{"id":33974,"date":"2021-08-25T14:52:52","date_gmt":"2021-08-25T17:52:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=33974"},"modified":"2021-08-25T14:52:54","modified_gmt":"2021-08-25T17:52:54","slug":"como-devastacao-e-aquecimento-podem-fazer-brasil-deixar-de-ser-potencia-agricola-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/08\/25\/como-devastacao-e-aquecimento-podem-fazer-brasil-deixar-de-ser-potencia-agricola-global\/","title":{"rendered":"Como devasta\u00e7\u00e3o e aquecimento podem fazer Brasil deixar de ser pot\u00eancia agr\u00edcola global"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O Brasil viver\u00e1, nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, secas cada vez mais prolongadas, temperaturas mais altas e extremos clim\u00e1ticos que ter\u00e3o um profundo impacto na forma como sobrevivemos e produzimos energia e comida.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, o clima vai mudar tanto a vida nas cidades grandes quanto a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola &#8211; causando o risco de o Brasil perder o status de gigante global na produ\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>E a responsabilidade disso recai sobre o avan\u00e7o do desmatamento, aliado \u00e0s (e potencializado pelas) mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no mundo inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 do cientista do clima Carlos Nobre, que j\u00e1 foi pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), coordena o Instituto Nacional de Tecnologia para Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas e \u00e9 um dos principais especialistas do tema no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Nobre conversou com a BBC News Brasil para comentar os dados rec\u00e9m-divulgados pela organiza\u00e7\u00e3o MapBiomas, que mostram que a superf\u00edcie de \u00e1rea com \u00e1gua no Brasil ficou 15% menor desde o in\u00edcio dos anos 1990 &#8211; esses 3,1 milh\u00f5es de hectares perdidos equivalem a uma vez e meia \u00e0 superf\u00edcie de \u00e1gua de todo o Nordeste.<\/p>\n\n\n\n<p>A maior perda (absoluta e proporcional) de superf\u00edcie de \u00e1gua na s\u00e9rie hist\u00f3rica analisada pelo MapBiomas ocorreu no Mato Grosso do Sul, com uma redu\u00e7\u00e3o de 57%.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais identificou que os focos de inc\u00eandio neste ano at\u00e9 agora cresceram, em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo no ano passado, na Mata Atl\u00e2ntica, no Cerrado e na Caatinga &#8211; neste \u00faltimo, o aumento foi mais de 100%.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Amaz\u00f4nia, o Instituto Imazon aponta que o acumulado do desmatamento na floresta nos \u00faltimos 12 meses at\u00e9 julho atingiu a pior marca dos \u00faltimos dez anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos esses dados est\u00e3o interligados: quanto mais avan\u00e7a o desmatamento &#8211; em conjunto com o aumento das temperaturas globais -, menores ficam as temporadas de chuva no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;H\u00e1 estudos que mostram claramente que as chuvas est\u00e3o diminuindo em \u00e1reas altamente desmatadas, e as esta\u00e7\u00f5es secas est\u00e3o mais longas&#8221;, explica Nobre.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No sul da Amaz\u00f4nia, as secas j\u00e1 est\u00e3o de tr\u00eas a quatro semanas mais longas, com menos chuvas e temperaturas cerca de 3\u00b0C mais altas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O grande problema \u00e9 que, em \u00e1reas desmatadas, perde-se a capacidade de reciclar \u00e1gua, o que intensifica as secas. &#8220;H\u00e1 menos vegeta\u00e7\u00e3o e ra\u00edzes para absorver a \u00e1gua, transpir\u00e1-la e jog\u00e1-la de volta \u00e0 atmosfera&#8221;, diz o cientista.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, quanto mais inc\u00eandios e florestas derrubadas, mais seco e quente o clima ficar\u00e1 no curto e no longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora ainda n\u00e3o seja poss\u00edvel saber se esses efeitos ser\u00e3o permanentes, a secura do clima vivida neste momento em grande parte do Brasil &#8211; parte de uma tend\u00eancia j\u00e1 observada nos \u00faltimos anos &#8211; \u00e9 uma esp\u00e9cie de &#8220;fotografia do que ser\u00e1 o clima do Brasil no futuro&#8221;, observa Nobre.<\/p>\n\n\n\n<p>No &#8220;melhor dos cen\u00e1rios&#8221;, diz ele, a redu\u00e7\u00e3o das chuvas ser\u00e1 de 10%.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mesmo que consigamos manter o m\u00e1ximo de aumento da temperatura (global) em 1,5\u00b0C, que \u00e9 o plano mais ambicioso da Conven\u00e7\u00e3o das Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (o chamado Acordo de Paris), devemos estar preparados para uma esta\u00e7\u00e3o de chuvas mais curta e uma esta\u00e7\u00e3o de secas mais longa na maior parte do Brasil.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Os impactos disso foram observados pelo coordenador do MapBiomas \u00e1gua, Carlos Souza Jr.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As evid\u00eancias vindas do campo j\u00e1 indicam que as pessoas j\u00e1 come\u00e7aram a sentir o impacto negativo com o aumento de queimadas, impacto na produ\u00e7\u00e3o de alimentos, e na produ\u00e7\u00e3o de energia, e at\u00e9 mesmo com o racionamento de \u00e1gua em grandes centros urbanos&#8221;, afirmou Souza no comunicado emitido pela organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Semideserto-no-Nordeste-e-savana-na-Amaz\u00f4nia\">Semi-deserto no Nordeste e savana na Amaz\u00f4nia<\/h2>\n\n\n\n<p>As regi\u00f5es do Brasil a serem mais afetadas pelas secas prolongadas ser\u00e3o o Norte, o Centro-Oeste e o Nordeste, segundo Nobre.<\/p>\n\n\n\n<p>No Nordeste, caso a temperatura global continue aumentando, o perigo \u00e9 &#8220;mais de 50% da regi\u00e3o virar um semi-deserto&#8221;, em vez do semi\u00e1rido atual, explica o cientista.<\/p>\n\n\n\n<p>O\u00a0alerta j\u00e1 havia sido dado, no in\u00edcio de agosto, pelo relat\u00f3rio mais recente do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas\u00a0(IPCC na sigla em ingl\u00eas):<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Nordeste brasileiro \u00e9 a \u00e1rea seca mais densamente povoada do mundo e \u00e9 recorrentemente afetado por extremos clim\u00e1ticos&#8221;, destacou o texto.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto ser\u00e1 direto na vida de ao menos 10 milh\u00f5es de pessoas que vivem atualmente na agricultura e pecu\u00e1ria nordestinas. Isso porque um Nordeste semi-des\u00e9rtico &#8220;n\u00e3o ter\u00e1 agricultura como se pratica hoje. Poderia haver s\u00f3 um pouco de agricultura \u00e0 beira do rio S\u00e3o Francisco, mas mesmo a vaz\u00e3o do S\u00e3o Francisco vai diminuir, afetando tamb\u00e9m o potencial de gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica&#8221;, diz Nobre.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um exemplo da crise h\u00eddrica vivida em todo o Brasil e que j\u00e1 impacta a produ\u00e7\u00e3o de energia pelas hidrel\u00e9tricas do pa\u00eds, leva a aumento nos custos das contas de luz pagas pelos consumidores e for\u00e7a o uso de usinas termel\u00e9tricas &#8211; que, por sua vez, s\u00e3o mais poluentes e contribuem para mais emiss\u00e3o de gases do efeito estufa.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, na Amaz\u00f4nia, o perigo identificado por pesquisadores como Carlos Nobre \u00e9 com o iminente risco de a regi\u00e3o virar uma savana &#8211; perdendo, portanto, as caracter\u00edsticas \u00fanicas de uma floresta tropical.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;V\u00e1rios estudos mostram que se continuarmos a desmatar, vamos passar do que chamamos de ponto de n\u00e3o retorno &#8211; um ponto irrevers\u00edvel de savaniza\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Nobre. Esp\u00e9cies animais e vegetais \u00fanicas do Brasil ser\u00e3o perdidas no processo. &#8220;Antes, v\u00edamos uma mega-seca a cada 20 anos na Amaz\u00f4nia; agora s\u00e3o duas secas por d\u00e9cada.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Em julho, um estudo publicado na revista Nature, que teve participa\u00e7\u00e3o do Inpe, apontou que, por conta do desmatamento e das queimadas, a Amaz\u00f4nia j\u00e1 est\u00e1 emitindo mais CO2 do que consegue absorver.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Precisamos zerar o desmatamento a jato (rapidamente), em poucos anos, no que talvez seja o maior desafio que o Brasil pode enfrentar&#8221;, opina Nobre.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Sa\u00fade-humana-e-agricultura\">Sa\u00fade humana e agricultura<\/h2>\n\n\n\n<p>Se sentimos (literalmente) no corpo os efeitos do clima mais seco na sa\u00fade, a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola tamb\u00e9m vai viver os impactos da escassez de \u00e1gua, explica Nobre.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;(Produ\u00e7\u00e3o de) gr\u00e3os, pecu\u00e1ria &#8211; toda essa estrutura que s\u00e3o importantes elementos econ\u00f4micos (do Brasil) j\u00e1 est\u00e1 sendo prejudicada pelo aumento dos extremos clim\u00e1ticos&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Por mais que empresas de pesquisas, universidades e Embrapa (ag\u00eancia de pesquisas agr\u00edcolas) tentem desenvolver variedades de gr\u00e3os mais adaptadas a secas prolongadas e a temperaturas mais elevadas, o clima est\u00e1 ganhando a guerra. A agricultura tem que se preparar para isso&#8221;, prossegue.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E temos que torcer para (o aumento global da) temperatura n\u00e3o passar de 1,5\u00b0C, porque se n\u00f3s continuarmos com este ritmo de emiss\u00f5es e n\u00e3o tivermos sucesso em zer\u00e1-las at\u00e9 2050, na segunda metade do s\u00e9culo, o Brasil tropical deixar\u00e1 de ser uma pot\u00eancia agr\u00edcola &#8211; ficar\u00e1 muito quente e seco e inapropriado para esse tipo de agricultura&#8221;, prossegue.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele cita como exemplo a queda na produtividade da soja na regi\u00e3o conhecida como Matopiba (que re\u00fane Maranh\u00e3o, Tocantins, Piau\u00ed e Bahia) em decorr\u00eancia do ar mais quente que tem sido soprado da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Boletim de julho da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontou efeitos mistos da crise h\u00eddrica no m\u00eas passado: de um lado, prejudicou a irriga\u00e7\u00e3o de lavouras; de outro, ajudou na matura\u00e7\u00e3o das safras de milho e algod\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Eventos-clim\u00e1ticos-extremos\">Eventos clim\u00e1ticos extremos<\/h2>\n\n\n\n<p>E se no centro e no norte do Brasil as chuvas ficar\u00e3o mais escassas, a tend\u00eancia \u00e9 de que o mesmo n\u00e3o se repita em parte do Sudeste e Sul do pa\u00eds &#8211; que podem, na verdade, ver sua quantidade de chuvas aumentar nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, diz o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, essas regi\u00f5es (onde o clima \u00e9, por si s\u00f3, mais ameno que no restante do pa\u00eds, por sua localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica) podem acabar ganhando for\u00e7a na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O que n\u00e3o significa, por\u00e9m, que n\u00e3o sofrer\u00e3o com os devastadores efeitos dos chamados eventos clim\u00e1ticos extremos, como chuvas torrenciais, secas prolongadas e ondas de calor.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Com o aumento gradual do n\u00edvel do mar, os eventos extremos que ocorreram no passado apenas uma vez por s\u00e9culo ocorrer\u00e3o com mais frequ\u00eancia no futuro&#8221;, disse, na ocasi\u00e3o do lan\u00e7amento do relat\u00f3rio, Val\u00e9rie Masson-Delmotte, copresidente do grupo de trabalho do IPCC que produziu o texto.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, segundo Carlos Nobre, mesmo que &#8211; hipoteticamente &#8211; n\u00e3o houvesse um aquecimento global em curso no mundo, os sucessivos recordes de desmatamento na Amaz\u00f4nia e no Pantanal j\u00e1 estariam tendo impactos nocivos sobre o clima brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, os dois fen\u00f4menos &#8211; desmatamento e aumento das temperaturas &#8211; t\u00eam ocorrido juntos, potencializando um ao outro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mesmo no ano passado, quando a maioria dos pa\u00edses reduziu suas emiss\u00f5es (de gases do efeito estufa) por conta da pandemia, o Brasil aumentou suas emiss\u00f5es por culpa do desmatamento&#8221;, diz Nobre.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora ele destaque que, nos \u00faltimos anos, o Brasil avan\u00e7ou em construir uma matriz energ\u00e9tica mais limpa &#8211; cerca de 11% da nossa energia vem de fontes e\u00f3licas ou solares, diz ele -, o Brasil, at\u00e9 o momento, &#8220;est\u00e1 na contram\u00e3o dos compromissos assumidos&#8221; de participar do esfor\u00e7o contra o aquecimento global.<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil viver\u00e1, nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, secas cada vez mais prolongadas, temperaturas mais altas e extremos clim\u00e1ticos que ter\u00e3o um profundo impacto na forma como sobrevivemos e produzimos energia e comida. 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