u00e3o nacional dos anos 1960 e do in\u00edcio da d\u00e9cada seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano em que a morte de Glauber Rocha completa 40 anos, seu legado, que inclui ainda filmes como&nbsp;<em>Terra em Transe<\/em>&nbsp;(1967) e&nbsp;<em>Le\u00e3o de Sete Cabe\u00e7as&nbsp;<\/em>(1970), tem sido sacudido por a\u00e7\u00f5es variadas. Algumas, como o restauro do filme e o desenvolvimento de um espa\u00e7o dedicado ao cineasta no MAM (Museu de Arte Moderna) de Salvador, s\u00e3o motivo de comemora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em contrapartida, parte da sua obra queimou junto com o inc\u00eandio que atingiu um dos galp\u00f5es da Cinemateca Brasileira, na Vila Leopoldina, na zona oeste de S\u00e3o Paulo, no fim de julho, em mais um epis\u00f3dio da crise administrativa e financeira que atinge o \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela preserva\u00e7\u00e3o do cinema brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"\u00c9-um-novo-filme-\">&#8216;\u00c9 um novo filme&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 do cineasta Lino Meireles, entusiasta da preserva\u00e7\u00e3o e restauro de obras ic\u00f4nicas do cinema nacional. Ainda em 2019, ele procurou Paloma Rocha com o intuito de restaurar algum filme de Glauber. &#8220;Quando soube dessa possibilidade fiquei at\u00e9 emocionado. Existiram outros, mas Deus e o Diabo colocou de vez o Brasil no mapa do cinema internacional&#8221;, afirma Meireles \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima vers\u00e3o digitalizada da obra foi feita em 2002, com uma tecnologia inferior \u00e0 utilizada neste momento. &#8220;N\u00e3o foi um restauro, mas uma digitaliza\u00e7\u00e3o feita com boa vontade e com os recursos que se tinham \u00e0 \u00e9poca. Algumas coisas foram melhoradas na imagem, como fotogramas partidos, mas n\u00e3o se compara ao processo feito agora&#8221;, ressalta Paloma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado de Meireles, Paloma montou um time para tocar o projeto, mas a\u00ed veio a pandemia e tudo precisou ser paralisado. &#8220;O clima de incerteza era enorme no ano passado, ent\u00e3o diminu\u00edmos a velocidade do plano&#8221;, ressalta Meireles. Em paralelo \u00e0 crise sanit\u00e1ria, o desmonte na Cinemateca, onde os rolos do filme estavam armazenados, tamb\u00e9m ajudou a complicar o processo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ficamos ao longo de todo o ano passado tentando fazer o resgate do arquivo de som, por exemplo, mas a Cinemateca estava fechada, sem funcion\u00e1rios, imersa nos problemas que se mant\u00e9m. Falei com o M\u00e1rio Frias [secret\u00e1rio de cultura], que conseguiu nos entregar o material apenas em dezembro. A espera tem sido grande, mas o resultado vai valer a pena&#8221;, assegura Paloma.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Meireles, a restaura\u00e7\u00e3o vai servir para que mais pessoas assistam a pel\u00edcula. &#8220;Todo mundo j\u00e1 viu o cartaz feito pelo Rog\u00e9rio Duarte, aquele sol, a figura do cangaceiro, mesmo que n\u00e3o tenha visto a obra. \u00c9 um s\u00edmbolo e um marco da cultura brasileira. Tenho a esperan\u00e7a de que os mais jovens possam conhecer a obra do Glauber para al\u00e9m do senso comum&#8221;, comenta, sem revelar a quantia investida no projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>A opini\u00e3o \u00e9 compartilhada por Rodrigo Merc\u00eas, que trabalhou com preserva\u00e7\u00e3o na Cinemateca Brasileira entre 2001 e 2016, e ajudou no processo de restauro. &#8220;Esse projeto possibilita v\u00e1rias coisas, como a preserva\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o em um formato mais amplo, a possibilidade de exibi\u00e7\u00e3o em cinemas do pa\u00eds, j\u00e1 que a m\u00eddia pode ser reproduzida em quase todas as salas, e a adapta\u00e7\u00e3o para plataformas de streaming com boa qualidade&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Um-novo-preto-e-branco-\">Um novo preto e branco<\/h2>\n\n\n\n<p>O restauro da imagem e do som tiveram processos diferentes. As cinco latas de negativos do filme em 35 mil\u00edmetros estavam armazenadas na Cinemateca Brasileira, no galp\u00e3o da Vila Clementino, zona sul de S\u00e3o Paulo. A ideia de fazer o restauro na pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o foi descartada de in\u00edcio, j\u00e1 que o maquin\u00e1rio para escanear o filme n\u00e3o era utilizado desde 2013. Paloma n\u00e3o quis arriscar e levou o material para a Cinecolor, empresa parceira do \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1, a equipe comandada por Renato Merlino, com o apoio de Lu\u00eds Abramo, fot\u00f3grafo e parceiro de set de Paloma, realizou as interven\u00e7\u00f5es. &#8220;Foi uma alegria abrir as caixas e ver que se tratava da primeira montagem da obra, feita com o negativo original do filme. Isso nos deu a possibilidade de fazer um processo no limite da qualidade&#8221;, explica Merlino \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 um filme pouco solarizado, que foi feito em meio \u00e0 muita nublagem. Mas conseguimos recuperar uma gama de camadas que \u00e9 impressionante. Tons de branco, de preto, nuances de cinza, aspectos que a resolu\u00e7\u00e3o em 4K destacam e tornam o filme ainda mais bonito&#8221;, comenta Abramo \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo n\u00e3o \u00e9 simples e inclui a limpeza, com remo\u00e7\u00e3o de sujeira, aten\u00e7\u00e3o \u00e0 granula\u00e7\u00e3o da tela, entre outros problemas inerentes \u00e0 a\u00e7\u00e3o do tempo e do manuseio humano. &#8220;A despeito das dificuldades normais de toda restaura\u00e7\u00e3o, demos sorte de encontrar o negativo original e tamb\u00e9m porque o material foi armazenado em boas condi\u00e7\u00f5es&#8221;, comenta Merlino.<\/p>\n\n\n\n<p>Abramo afirma que a equipe criou conceitos est\u00e9ticos para n\u00e3o interferir no que era pr\u00f3prio da obra e da proposta de Glauber. &#8220;H\u00e1 uma \u00e9tica para toda interven\u00e7\u00e3o. Como ele foi filmado, as condi\u00e7\u00f5es de \u00e9poca, a c\u00e2mera, os recursos do fot\u00f3grafo para traduzir o desejo do diretor. Tudo isso \u00e9 avaliado e respeitado na restaura\u00e7\u00e3o&#8221;, analisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Merlino complementa. &#8220;Quando o filme foi feito, as c\u00e2meras n\u00e3o tinham estabiliza\u00e7\u00e3o, por exemplo. H\u00e1 um movimento que pode parecer diferente ao que estamos acostumados hoje, portanto. Mas a obra tem uma vida pr\u00f3pria, com caracter\u00edsticas desse per\u00edodo, e n\u00f3s n\u00e3o podemos mexer nisso. A restaura\u00e7\u00e3o s\u00f3 atuou no que \u00e9 degrada\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 tudo igual ao que foi concebido pelo Glauber. &#8220;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"A-procura-pelo-som-quase-perfeito-\">A procura pelo som (quase) perfeito<\/h2>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 a primeira vez que eu consigo ouvir alguns di\u00e1logos do filme com exatid\u00e3o&#8221;, brinca Paloma. O caminho para a restaura\u00e7\u00e3o do som n\u00e3o foi f\u00e1cil, j\u00e1 que a matriz original n\u00e3o existe mais. Isso significa que a equipe precisava encontrar uma c\u00f3pia boa o suficiente para ser digitalizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos arquivos da institui\u00e7\u00e3o, Rodrigo Merc\u00eas e Jos\u00e9 Luiz Sasso, t\u00e9cnico respons\u00e1vel pelo restauro do \u00e1udio, garimparam c\u00f3pias de matrizes de som com alguma possibilidade de uso. A escolhida foi um arquivo feito em meados da d\u00e9cada de 1980 e que apresentava uma degrada\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel, mas recuper\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;H\u00e1 essa cr\u00edtica de que o som dos filmes brasileiros \u00e9 ruim\u2026 N\u00e3o deixa de ser verdade. Mas \u00e9 preciso contextualizar, sobretudo pela quest\u00e3o financeira, que muitas vezes impossibilita a compra de equipamentos no exterior. Se isso ainda acontece hoje, imagine naquela \u00e9poca. A quantidade de problemas t\u00e9cnicos era enorme&#8221;, afirma Sasso \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>O arquivo convertido para o digital foi restaurado e j\u00e1 est\u00e1 pronto, diz o t\u00e9cnico. &#8220;O som da c\u00f3pia tinha chiado, distor\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o coisas que n\u00e3o consigo mais desfazer. Fonemas como S, Z, ficam com som de CH&#8221;, explica. Ele ressalta ainda que apesar de utilizar o computador, seu trabalho \u00e9 prioritariamente manual. &#8220;Se eu colocar um determinado padr\u00e3o no software e deixar a m\u00e1quina resolver tudo d\u00e1 problema. Um estalo do fogo queimando a lenha em uma fogueira pode ser identificado como um barulho a ser eliminado. Isso modifica a obra&#8221;, analisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Outras nuances interferiram no processo. A primeira delas \u00e9 que parte das m\u00fasicas escritas por Glauber Rocha e cantadas por S\u00e9rgio Ricardo, que narram acontecimentos dos personagens, estavam inaud\u00edveis. Sasso pediu a um amigo que transcrevesse para o digital as can\u00e7\u00f5es do filme lan\u00e7adas em vinil naquele per\u00edodo e que estavam em boa qualidade para que fossem incorporadas ao filme.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o t\u00e9cnico precisou sincronizar algumas falas dos atores com a imagem. &#8220;Antigamente era tudo dublado. N\u00e3o tinha dinheiro e n\u00e3o podia errar. O foco estava na interpreta\u00e7\u00e3o&#8221;, avalia Paloma. &#8220;Tiramos um quadro ou outro do filme para mitigar uma falta de sincronia que era vis\u00edvel, sobretudo nos close-ups. Buscamos equilibrar o respeito \u00e0 pel\u00edcula com algumas melhorias sens\u00edveis&#8221;, complementa Sasso.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Deus-e-o-Diabo-e-a-explos\u00e3o-do-Cinema-Novo-\">Deus e o Diabo e a explos\u00e3o do Cinema Novo<\/h2>\n\n\n\n<p>As movimenta\u00e7\u00f5es em torno de uma nova linguagem no cinema brasileiro pensado pelos integrantes do Cinema Novo ganharam for\u00e7a em fins da d\u00e9cada de 1950, em um estreito di\u00e1logo entre Glauber e nomes como Paulo C\u00e9sar Saraceni, Joaquim Pedro Andrade, Gustavo Dahl e Ruy Guerra, Caca Diegues, Leon Hirszman, Miguel Vargas, Arnaldo Jabor, Luiz Carlos Barreto, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da influ\u00eancia do neorrealismo italiano e obras da literatura brasileira, o grupo, em sua maioria baseado no Rio de Janeiro, adotou como objetivo a realiza\u00e7\u00e3o de um cinema que interpretasse a realidade brasileira levando em considera\u00e7\u00e3o suas margens e os problemas vividos por essa popula\u00e7\u00e3o. Uma gera\u00e7\u00e3o preocupada em buscar n\u00e3o s\u00f3 uma identidade aut\u00eantica do cinema nacional, mas tamb\u00e9m do homem brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1963, quando come\u00e7ou a filmar&nbsp;<em>Deus e o Diabo<\/em>, Glauber j\u00e1 havia lan\u00e7ado Barravento e participado de festivais internacionais, al\u00e9m de exercer a lideran\u00e7a criativa e te\u00f3rica entre os cinemanovistas. O longa foi rodado na cidade de Monte Santo, no interior da Bahia, com grava\u00e7\u00f5es em Canudos, no deserto do Cocorob\u00f3, Feira de Santana e Salvador. A obra faz parte do que alguns cr\u00edticos chamam de &#8220;A trilogia do sert\u00e3o&#8221;, semelhante a produ\u00e7\u00f5es do mesmo per\u00edodo, como Os Fuzis, de Ruy Guerra, e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos.<\/p>\n\n\n\n<p>A principal marca dos filmes \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de um Brasil remoto, ensolarado, embebido em conflitos pol\u00edticos, com forte presen\u00e7a da imagem popular e sertaneja. Conclu\u00eddo em setembro de 1963, o filme foi indicado \u00e0 Palma de Ouro em Cannes no ano seguinte, mas n\u00e3o ficou com o pr\u00eamio. Ainda assim, o longa foi bastante elogiado internacionalmente, com Glauber sendo equiparado a nomes como Bertoldo Bertolucci, Michelangelo Antonioni e Jean-Luc Godard em um texto sobre cinema de poesia do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Deus e o Diabo<\/em>&nbsp;mescla influ\u00eancias liter\u00e1rias que v\u00e3o de Graciliano Ramos e Jos\u00e9 Lins do Rego, passando por&nbsp;<em>Os Sert\u00f5es<\/em>, de Euclides da Cunha. O sert\u00e3o \u00e9 palco da hist\u00f3ria de Manuel (Geraldo del Rey) e Rosa (Yon\u00e1 Magalh\u00e3es), um casal que vive da terra seca e est\u00e9ril. A trama, uma epopeia sertaneja envolta em mis\u00e9ria e fome, se desenrola a partir do momento que Manuel mata o fazendeiro que lhe enganou em uma negocia\u00e7\u00e3o. A partir da\u00ed, ele foge com Rosa para seguir o beato Sebasti\u00e3o (L\u00eddio Silva), um profeta inspirado em Ant\u00f4nio Conselheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente, os seguidores do beato s\u00e3o dizimados pelo matador de cangaceiros Ant\u00f4nio das Mortes (Mauricio do Valle). O casal foge e encontra Corisco (Othon Bastos), sobrevivente do massacre do bando de Lampi\u00e3o. Ant\u00f4nio persegue e mata Lampi\u00e3o, mas deixa Manuel e Rosa vivos para contar a hist\u00f3ria. A cena final, um marco do cinema nacional, mostra Manuel e Rosa correndo desabalados pelo sert\u00e3o, enquanto a c\u00e2mera se distancia para se fixar no mar.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria captada por Glauber, imersa em uma s\u00e9rie de dificuldades materiais, revela um espa\u00e7o desvinculado da urbaniza\u00e7\u00e3o, imerso em um messianismo religioso. A narrativa, permeada por atores que na verdade eram moradores da regi\u00e3o, aparenta fluir na dualidade entre o bem e o mal, apresenta quest\u00f5es mais complexas a respeito das rela\u00e7\u00f5es humanas, com tem\u00e1ticas que envolvem o autoritarismo, o poder religioso exacerbado e a gan\u00e2ncia latifundi\u00e1ria. Um filme complexo, portanto.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Meu pai acreditava no Brasil, no cinema, na pol\u00edtica, na poesia. Mas ele se deparou com contradi\u00e7\u00f5es enormes. A obra dele reflete isso, um mundo pr\u00f3prio, que n\u00e3o \u00e9 copiado de ningu\u00e9m ou adapta\u00e7\u00e3o de uma obra liter\u00e1ria. \u00c9 a de um artista brasileiro que mistura o intelectual, o artista e o ser pol\u00edtico&#8221;, afirma Paloma.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Um-acervo-destinos-variados-\">Um acervo, destinos variados<\/h2>\n\n\n\n<p>Glauber morreu em 22 de agosto de 1981, quando tinha 42 anos, em decorr\u00eancia de complica\u00e7\u00f5es broncopulmonares. O acervo do cineasta baiano foi organizado por sua m\u00e3e, Lucia Rocha, algo que se tornou definitivo ap\u00f3s a morte do cineasta, com o apoio de Paloma, filha mais velha do baiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a morte da av\u00f3 em 2014, aos 94 anos, a primog\u00eanita ficou com a incumb\u00eancia de gerenciar caixas e mais caixas de arquivos com a obra do pai, depositadas no espa\u00e7o Tempo Glauber, uma casa no Rio de Janeiro que pertence ao INSS, mas que fora cedida pela Uni\u00e3o para armazenar o material.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 2009 e 2010, parte do acervo, com a produ\u00e7\u00e3o intelectual do cineasta e sua filmografia, foi vendido \u00e0 Cinemateca Brasileira. Al\u00e9m dos filmes, existem ainda 22 mil p\u00e1ginas de roteiros, desenhos, artigos, esbo\u00e7os, 4 mil fotografias e 3 mil cartas, material j\u00e1 digitalizado pelo \u00f3rg\u00e3o com verba do Fundo Nacional de Cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2017, a casa utilizada para abrigar o Tempo Glauber foi retomada pela Uni\u00e3o e Paloma precisou achar um destino para uma outra parte do acervo, cerca de 300 caixas, com livros, teses, documentos, entre outros itens. Com a anu\u00eancia do ent\u00e3o ministro da Cultura do governo Temer, S\u00e9rgio S\u00e1 Leit\u00e3o, o material tamb\u00e9m foi enviado para a Cinemateca, mas para o galp\u00e3o da Vila Leopoldina, que acabou pegando fogo no fim de julho.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As pessoas acham que \u00e9 f\u00e1cil cuidar do acervo. N\u00e3o \u00e9. Foram anos de dedica\u00e7\u00e3o minha e da minha av\u00f3. Ainda estamos avaliando tudo que se perdeu, mas j\u00e1 sabemos que c\u00f3pias de cartazes dos filmes do Glauber, obras do [pintor] Calasans Neto, uma imensa historiografia da produ\u00e7\u00e3o cultural da Bahia, coisas que a pr\u00f3pria Funda\u00e7\u00e3o Cultural da Bahia n\u00e3o tinha&#8230;Tudo se perdeu&#8221;, afirma Paloma.<\/p>\n\n\n\n<p>Questionada sobre uma poss\u00edvel mudan\u00e7a no local de armazenamento, ela diz que n\u00e3o pensa na possibilidade. &#8220;O acervo foi vendido para preserva\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o. Eu n\u00e3o quero tirar de l\u00e1, porque n\u00e3o tem para onde levar. Se algu\u00e9m souber, me avise e fa\u00e7a o processo burocr\u00e1tico, porque j\u00e1 passei dez anos organizando isso&#8221;, complementa.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m da restaura\u00e7\u00e3o de&nbsp;<em>Deus e o Diabo<\/em>, Paloma articula com o governo da Bahia a cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o permanente com a obra do pai no MAM de Salvador. O projeto, em parceria com a Funceb (Funda\u00e7\u00e3o Cultural do Estado da Bahia) e que ainda n\u00e3o tem prazo para conclus\u00e3o, ter\u00e1 a obra digitalizada e itens pessoais de Glauber, como o fac\u00e3o utilizado nas filmagens&nbsp;<em>Deus e o Diabo<\/em>, uma espada de A Idade da Terra (1980) e a c\u00e2mera que filmou&nbsp;<em>Barravento<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;S\u00e3o tr\u00eas terabytes de arquivos que estavam com a Paloma e que est\u00e3o sendo analisados por uma equipe curatorial. Mas o plano \u00e9 que esse material seja disponibilizado ao p\u00fablico, com atividades formativas para jovens, visitas guiadas, para disseminar a hist\u00f3ria do cinema, relacionando a trajet\u00f3ria do Glauber com outros cineastas baianos, uma difus\u00e3o da cultura baiana e brasileira&#8221;, afirma Renata Dias, diretora do \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Abramo, a preserva\u00e7\u00e3o do material \u00e9 um alento em um per\u00edodo de crise do cinema nacional. &#8220;Perder em um inc\u00eandio o processo criativo do Glauber, as leituras que ele faz do Brasil, do cinema, \u00e9 uma loucura. Que possamos resguardar de maneira segura o que resta, a fim de manter ainda mais viva a obra de um g\u00eanio&#8221;, finaliza.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 da cineasta e pesquisadora Paloma Rocha, que credita ao pai, o cineasta Glauber Rocha, uma curva do destino capaz de impressionar at\u00e9 os mais c\u00e9ticos. &#8220;No fim, o projeto est\u00e1 sendo finalizado em um ano importante para ele e para a cultura brasileira&#8221;, completa. O projeto citado por Paloma \u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":34108,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[78],"tags":[],"class_list":{"0":"post-34107","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cultura"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/120194095_fotosebastiao..jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34107"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34107"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34107\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":34109,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34107\/revisions\/34109"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/34108"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}