{"id":33897,"date":"2021-08-21T12:52:02","date_gmt":"2021-08-21T15:52:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=33897"},"modified":"2021-08-21T12:52:03","modified_gmt":"2021-08-21T15:52:03","slug":"preferia-dormir-nas-ruas-do-brasil-a-voltar-ao-afeganistao-diz-refugiada-em-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2021\/08\/21\/preferia-dormir-nas-ruas-do-brasil-a-voltar-ao-afeganistao-diz-refugiada-em-porto-alegre\/","title":{"rendered":"\u2018Preferia dormir nas ruas do Brasil a voltar ao Afeganist\u00e3o\u2019, diz refugiada em Porto Alegre"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A menina caminha nas ruas de terra para comprar alimentos na venda perto de casa. De repente, ouve o barulho ensurdecedor de uma explos\u00e3o. Poeira branca sobe, cobre totalmente a vis\u00e3o. Tudo parece suspenso no ar at\u00e9 que gritos lacerantes interrompem o sil\u00eancio. Aos poucos, os olhos voltam a enxergar o ch\u00e3o, agora tingido de vermelho. A menina se v\u00ea rodeada de sangue que n\u00e3o \u00e9 dela.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mais de uma vez, Nabila Khazizadah esteve diante dessa cena.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Muitas pessoas morreram na minha frente. Eu sa\u00eda para a rua para comprar alguma coisa e n\u00e3o sabia se iria voltar. Ca\u00eda bomba, levantava fuma\u00e7a, ficava tudo branco e, de repente, era sangue para todo o lado.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi para evitar que um dia o sangue no ch\u00e3o fosse dela que Nabila e a fam\u00edlia buscaram ref\u00fagio na \u00cdndia e, depois, no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Afeganist\u00e3o sempre esteve em guerra, desde que eu nasci foi assim, bombas e medo. At\u00e9 que os taleb\u00e3s tomaram a nossa casa e perdemos tudo&#8221;, contou \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Nabila, o pai, a m\u00e3e e o irm\u00e3o se mudaram para a \u00cdndia depois de perderem a casa para o Taleb\u00e3. No novo pa\u00eds, chegaram a dormir nas ruas e passar fome, enquanto o pai tentava manter a fam\u00edlia vendendo chinelos entre carros e transeuntes.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns anos depois, o pai de Nabila a casou com um afeg\u00e3o, tamb\u00e9m refugiado na \u00cdndia, e o casal teve dois filhos. &#8220;Meu marido decidiu pedir ao governo indiano para sermos reassentados em outro pa\u00eds que desse aux\u00edlio e tivesse mais oportunidades de trabalho&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi assim que come\u00e7ou a jornada para o Brasil. Meses depois do pedido, receberam a not\u00edcia de que o governo brasileiro havia aceitado reassent\u00e1-los. A not\u00edcia surpreendeu. Brasil? Eles tinham uma ideia muito remota do que era esse pa\u00eds t\u00e3o distante de tudo o que conheciam.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente disse: &#8216;mas a gente n\u00e3o sabe como \u00e9 o Brasil, como \u00e9 a l\u00edngua, a cultura&#8217;. Sa\u00edmos com olhos fechados, no escuro, jogando na sorte&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tudo o que a gente queria era um futuro para nossos filhos, mais calmo, mais saud\u00e1vel.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"O-in\u00edcio-da-vida-no-Brasil-\">O in\u00edcio da vida no Brasil<\/h2>\n\n\n\n<p>Nabila, o marido e os dois filhos, de 7 e 8 anos, embarcaram num avi\u00e3o junto com outras quatro fam\u00edlias afeg\u00e3s que seriam reassentadas num programa do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a com a Ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Refugiados (Acnur), lan\u00e7ado logo ap\u00f3s o in\u00edcio da Guerra do Afeganist\u00e3o, em 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles foram encaminhados para Porto Alegre e passaram a receber ajuda financeira mensal de R$ 260, mais R$ 13 por crian\u00e7a, al\u00e9m de aluguel, energia, cesta b\u00e1sica, rem\u00e9dios e transporte escolar, pagos pela Acnur.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a esperan\u00e7a de recome\u00e7ar num pa\u00eds onde teria direitos assegurados se misturava \u00e0 dor da saudade dos pais e irm\u00e3o, que ficaram na \u00cdndia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Fiquei tr\u00eas meses fechada dentro de casa chorando, pensando no que eu faria longe da minha fam\u00edlia. Depois eu pensei, isso n\u00e3o adianta, chorando dentro de casa eu n\u00e3o vou conseguir fazer nada. Eu tenho que colocar a cara \u00e0 tapa e aprender portugu\u00eas&#8221;, contou \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Sa\u00ed pelo bairro falando com as vizinhas, tentando fazer amizades.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Cuidado-com-a-mulherbomba\">&#8216;Cuidado com a mulher-bomba&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas a adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi f\u00e1cil. E, depois de um ano, os benef\u00edcios pagos pela Acnur, que eram tempor\u00e1rios, cessaram.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O portugu\u00eas \u00e9 uma l\u00edngua muito dif\u00edcil e a gente n\u00e3o sabia ainda como funcionavam as coisas. Come\u00e7amos a correr atr\u00e1s e meu marido conseguiu emprego.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao andar pelas ruas de Porto Alegre com os cabelos totalmente cobertos pelo hijab, Nabila sentia os olhares desconfiados dos brasileiros que nunca tinham convivido com mulheres de v\u00e9u. Alguns chegavam a reagir com hostilidade e se recusavam a sentar ao lado dela no \u00f4nibus.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o tinha afeg\u00e3os l\u00e1 naquela \u00e9poca, n\u00e3o tinha mu\u00e7ulmanos. As pessoas me viam com o hijab e sa\u00edam de perto, n\u00e3o queriam sentar ao meu lado no \u00f4nibus. Alguns falavam: sai de perto, \u00e9 mulher-bomba, vai explodir.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Os filhos, no entanto, se adaptaram rapidamente e, aos poucos, Nabila fez amizades com as vizinhas, a quem chama hoje de irm\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas comecei a ter problemas com meu marido. Ele passou a ter ci\u00fames. N\u00e3o queria deixar os nossos filhos sa\u00edrem de casa, nem que eu trabalhasse, apesar de a gente precisar do dinheiro&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2007, o marido de Nabila decidiu voltar ao Afeganist\u00e3o. Ela se recusou a sair do Brasil e n\u00e3o deixou que ele levasse os dois meninos. Mesmo sem dinheiro e emprego, Nabila se separou do marido e decidiu que daria um jeito de sustentar a fam\u00edlia sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu preferia dormir nas ruas do Brasil a voltar ao meu pa\u00eds. Eu conseguiria alimentar meus filhos mesmo na rua, mas n\u00e3o podia deixar que eles vivessem na guerra&#8221;, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu me sentiria mais segura dormindo na rua no Brasil que numa casa no Afeganist\u00e3o, que pode ser bombardeada a qualquer momento.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"A-busca-por-emprego\">A busca por emprego<\/h2>\n\n\n\n<p>O marido voltou ao Afeganist\u00e3o e Nabila ficou com os meninos. Sem a renda do marido, ela teve que batalhar muito para garantir o aluguel do apartamento e comida para a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu nunca tinha trabalhado na minha vida e comecei a trabalhar. Desde que comecei a trabalhar, n\u00e3o parei mais. Eu nunca disse n\u00e3o. Eu cuidei at\u00e9 de tartaruga e do gato do vizinho&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Faz 15 anos que Nabila trabalha na casa de uma fam\u00edlia pela manh\u00e3. &#8220;Fa\u00e7o de tudo: limpo, passo, cozinho. S\u00e3o pessoas muito boas. E confiam em mim. Isso n\u00e3o tem pre\u00e7o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>De tarde, ela cuida de uma idosa. &#8220;Fico de 14h \u00e0s 20h com ela. \u00c9 uma pessoa maravilhosa.&#8221; Atualmente, os filhos de Nabila t\u00eam 27 e 28 anos, trabalham e s\u00e3o independentes financeiramente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eles s\u00e3o rapazes bons. Um \u00e9 o bra\u00e7o direito do dono de um restaurante japon\u00eas. O chefe tem confian\u00e7a total nele para tomar conta do restaurante. O outro \u00e9 auxiliar de cabelereiro, mas j\u00e1 corta cabelo, faz tudo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"O-reencontro-com-os-pais\">O reencontro com os pais<\/h2>\n\n\n\n<p>H\u00e1 dois anos, Nabila conseguiu realizar o sonho de rever os pais, depois de 17 anos. O casal de idosos hoje mora nos Estados Unidos &#8211; eles foram reassentados ap\u00f3s pedido feito ao governo americano, alguns anos depois de Nabila vir ao Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu queria muito ver meus pais. Eles t\u00eam diabetes, s\u00e3o idosos e eu precisava abra\u00e7\u00e1-los mesmo que fosse uma \u00faltima vez&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela tentou obter o visto de turista para viajar aos EUA, mas teve o pedido negado. &#8220;Fiquei arrasada, mas a\u00ed meu pai deu um jeito de vir ao Brasil com a minha m\u00e3e, mesmo estando muito idosos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O reencontro foi emocionante. &#8220;Meus pais n\u00e3o entendiam como eu podia ter conseguido sustentar minha fam\u00edlia sozinha. Eles diziam: &#8216;Mas minha filha, voc\u00ea est\u00e1 sozinha, sem um afeg\u00e3o? Pensavam coisas que n\u00e3o tinham nada a ver.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegar ao Brasil, o pai e a m\u00e3e de Nabila reviram os netos, j\u00e1 adultos, e conheceram as muitas amigas que a afeg\u00e3, hoje com 43 anos, fez no pa\u00eds. Perceberam que ela tinha constru\u00eddo, \u00e0 sua maneira, uma nova fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando estava indo embora meu pai disse: &#8216;agora n\u00e3o tenho uma filha, tenho v\u00e1rias filhas&#8217;. Eles viram que eu estava rodeada de pessoas. A gente tamb\u00e9m pode construir fam\u00edlia de afeto. Tenho amigas que me amam como irm\u00e3.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Quase 20 anos depois de chegar ao Brasil, Nabila diz que, apesar das dificuldades de adapta\u00e7\u00e3o nos primeiros anos, hoje se sente em casa. Ela fala portugu\u00eas fluentemente, com um leve sotaque. N\u00e3o abre m\u00e3o de usar o hijab nas ruas e de frequentar a mesquita da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Brasil \u00e9 um pa\u00eds bom. Se n\u00e3o fossem os roubos, seria o melhor pa\u00eds do mundo. Eu, mesmo se tivesse oportunidade de morar no Canad\u00e1 ou nos Estados Unidos, iria querer continuar a morar no Brasil. As pessoas aqui s\u00e3o maravilhosas, s\u00e3o acolhedoras, sabem olhar para a dor do outro.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A menina caminha nas ruas de terra para comprar alimentos na venda perto de casa. De repente, ouve o barulho ensurdecedor de uma explos\u00e3o. Poeira branca sobe, cobre totalmente a vis\u00e3o. Tudo parece suspenso no ar at\u00e9 que gritos lacerantes interrompem o sil\u00eancio. 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